Subversa

O ditador e a poesia | João Cerqueira (Viana do Castelo, Portugal)

"Repreensão Poética", ilustração de Lila Bitten

“Repreensão Poética”, ilustração de Lila Bitten

O ditador estava preocupado com o estado do país. Corriam rumores de que o povo andava triste, tinha perdido a alegria de viver, não demonstrava iniciativa. O ditador não podia compreender por que tal sucedia. Afinal, ele tomava conta deles, dava-lhes tudo o que eles precisavam, resolvia-lhes todos os problemas. ‘’Porquê?’’, perguntava-se, ‘’o que terá acontecido?’’ Não sabia a resposta, mas tinha a certeza de que só poderia ser algo muito grave. Os seus opositores – todos presos – diziam que a razão era a falta de liberdade. ‘’Tolices’, pensava o ditador, no seu país não existia nenhuma falta de liberdade, toda a gente podia sair de casa, ir trabalhar e passear com a família quando quisesse. Só as pessoas que criavam problemas é que eram presas. Os restantes cidadãos eram até mais livres do que os povos de outros países porque estavam protegidos por si.

Desesperado, reuniu-se com os seus três conselheiros.

– Quero saber o motivo do meu povo andar deprimido! A minha reputação está em jogo. Dou-vos uma semana para me apresentardes relatórios.

Os conselheiros olharam uns para os outros assustados.

– Os motivos são complexos, senhor presidente… – disse um deles.

– A culpa é dos nossos inimigos… – disse outro.

– O povo é assim mesmo, nunca está contente com nada… – disse o terceiro conselheiro.

– Calai-vos – gritou o ditador. Quero provas concretas. E se dentro de uma semana não conseguirdes descobrir o verdadeiro motivo, ides todos para a cadeia. Está encerrada a sessão.

Uma semana depois o ditador voltou a reunir-se com os três conselheiros. Estavam pálidos, com olheiras e mais magros. O ditador mandou-os sentar e começou a interrogá-los.

– Começas tu – e apontou o dedo a um dos homens.

O visado estremeceu, engoliu em seco, e só então falou.

– Senhor presidente… estudei a fundo o problema e cheguei à conclusão de que o povo anda deprimido por causa… por causa do aquecimento global…

– Idiota. Guardas, prendam-no! – gritou o ditador. E agora fala tu – e apontou o dedo a outro conselheiro.

Este fechou os olhos e pareceu entoar uma reza antes de falar.

– Senhor presidente… fiz uma pesquisa entre os cidadãos e conclui que… que as pessoas estão preocupadas com o seu estado de saúde…

– Quem vai ter problemas de saúde és tu. Guardas, prendam-no.

Sabendo-se perdido, o terceiro conselheiro aceitou o seu destino e, de entre as várias teorias que tinha inventado para agradar ao ditador, escolheu aquela que lhe pareceu mais disparatada. Pelo menos, gozaria um pouco com ele.

– Senhor presidente, a razão é a poesia…

O ditador não contava com aquilo.

– O quê?

– Sim, senhor presidente. O povo anda a ler demasiada poesia e depois fica triste.

O ditador olha-o desconfiado.

– A poesia põe as pessoas tristes? Eu pensava que os poetas falavam de amor, felicidade, gozo da vida…

– Alguns poetas sim, mas os nossos só compõem versos deprimentes. Ouça este:

Não haverá um cansaço

Das coisas,

De todas as coisas,

Como das pernas ou de um braço?

 

Um cansaço de existir,

De ser,

Só de ser,

O ser triste brilhar ou sorrir…[1]

– Realmente é horrível! Até a mim me deprime.

– Está a ver? É esta a verdadeira razão do povo estar infeliz.

– Malditos poetas. Eu bem sabia que havia alguma coisa errada com estes tipos. Que tipo de homem é que perde o seu tempo a fazer versos?

