Subversa

O piano na sala | João Vitor Haeberle Jaeger (Porto Alegre, RS)


Todas as noites, antes de dormir, escuto os acordes do piano no apartamento ao lado. Mesmo que tente me distrair e pegar no sono, o som penetra-me de tal forma que é impossível não ficar acordado. Não conheço as melodias e os acordes pintam um tom sempre obscuro e melancólico. Se conseguisse ao menos identificar uma sinfonia de Beethoven, ou uma tentativa acanhada de tocar as fugas de Bach, poderia aproveitar a música e me distrair fazendo outra coisa até o ponto de não agüentar mais e ter que ir para a cama. Mas não. O piano toca harmonias que colorem uma penumbra em meu apartamento e ouvi-las por toda a noite é como estar em um local com tanta gente que não se identifica conversa nenhuma, apenas ruídos, sussurros, palavras dispersas. A música fala uma língua que não entendo. Não pede licença. Entra nos meus ouvidos sem permissão e toma conta dos meus pensamentos. Ela escolhe, conforme o gosto de seu tocador, quando para, quando começa, além de qual andamento seguirá. Eu não tenho escolha e acabo sendo invadido por essas vibrações, por esses movimentos, por essas cadências que me atormentam sempre às noites, antes de dormir.

Eu cedo. Depois de revirar-me incontáveis vezes em baixo dos lençóis, sou obrigado a me erguer e fazer nada. De pijamas, saio do quarto, acendo a luz do abajour ao lado da poltrona no canto da sala, e vou à cozinha preparar um café. Sei que a noite será longa como de costume. Mastigo algum biscoito água e sal para trazer de volta o estômago à vigília enquanto espero a água esquentar e ando de um lado ao outro da cozinha resmungando baixo. O piano me persegue na cozinha também. Às vezes, acredito que o som já não é mais emitido das cordas do piano cada vez que são atacadas por um pequeno martelo de madeira com a cabeça aveludada, mas sim do cimento entre os tijolos na parede do meu apartamento. Ao embalo de um presto qualquer com melodia pontuada, pego a xícara de café, um punhado de biscoitos e me dirijo à poltrona. Sempre há um livro que leio nessas ocasiões. Noite após noite. Madrugada após madrugada. Não há manhãs. Acordar é uma ilusão. O dia é como uma etapa desnecessária para se ir de uma noite à outra. É um lapso na percepção da vida. O sol se põe e dá lugar à lua, que mesmo em dias ensolarados, marca sua presença. Viver é estar sempre em contato com o luar, com a luz mais soturna de si. É aceitar momentos breves de descontração, e no final, ser tomado pelo som ininterrupto do piano no apartamento ao lado.

