Subversa

O conto do enforcado | Herbert do Nascimento (Belo Horizonte, MG)


Brittes olhou ao redor e viu o corpo nu dela ao seu lado, um pedaço de lençol a cobrir-lhe um pedaço da bunda e os cabelos brancos como ondas geladas flutuando sobre os travesseiros. Acordava. Deu uns passos ainda bêbados até o fogão e serviu do bule um café velho com gosto de amores passados e bitucas de cigarro. O gosto amargo da velhice da boca dela curtido naquele café de ontem.

Tentava se lembrar da noite anterior e no porquê tinha aquela mulher que não amava deitada na sua cama. Tentava se lembrar de onde fora parar a sua ambição.

Sua compulsão pela companhia feminina era sua única falta. Além das outras pequenas falhas morais, como roubar nas cartas. Mas jogava limpo no amor e disso não o podiam acusar. Além de outras falhas de caráter, como afanar a carteira dos bêbados da Barra Funda. Mas sempre tratava a todos com o máximo respeito que a educação e as convenções ditavam. Além de outras falhas de hombridade, como ter largado mulher e filho em Riacho da Bica Grande, interior do Paraná. Mas a eles enviava uma soma considerável de dinheiro sempre que podia. Além de outras pequenas falhas no convívio social, como ter apunhalado Compadre Zéfiro pelas costas após perder as graças de Dona Francisca pouco depois do carnaval de 73. Mas dava esmola aos mendigos e alimentava os cães no Largo do Café, de modo que uma coisa sempre acabava compensando a outra.

Dona Francisca era dama de respeito, viúva e herdeira de uma rede de cortiços na região do Bom Retiro. Tinha alguns amantes com quem passava o tempo e, dentre os nulos com quem se associava, Roberto Brittes era um dos mais frequentes e ele não tinha qualquer ciúme dos demais. Dizia Francisca que Brittes fodia como um faminto. Dizia que a fazia se sentir como uma rainha. Dizia que a auxiliava a tocar os negócios. Quando o Senhor B. não estava jogando ou bebendo, ajudava a matrona na cobrança dos aluguéis dos cortiços que ela possuía. Só não ajudava mais porque cuidava, em primeiro lugar, das prioridades ditadas pelo vício.

Dos vícios que tinha, e eles não eram poucos, o que mais atrapalhava Roberto Brittes em sua função de administrador assistente era a sua fixação pelo carteado. Jogava do uíste ao bridge, da tranca ao truco, mas o poker… o poker era onde se sentia mais em casa. Participava principalmente das mesas clandestinas dos inferninhos da Augusta, onde era mais um entre os diversos lazarones e escroques anônimos da região.

Quem não era anônimo, de forma alguma, era Compadre Zéfiro, falso pai de santo, verdadeiro falsário, notório trapaceiro, procurado pela polícia paulista após, dizia-se, ter aplicado o famoso golpe do tira-sete no próprio Senhor Governador do Estado.

Enquanto Brittes trabalhava as cartas e as garrafas como um profissional: constante, perdendo tudo o que ganhava em mãos pobres com parceiros imprestáveis para depois, metodicamente, nocautear a si mesmo com a pinga mais barata que tivesse à mão; Zéfiro encarava a tudo como uma grande brincadeira: não bebia, não era pego roubando e não arranjava briga. Mas apresentava um trato de personalidade que afrontava Brittes no que lhe era mais sagrado: Zéfiro nutria afeto zeloso pela ocupação de cornear os trouxas.

E assim começou a rusga entre os dois, na mesa de poker do London American Bar. Sem um pingo de humor ou esforço, um Zéfiro afundado numa tigela de azeitonas em conserva limpou completamente a carteira de Brittes. Na verdade, assim começou o ódio do Sr. B. contra o oponente e não o oposto. Zéfiro nem se dera conta do que fizera. Era sua profissão, era como pagava as contas, era como arrumava dinheiro para os presentes caros que dava para as madames de Higienópolis. Mas aquela primeira derrota no London havia causado nele uma profunda impressão. Tinha sido como o recuo do mar antes de uma grande vaga, daquelas que vêm, te acertam e te fodem completamente.

