Subversa

O Dia do Búfalo | Matheus Hotz (Juiz de Fora, MG)


porta adentro

assim começa o primeiro

movimento dos cascos

batidas invertidas

no piso revestido de madeira

o pé reconhece a memória do chão reconhece a postura

do corpo reconhece a textura do ar antes do ataque

o primeiro bufar sinaliza cuidado

o segundo sinaliza o gatilho

o terceiro sinaliza que amanhã um dos dois

dormirá com as vacas

um, dois, três cortes

quem soube dormir com o olho aberto

e a espada no ar

quem soube do búfalo solto

das rédeas

procurou abrigo

(com a boca ele torce

as maçanetas)

qualquer movimento brusco

é inútil

 

quem soube da guerra

guerreou também

o pé entre os cacos colhe

o dia ido das pratas

o olho colhe a bomba

a voz do grito

as manadas batendo o pé

na terra

um, dois, três granadas

o rosto da besta

é o rosto do búfalo

no teu sonho

de tigresa

enquanto ele escapa

gira sobre os

cascos

explode fogão

pratos cozinha

a casa inteira

 

o rosto do búfalo perdura entre

os retratos

o bicho é a memória da caça

é a memória do tiro é a memória do rosto

do bicho caçado

um, dois, três a largada

de novo é o dia do búfalo

teu sonho de homem

já não gosta da presa

mais do que gosta da caça


MATHEUS HOTZ | desistente do curso de Letras da UFJF, atualmente se identifica como uma geladeira de segunda mão. Publica seus poemas no blog Poemas Para Sair de Casa e lançará seu primeiro livro O Dia do Búfalo pelas Edições Macondo em 2018. | hotzmths@gmail.com

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