Penso em como seriam as mãos desse músico que só conhecem as melodias mais dramáticas. Sinto os toques mais suaves sendo feitos por dedos tão pesados. Mãos calejadas. Mãos ressequidas. Mãos que doem. Um piano que sofre. E todas as noites, contra a minha vontade, sou acariciado por essas mãos que chegam em mim, que tocam minha pele. Mãos diluídas no ar. Não as convido para entrar, e não batem à porta. Tomam conta dos cômodos como se fossem donas do meu espaço. Preenchem todos os cantos com uma certa melancolia. Apoderam-se do que é meu. E por me conhecerem tão bem, soam sempre antes de eu dormir, minhas cantigas de ninar. Acordes suaves, acordes robustos, acordes que me tiram o sono e me colocam de pé a errar pelo meu aposento. Ponho-me em devaneios enquanto flutuo com as melodias. Se pudesse tocar assim qualquer instrumento, talvez fosse capaz de entrar em outro mundo. A música tem a força para mexer com o que há de mais íntimo em qualquer ser humano. Os cheiros também vagam no ar e as narinas estão sempre com as portas abertas. Entram sorrateiramente pelo nariz e seguem no corredor direto para as lembranças mais antigas que temos. Acompanham o ritmo dos pulmões, ora para dentro, ora para fora, como as teclas do piano. E no ar, esse lugar de encontro, dançam livremente os aromas e as notas musicais e se perdem nos sentidos. Trocam passos, e quanto mais longe forem, mais difícil de pegá-los de volta, mas nunca se perdem no tempo. As notas musicais e as fragrâncias não envelhecem. E por não envelhecer, encontram em nós as lembranças mais vivas e jovens que sempre nos parecem tão longínquas ou adormecidas. Correm de um lado para o outro, entram e saem pela janela da sala. Brincam com partes de nós que nós mesmos desconhecemos. Mas somente podemos nos deixar ser pegos de surpresa, se permitirmos que a música nos conduza, ao invés de querermos conduzi-la. Ela fala por si. Tem expressão, personalidade e vontade própria. Infeliz é o compositor que quer forçar uma melodia por um caminho que ela não queira seguir. A harmonia não é uma amarra, mas um berço almofadado que absorve todo e qualquer sentimento das notas musicais. E como não se emocionar com uma música que encontra nas cavernas mais pedregosas e escuras da alma uma superfície leve e sensível para reverberar? Pois a melodia busca por entre fontes, ondas e superfícies, sua morada. Quer descansar no espaço que a acolher. Quer estar onde a querem presente. Quer ser o presente deste que a recebe. E será sempre genuína na sua entonação. Ressoará através de alguma fonte o seu estado mais puro. Não quero buscar na natureza a música que vibra em seus esconderijos. Quero que a música encontre em mim um lugar para ficar. Que desperte minhas emoções adormecidas e me faça pulsar naturalmente. Mas o que soa em mim são notas dramáticas de trechos de uma ópera que desconheço. O que resta em mim são pausas em compassos incompletos. São arranjos que não se encontram dentro do meu universo. A música que ouço não é a música que toca.

Outra vez, ouço o piano ser tocado na sala ao lado. Conto as páginas que ainda faltam para terminar o capítulo e percebo que avancei na leitura sem saber o que li. Terei de voltar alguns parágrafos para poder entender o que lerei a partir desse ponto. Estou um pouco retorcido na cadeira, de pijamas com alguns farelos de biscoito ao meu redor. Somente uma lâmpada ilumina a sala. Levanto-me sem intenção e vou à janela que dá para a rua. Não abro a cortina para não ver lá fora. Volto para a poltrona, mas não sento. Pego o livro nas mãos e logo o coloco de volta na posição em que estava. Permaneço parado tentando identificar os sons que não são ensurdecedores pelo volume com que são tocados, mas por serem eternos. Por se repetirem todas as noites. Por serem sempre a mesma melodia melancólica. Acho que o vizinho está ensaiando para um concerto, ou aprendendo uma música nova e resolve tocar à noite para não ser atrapalhado pelos ruídos da rua. Mal sabe ele que me atrapalha. Pego a xícara para tomar um gole de café, mas está vazia. Coloco-a em cima do livro.

