Subversa

Náuvio | Alexandre Costa (Porto, Portugal)


pai,

sei hoje que os nossos corpos

são setas.

quando desvalorizei a ladainha

da queda

não esperava que o tempo me sujasse a boca

de sangue

 

sei hoje, os nossos corpos vivem

no precário equilíbrio

de um voo soprado.

sei que a viagem me dá

amplas belas visões

de argúcia e sangue raiado

 

só não previa a fraqueza

dos ares,

não antecipei os movimentos rotatórios

da volúpia

 

desculpa pai

a tua vontade ecoará

para lá dos tempos.

não serei se não

um simulacro lento

da queda que me ensinaste

 

estarei destinado a estar aqui

de poltrona privilegiada

em que os dias se perdem

e a noite rasga na carne chagas

em que a cinza se acumula

pelos cantos

 

aqui estarei pousado de óculos

redutores, que miopizam

não verei a profundidade de cada chaga

morrerei como as horas passam

e a chuva seca


ALEXANDRE COSTA | nasceu na Amadora em 1991, mas vive no Porto. É licenciado em Ciências do Desporto e mestrando Estudos Literários, Culturais e Interartes. Escreve poesia e ocasionais contos. Lançou um livro o ano passado – O Que Traz A Noite (Lisboa, Capital Books, 2016).

Sobre o Autor

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