Subversa

O estorno da matéria | Marco Aurélio de Souza (Ponta Grossa, PR)


Não
Não sou poeta
Nunca fui nem serei o mártir
Das causas etéreas
Sou apenas a sombra que não basta
E o estorno da matéria
Não sou poeta
Nem me coloco à posição
Pavona de pilhar as nuvens
Mas a vertigem do futuro me aplaca
Com sua dentição arreganhada.

Não sou poeta
Nem jamais me entregarei
Ao mais nobre dos ideais –
Sou caracol amedrontado
Que vez ou outra enxerga luz
Na melodia da manhã
E faz no claustro os seus poemas
Viscosos e pequeninos.

 

Não sou poeta
Mas me interessam os buracos
Do caminho
E certas estradas surradas
Que o cotidiano contém.

Não sou poeta
Pois pago minhas contas no fim do mês
E sempre que posso
Levo a criança para brincar
Mas faço poemas
E atendo sozinho ao chamado
Da beleza
Sempre que ela me perscruta
De um estilhaço de garrafa
Fila indiana de formigas
Ou pedra solta na calçada
Revelando a contraparte aguda
Da rotina
Na emergência violenta
Do banal.

Não
Eu não sou nada
Além do pai o amante o caçula
E nas horas pagas
O professor vigilante o carrasco
: Não sou poeta
Conquanto me entregue
À costura diligente das palavras
Equilibrando-me nos vãos do infinito
Como um prócere que se abstém.


MARCO AURÉLIO DE SOUZA | autor de Travessia (poemas, 2017), Conexões Perigosas (romance, 2014) e O Intruso (romance, 2013). Publica, em 2018, o livro de poemas Anjo Voraz, premiado no I Concurso Literário da Editora Benfazeja. Publica em periódicos especializados e participa de diversas antologias. Vive em Ponta Grossa/PR. | aurelio.as25@yahoo.com.br

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