Todas as noites, antes de dormir, escuto os acordes do piano na sala ao lado. Tento lutar contra a música, mas ela toma conta de mim sem que eu consiga me defender. Um tom melancólico que me carrega de um lado para o outro. Que me agarra pelas orelhas e me arrasta de um lado ao outro desta masmorra. Fico acorrentado, preso à parede sem poder me deslocar. A parede é fria, o chão é úmido e meu corpo está descoberto. Torço para ver o sol, mas ele não passa pela minha janela. Torço-me para ver a rua, mas ela não passa pela minha janela. Não sei quando é dia ou quando é noite. Eu sou a noite mais escura, a escuridão do meio dia. Sou um pedaço das trevas. Sou o sol enegrecido de uma manhã que nunca amanheceu. E onde me encontro? Onde me encontram? Encontram-me, sem eu querer, descalço e nu. O espaço que me sobra é muito apertado e frio. A porta para a rua é muito pesada, atravessada por barras de ferro muito grossas. As correntes são muito apertadas e dificultam a circulação do meu sangue. Acho que tenho a cor pálida com leves hematomas nas articulações. Permaneço de pé na maior parte do tempo por as correntes apenas me permitem me abaixar com dificuldade. Entregam-me um prato de comida através de uma passagem na parte inferior da porta. A refeição varia entre um punhado de aveia com água, uma pedaço de pão ou uma couve. Nem sempre me dão de comer. Nem sempre como o que me dão. Tenho o corpo emagrecido de modo que a clavícula fica evidente. Sou fraco por natureza e por conseqüência da minha subnutrição. Não sei o que há do outro lado, mas posso ouvir conversas que se misturam e formam um sussurro impossível de decifrar. Não sei o que falam, mas falam sem parar. Eventualmente se calam, então ouço meu coração bater. Não sei se prefiro essas conversas ininterruptas ou ouvir meu peito palpitante. Nenhum dos dois cessa. Nunca cessam. E sempre me pegam de surpresa. Quando o cansaço me possui, e não agüento me sustentar, pendo a cabeça para o lado, alivio os joelhos e deixo as correntes suportarem meu peso. Tento pegar no sono, mas ronca a minha barriga. E o sono da fome se transforma em um despertar inesperado e indesejado. Outras vezes, quando fecho os olhos para dormir, ouço meu coração bater. Não entendo como ainda pode querer insistir tanto em estar vivo quando me encontro de tal modo em tal situação amortecido pele sofrimento. Sinto-o palpitar. Percebo cada movimento. Cada batida. E se me esforço um pouco mais sou capaz de sentir o sangue subir pela artéria do pescoço. Tanto esforço para manter um pedaço de carne e ossos ainda de pé. Tanto esforço para manter essa cadência desnecessária da vida. Mas, inevitavelmente, seguem a tempo todos os compassos dentro de mim num adágio. Sou essa sinfonia desconcertada atonal e afônica que berra para dentro os horrores de uma prisão perpétua. Todos os males desses tempos odiosos concentram-se nesse lugar desprezível fadado ao desencontro. Dos ruídos perenes, dos barulhos, das estrofes, há como escapar. Esconder-se sem buscar a origem. Enterrar-se num silêncio sepulcral. Mas do silêncio, da falta de sons, da ausência, nenhuma alma é capaz de escapar. Não há como fugir do piano que adormece, que me faz a dor me ser mais ríspida. Preciso calar esse vizinho que me mata aos poucos a marteladas precisas.