– São pessoas fracas, incapazes de suportar os problemas da vida. Os homens verdadeiros, como o senhor presidente, pegam em armas e lutam. Os poetas baixam os braços e choram. A poesia é isso mesmo: uma choradeira sem fim.

– Tens razão, os poetas são uns desgraçados que corrompem a sociedade.

– Muitos deles suicidam-se para provarem que a vida não tem sentido. Por muito que um governante faça, os poetas deitam tudo abaixo. E basta-lhes uma caneta e uma folha de papel…

– Nunca pensei que pudesse ter um inimigo assim.

– A poesia é a maior ameaça ao seu governo, senhor presidente. Os outros opositores dizem o que pensam, são previsíveis, podemos controlá-los. Os poetas, não, dissimulam as suas intenções e nunca sabemos o que andam a tramar.

– A poesia é uma arma…

– Eu diria que é um veneno…

– A partir de hoje, acabaram-se os poemas. Prende esses tipos!

No dia seguinte, todos os poetas e poetisas que tinham publicado livros ou escrito versos para revistas e jornais foram presos. Foi decretado que doravante a poesia, escrita ou declamada, ficava proibida. A posse destes livros seria considerada um acto de terrorismo. A população foi obrigada a entregá-los e fez-se uma grande fogueira numa praça. Pelo ar enrolaram-se versos de fumo.

O ditador fez algumas aparições públicas e comprovou que já se notavam algumas melhorias no humor da população. Viu até uma adolescente a sorrir. ‘’Isto leva algum tempo, mas daqui a alguns meses já deverão ser felizes outra vez’’ – disse para consigo. Ter erradicado a poesia fora a melhor decisão da sua vida.

Foi então que numa festa em honra de um diplomata recém-chegado conheceu Madalena, a sua esposa. Era uma ruiva de olhos verdes, alta e elegante. Tinha um vestido azul colado ao corpo. O ditador nunca vira uma mulher assim. A voz dela silenciou o barulho à volta. O toque da sua mão deixou-o arrepiado. Durante o serão, seguiu-a com os olhos, tentou manter-se perto dela, mas não foi mais capaz de lhe falar. O coração atravessava-se-lhe na garganta e a boca fechava-se como uma cela.

Quando se deitou sonhou com ela o resto da noite.

No dia seguinte mandou chamar o único conselheiro que lhe restava.

– Eu quero a mulher do embaixador. A ruiva…

O conselheiro percebeu que estava de novo em apuros.

– Senhor presidente, esta mulher é diferente das outras. Não pode raptar a esposa de um diplomata. Haveria uma guerra…

O ditador ficou a olhar para o chão. Sem muita convicção, perguntou.

– E qual é o problema?

– O problema, senhor presidente, é que o país dele é mais forte do que o nosso.

O ditador coçou o queixo durante alguns segundos.

– E se ela vier ter comigo de livre vontade? Já não haverá nenhum problema, pois não?

– Nesse caso, suponho que não…

O ditador dá uma gargalhada.

– Pois então, será fácil. Como poderá ela resistir-me?

– Sim, como poderá ela resistir-lhe…?

Nesse mesmo dia, o ditador enviou um convite ao embaixador para uma festa dentro uma semana. Chamou o seu alfaiate para lhe fazer um fato novo, deixou que o barbeiro lhe aparasse as sobrancelhas e, pela primeira vez na vida, mandou comprar um perfume.

Madalena apresentou-se com um vestido preto e uns sapatos de tacão alto. O seu cabelo parecia estar em chamas e os seus olhos cintilavam como pirilampos. O ditador achou-a ainda mais bela. Como o conselheiro fora encarregado de entreter o marido, ficou com o caminho livre. E desta vez não lhe faltou a coragem para a abordar. Convidou-a a sentar-se numa varanda com vista para o mar e ofereceu-lhe champanhe. Depois, conservou com ela sobre os seus temas favoritos: o governo do país, as medidas em prol dos cidadãos, o futuro da humanidade.