Como Compadre Zéfiro era frequente no London, Brittes abandonou seu lugar ali e passou a marcar presença nos fundos do Crystal. Quando o Compadre também passou a frequentar o Crystal, B. foi para o Baton Rouge. O mesmo ocorreu ali e então se refugiou na mesa de canastra em Casa de Alaíde. Em pouco tempo, lá estava o nêmesis, limpando a mesa e a carteira de Sr. B.

Como já não tinha mais mesa onde frequentar, Brittes começou a passar a maior parte do tempo em casa de Dona Francisca. A matrona era agora sua única profissão e sua fonte de renda. Ele não mais saía com as putas do Glicério, não jogava e não bebia tanto quanto antes. De certa forma, a onipresença de Zéfiro nos círculos de jogatina tinha amainado o espírito histrião de Brittes e este agora focava suas atenções em sua protetora e nos negócios dela.

Esta configuração de coisas funcionou até o dia em que parou de funcionar. Francisca não era mulher de um homem só. As brigas começaram e, após cada discussão, Brittes fugia para um boteco diferente a fim de cuidar dos ferimentos e de seu orgulho machucado, uma vez que Francisca era muito maior que ele. Nosso triste cafifa, porém, sempre voltava.

E numa dessas voltas encontrou o raquítico Compadre Zéfiro escalando a enorme carcaça de Francisca. Era o motivo que queria para se vingar de seu desafeto. Sacou do cinto o canivete que sempre carregava e o cravou no meio das costas do inimigo. Fugiu antes que a antiga amante tivesse tempo de se compor e dar-lhe uma lição.

Arruinado e malfalado, já não era aceito nas mesas habituais. Os recursos iam embora rapidamente, tinha que arrumar outra profissão. Tinha que arrumar outra companheira.

Com Compadre Zéfiro fora do jogo por um tempo, mas com o nome sujo na praça e sem os cuidados da sua protetora, Brittes via seu futuro como incerto. Por isso, como próximo passo lógico para se reagrupar e decidir o que fazer, foi consultar a Mme. Nicoleta, a segunda melhor cartomante da Sé, famosa entre as putas e os vagabundos que ainda tinham superstição, esperança e alguns cruzeiros.

Nicoleta jogava o tarô Rider-Waite num quarto alugado num puteiro frequentado pelos estudantes da São Francisco. Guardava o dinheiro que ganhava depenando os patetas que vinham com ela se consultar para, dizia, poder se mudar para Paris e aprender o verdadeiro jogo de tarô.

No pequeno quarto de paredes vermelhas, Mme. Nicoleta viu alguma coisa, não se sabe se no futuro de Brittes ou em sua figura tragicômica, que a fez pensar ser uma boa ideia se juntar ao gigolô. Brittes, por sua vez, viu em Nicoleta alguma coisa que lhe poderia ser útil, talvez pudesse aprender o novo jogo.

As cartas foram deitadas sobre o pequeno xale catalão estendido na mesinha de pernas bambas e a Lua invertida na Casa 1 deu o tom da conversa. A Roda da Fortuna na casa 3 deu as dicas. O Sol na casa 10 foi a confirmação. De lá para o cafofo do Sr. B., foi um pulo. O oito de paus na casa 6 havia mostrado o caminho.

Agora Brittes se lembrava. Sentado no descanso da janela do quarto-e-cozinha apertado, bebendo o fel de belzebu de uma xícara trincada e olhando para as marcas de seus tapas nas nádegas da velha cartomante, lembrava-se que queria aprender aquele novo jogo, ser um mestre no novo baralho. Lembrava-se de onde queria chegar. E, principalmente, lembrava-se de quem era, ao ver a carta do Enforcado jogada no chão sujo.


HERBERT DO NASCIMENTO (Santo André, 1987) | Estudante de Letras na UFMG. Tradutor e escritor, tem contos publicados nas revistas Subversa e Philos. Escreve sobre os personagens marginais das grandes metrópoles. | HERBERT_HN@HOTMAIL.COM

 

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