Não lembro de tê-lo visto pelos corredores, ou de termos nos cruzado alguma vez. Mas tenho certeza de que ao vê-lo, saberei que é ele. Um homem de média estatura, com ombros caídos. Nem gordo nem magro, mas de maneira nenhuma atlético. Pelo jeito que toca, tem o caminhar acanhado. Deve mover os pés sem muita convicção erguendo pouco os joelhos. Se estiver de chinelos, a parte traseira da sola escorregaria no chão a cada passada. Tem a voz aguda e por isso resolveu tocar piano; cantar seria impossível. Talvez use calça jeans e um blusão, um pijama, quem sabe. Tem a mania de usar sempre a mesma roupa para tocar piano. É daquelas pessoas que precisam criar um certo ambiente para poder mergulhar na inspiração. Não consigo entender as pessoas que acham que uma série de rituais vá trazer-lhes inspiração. Não somos nós que devemos buscá-la. Temos, sim, que estar pronto para a sua visita a qualquer momento. Qualquer imagem, qualquer idéia, qualquer assovio pode ser algum resquício, ou uma aparição fugaz. Mas ele, com certeza deixa o entorno do seu piano bem arrumado. Talvez uma xícara de café ao alcance da mão esquerda. Os graves combinam mais com o café. Se for chá, à direita. Sem contar que antes, separa algumas partituras de obras que julga preparar o espírito para a composição. Normalmente algum noturno do Chopin e a fantasia em ré menor de Mozart. A imagem já está pronta na minha cabeça. Vou tocar a campainha, ele fingirá que não ouviu e seguirá tocando. Vou tocar de novo ao que ele parará, mas ainda não virá me atender. Não tocarei mais vezes, por que sei que, uma vez interrompido, precisará de tempo até voltar ao seu estado de imersão. Sorverá um gole do café, apoiará as mãos na região da lombar, fará um pouco de força para estalar alguma vértebra e então empurrará seu banco para trás, levantar-se-á com pouco ânimo e virá até a porta. Ele não me conhece, mas vai abri-la de qualquer jeito. Precisa saber quem é este que o atrapalhou. Dirá boa noite com um tom desgostoso, insatisfeito com o que está acontecendo. Responderei então um pouco acanhado por tê-lo interrompido. Antes que ele me pergunte o que quero, logo me apresentarei como seu vizinho de apartamento. Direi que todas as noites o ouço tocar. Ele não vai expor reação. Seguirei fazendo algum elogio e complementando que sou um certo admirador de música, mas que não entendo nada de como isso funciona. Farei um tom meio brincalhão para tentar aliviar a tensão no rosto dele e assim diminuir o peso dessa conversa. No final das contas, ele vai me convidar para entrar. Logo que eu colocar meu pé esquerdo no interior da sala, sentirei o cheiro forte do café. Antes que eu pergunte, ele, ainda junto à porta, irá me mostrar que é daquele piano que sai a música que ouço todas as noites. Nesse momento eu vou ficar muito furioso e com vontade de quebrá-lo, mas me manterei contido e apenas consentirei com a cabeça. Talvez até manifeste minha surpresa com algum som parecido como aqueles que se faz sem abrir a boca. Essa sensação de estar preso à guilhotina e ter a chance de ver o carrasco tirar a máscara, olhá-lo com ódio e piedade, mas não poder fazer nada contra. A lâmina é precisa na sua trajetória retilínea em direção ao meu pescoço. Um estrondo, e não há tempo para gemer. Ainda sobra um instante quase imperceptível durante o percurso da navalha. O bastante para tencionar todos os músculos do corpo, o bastante para ouvir a melodia estridente da marcha fúnebre de um instrumento afinado. Então o fio do metal reluzente rompe a primeira camada de pele na nuca do condenado, a primeira barreira alfandegária que se encontra no caminho. Todos os papéis em dia e apressadamente, segue rasgando a estrada direto na espinha. A cabeça rola nessa poça de sangue, mas um cesto não a permite ir muito longe. É capaz de ver o corpo que a sustentava, que a prendia, que a proibia de ser livre. Enquanto consegue o último pensamento, a última piscadela, o último desejo, sorri. Abre-se, então, um sorriso naquele novo ser que contempla a morte daquilo que o fora. Um corpo decapitado é como uma espada sem guerreiro. Exatamente essa sensação me tomará por inteiro. Ficarei com a face levemente avermelhada de fúria. Eu sei que é fúria, mas ele, não. Fechará a porta e me oferecerá um gole de café. Junto a isso, acrescentará um comentário dizendo que sabe que é tarde da noite, mas que é o que costuma tomar para se manter acordado. Aceitarei por reflexo. Também tomo café para ler todas as vezes que não consigo pegar no sono devido às músicas tocadas por ele naquele piano. Então ele irá em direção ao piano, situado no meio da sala, para pegar a sua xícara de café. Sorverá um gole como em um pequeno e breve ritual. Olhar-me-á de soslaio e não conseguirá esconder o desprezo que sente por mim. Notarei precisamente a ruga no canto do olho, mas continuarei agindo como se não houvesse