Estava tudo a correr bem quando ela disse algo inesperado.

– Se realmente deseja o bem do seu povo, deve libertar imediatamente os presos políticos.

O ditador ficou perplexo.

– Mas não existem presos políticos no meu país. Eu apenas prendo pessoas perigosas para a sociedade.

Madalena levanta-se. A brisa espalha-lhe os cabelos.

– Se não prometer que vai libertar essas pessoas, não poderei voltar a conversar consigo.

O ditador abre os braços e entorna a garrafa de champanhe.

– Está bem, prometo. Se isso a faz feliz, amanhã mando libertá-los.

No fim da festa, o ditador estava radiante. Que importância tinha libertar aqueles patetas? Dali a uns tempos voltaria a prendê-los de novo. Por agora, o importante era agradar àquela deusa. Libertava até os poetas, se ela lhe tivesse pedido.

 Dias depois, planeava o ditador o próximo passo para a seduzir – uma nova festa? enviar-lhe flores? uma parada militar? – quando recebe uma mensagem dos seus espiões: ‘’A mulher do embaixador apanhou um avião e foi-se embora…’’. O ditador não quis acreditar – devia haver algum engano. Como poderia aquela mulher tê-lo deixado sem sequer se despedir? Estava praticamente seduzida.

Pegou no telefone e ligou para o embaixador.

– Senhor embaixador, disseram-me que a sua esposa partiu…

– Sim, não se adaptou ao clima e à comida…

O ditador deixou cair o auscultador. Nesse dia cancelou todos os compromissos.

Nos dias seguintes o ditador continuou a isolar-se, dando ordens para ninguém o incomodar quando se fechava no seu gabinete. Às refeições comia pouco, mas bebia demais. Na cama enfrentava noites de insónia. Quando sonhava, Madalena aparecia-lhe nos braços de outros homens. Aos poucos, começou também a emagrecer, a ficar pálido e a ganhar olheiras. Deitou fora o perfume. Vagueava pelo palácio como um fantasma e ficava horas à varanda a olhar para o mar. Se alguém lhe perguntava se precisava de algo, não respondia. Mas, por vezes, falava sozinho. Por fim, desinteressou-se do governo do país e deixou que o seu conselheiro tomasse decisões por ele.

Uma manhã, a porta do quarto do ditador abre-se num estrondo e surge um grupo de soldados que lhe apontam metralhadoras. Atrás deles estava o conselheiro.

– Informo-o que foi deposto. Agora o presidente sou eu. Vista-se por que vai ser fuzilado.

O ditador pareceu aceitar a sua sorte e obedeceu sem um protesto. Vestiu o fato novo e deixou-se algemar. Duas horas depois estava morto.

O povo saiu à rua e deitou foguetes. Toda a gente sorria.

No dia seguinte, estava o novo ditador a instalar-se no palácio quando, ao abrir um armário, descobre uma caixa de marfim. Julgando que poderiam estar ali documentos importantes, abriu-a. Encontrou várias folhas escritas à mão e sentiu um aroma de perfume. Começou a ler a primeira:

‘’Madalena, luz da minha vida

levaste contigo o meu coração….’’


JOÃO CERQUEIRA é doutorado em História da Arte pela Universidade do Porto. É autor de oito livros, entre eles A Tragédia de Fidel Castro, publicado nos EUA com o título The Tragedy of Fidel Castro, que venceu diversos prêmios, como o USA Best Book Awards 2013, Beverly Hills Book Awards 2014 e o Global Ebook Awards 2014. Em 2015 será publicado em Espanha pela Funambulista, na Itália pela Leone Editore, no Reino Unido pela Freight Books e na Argentina pela Eduvim. Seus textos são publicados em uma série de revistas internacionais. | JOOMCERQUEIRA@GMAIL.COM


[1] Fernando Pessoa – Tenho dó das estrelas.

Marcado com:

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367