Subversa

nebulosa nº 6 | Clarissa Comin (Curitiba)


Charles de Gaulle, étoile imense, tendre et malade, mal abriu os olhos e já saiu virando o mundo de pernas pro mar (desejo de evasão); mas sem conseguir escalar as imensas, doces e doentes estrelas destacadas em sua lapela de general cordimundo cinza (ou eram marrom pastel? seus poetas e pintores favoritos roubaram cores de um altar em Aix-en-Provence; breve pesquisa sobre homens e humanos: duas categorias esquadrinhadas durante uma disciplina de inverno, Cambridge School: that’s one small step for a man, one giant leap for mankind; os grandes passos de pequenos homens não interessam para a humanidade, assim como esta mania de avisos colados em porta de dormitório –  for girls only –, onde conheci Sally e suas três primas, tragando palheiros de Havana (era uma vizinha quem trazia das férias escusas); são seus! fica à vontade pra pegar, se quiser, ou então deixa aí para aquele seu amigo que sempre me interrompe para explicar… ainda há tempo e tento estabelecer contato visual com o tal sujeito, trajando um capote militar surrado, mas a lama me escorrega e sou motivo de risada; quebrei o gelo; dezembro de mil setecentos: o norte e o sul em pé de guerra, muito troco vertido a troco de sangue; isso foi bem antes da chegada do robusto presente galício: veio desmontado, em três navios; sir Lincon, liberdade ainda que tardia, ninguém deu fé e rebeliões de negros foragidos puseram os cabelos da madame em pé, bem diferente do filme ridículo, feito em dois mil e vinte e cinco, sobre esta guerra hoje em curso e tantas, tantas outras… o que interessa? time is money, let’s make things better; do it yourself, mad men; and a cidade fantasma – a décima oitava mais populosa – é novamente notícia de telejornal, pois desde a grande crise, foi queda bolsa de valores?, todos debandaram, viraram mendigos ou os dois; mas isso sempre foi: depois de vinte e nove, depois de setenta e seis, dez anos antes de você nascer! então corta essa de premonição, porque o império teve quedas e ascensões repentinas e não foi preciso comentarista seis da tarde, formado em relações públicas, predizer as finanças alheias; então, eu estava falando sobre a cidade falida, fundada por um francês, cujo nome original era alguma coisa d’étroit, quase rima com étoile – teria sido um casamento mais feliz); contudo, Charles foi mais esperto do que nosso Carlos, teve mais remelexo nessa cintura dura de europeu sem graça, que não sabe rebolar; deixou à mercê do inimigo seu povo, ao se passar por bom moço no exílio, enquanto fustigava almas negras em colônias, departamentos, regiões além mar, apoiando o desensino do inglês em sua terra natal; fez que fez, disposição ambígua do zodíaco, e acabou empalhado em bronze viril pelas praças e hoje conflita os estados da matéria: sua imagem gelatinosa de outrora flutua e acaba sempre como ponte, escala dórica, nos destinos de quem se põe a voar.


CLARISSA COMIN | doutoranda em Estudos Literários na UFPR e professora de língua francesa. Tem traduções e textos publicados em revistas como Qorpus, Canguru e Germina. Em 2018.1 vai publicar sua primeira ficção, vasto trovarr, pela editora Benfazeja. Nasceu em Fortaleza e reside em Curitiba. | cominclarissa@gmail.com

 

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