notado nada. Neste instante saberei que não ensaia na madrugada por causa do silêncio na rua, mas, sim, para atrapalhar o meu descanso. Única e exclusivamente para atrapalhar o meu descanso. Então será preciso fazer alguma coisa. Levarei comigo um punhal que ficará guardado na parte de dentro do casaco. Esperarei ele ir buscar mais uma xícara para me servir de café. Assim que ele virar as costas, cravarei fortemente a adaga na altura do ombro, de cima para baixo. A lâmina penetrará na altura da clavícula e descerá calmamente em direção ao coração. Será uma morte silenciosa, pois não terá tempo de gritar, de pedir socorro, de fugir. Será um golpe certeiro e covarde. Pelas costas. E ele achou que fosse me receber tranquilamente para conversar sobre o piano. Eu nunca quis saber daquele piano. Mas se ele ainda consegue se virar para o contra-ataque? Ou se eu hesitar na hora de apunhalá-lo? Talvez ele consiga gritar por socorro, me empurre para trás o que pode causar um barulho forte ao me chocar com a porta. Os outros vizinhos irão acordar e, com os gritos e golpes que iremos trocar, chamarão a polícia, baterão à porta, romperão os trincos e invadirão o apartamento. Encontrarão dois sujeitos ensangüentados com cortes de todos os lados que não sabem exatamente porque brigam. Para me defender, ele dirá, esse homem tocou a campainha no meio da madrugada para atrapalhar o meu sono e, sem motivo, agredir-me violentamente. Esse filho da puta toca piano todos os dias, responderei aos berros, sem ao menos se preocupar se isso atrapalha os outros ao seu redor. Eu odeio as notas que tu ensaias. Odeio todos os acordes que emanam do teu instrumento. As melodias já mancharam as paredes da sala do meu apartamento e, onde quer que eu esteja, elas me açoitam. Violentam-me. Elas me estupram. São notas do inferno que esse homem toca, gritarei para todos enquanto se amontoam na entrada do apartamento para ver o que está acontecendo. São as músicas do diabo que ele toca. Saibam que ele se mudou para esse prédio para causar o mau. Para aliciar as almas de todos que vivem aqui. Ultimamente, esse maldito, tem tentado me maltratar, me seduzir, me levar consigo para o outro mundo, para dentro da terra onde torturam os mais puros e ingênuos. Irão me agarrar pelos braços, dizer para me acalmar enquanto levam o vizinho para o hospital. Os policias me farão algumas perguntas e pedirão para que o amontoado de pessoas se dissipe. Eles estarão no controle, agora. Com minhas mãos atadas nas costas, não tenho como reagir. E o som das palavras me é sempre tão violento. Não tenho como me defender. Perguntam-me por que desferi golpes sobre a pessoa do meu vizinho. Porque quis matá-lo. Perguntam-me se eu o conhecia. Se já havia planejado o assassinato. Pergunta-me meu nome. Onde moro. São eles que me maltratam quando querem saber de mim. Esfaqueiam-me a cada questão. Eu, tão sensível e vulnerável. Sempre sujeito aos acordes do piano, daquele piano indefeso e feroz no meio da sala. Apertam meus pulsos com cada vez mais força e me arrastam para fora do aposento. Permaneço deitado no corredor enquanto outros policiais se aproximarem da cena. Encontram uma faca ensangüentada. A minha faca. Apontam-na contra mim querendo saber se a conheço. Tão íntimos momentos que tivemos juntos. Encarava-me no reflexo do metal, experimentava seu corpo frio e reluzente ao longo do meu. Éramos carne e unha. Eu, um pedaço de pano cobrindo um bolo de carne, ela, a mais linda e esguia entre todas. E quando nos beijávamos, apertava-a contra o peito. Fazia verter em mim uma lágrima encarnada e espessa. Ela me amou por tanto tempo, e agora me olha com desprezo entregue às mãos de outros. Não posso deixar que me levem assim tão facilmente. Gritar é a única solução. Terão medo do grunhido que darei. Vão se afastar de mim por pena e me deixar sozinho onde estou. Um animal ferido, afinal, merece apodrecer na sombra.

Todas as noites, antes de dormir, sento-me ao piano no meio da sala. Gosto de tentar compor acordes antes de pegar no sono. Então, vou ritualisticamente à cozinha preparar um café. No canto da sala, acendo a luz de um pequeno abajour. Ajuda-me na leitura. Volto à cozinha, sirvo-me de biscoitos e sigo a história de onde parei. Não entendo as linhas que leio, as letras se embaralham na frente dos meus olhos e a narrativa se perde entre frases entrecortadas. Não há um fio que oriente e conduza o enredo. Sento-me nesta poltrona, enredado pelos parágrafos que me intrigam. Sorvo um gole de café e, sozinho, contemplo a música que embala minha partitura.


JOÃO VICTOR HAEBERLE JAEGER

Inclinado à literatura, psicanalista, narrativa e escuta.
Inclinado à música, poeta, rima e acordes.
Inclinado à escuta, músico, compasso e palavras.
Inclinado à psicanálise, artista, letra verbo. | joaojaeger@hotmail.com

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