Subversa

O sem fim | Norberto do Vale Cardoso (Chaves, Portugal)


1

Foi quando as páginas do livro aberto sobre começaram a mover-se – e me acordaram de tenro dormitar – que me apercebi de que tinhas ido, num ápice, à soleira da cozinha confirmar qualquer coisa sem importância, mas que (sei agora como nunca soubera, tarde demais, portanto) tinha absoluta importância.

Foi quando as páginas iam avançando e recuando num refluxo subtil que deixámos de saber onde estávamos – ou que eu deixei de saber (a partir de mim, mal de mim), por nós dois.

Bem que tinha sido avisado que não deveria começar o que não tem fim, que é o mesmo que dizer que não deveria começar aquilo que só pode acabar mal. Por isso, não deveria ter sido para mim uma surpresa verificar que tudo acabara porque nunca começara de facto, a não ser uns dias aqui, umas tardes ali, como se fôssemos felizes, caramba, um andarzito aqui perto, um quartito além, como se fôssemos o que não éramos, um filminho este fim-de-semana, uma viagenzita depois, como se fôssemos sendo alguma coisa concreta, enganando-nos afinal, simulando afinal, adiando o fim, afinal.

Foi também nessa agitação seminal que renasceu aquele momento em que, de mãos dadas, caminhando na praia, todos os passos foram pegadas e todas elas uma série infinita, que o vento jamais apagaria (de mãos dadas, lembra-te). Não sabíamos que estávamos enganados, não sabíamos que coisa era cada coisa, ou então, como fôramos avisados, sabíamos e fingíamos não saber, não querer saber, escapando à evidência como se dar as mãos nos salvasse do que quer que fosse (o mais que podia era dar-nos uma espécie de velocidade que impedisse a reflexão assertiva, seca, da qual saberíamos que, onde nada começava, nada poderia acabar, um dedo meu no teu, outros dedos entrelaçados).

Fugíamos para as praias que entendíamos serem só nossas, para nos esquecermos de nós próprios, acho, espetando o guarda-sol, desfolhando o guarda-vento, com boné, óculos de sol, e mãos dadas para nos confundirmos um no outro, até espreitarmos o mar nos limites dos cabos – achando assim que éramos felizes, tontinhos, mas que importa o resto, esquecendo-nos que nada havia entre nós, mãos dadas sim, abracinhos também, boca na boca olá, mas não tínhamos começado nada claro.

Só no fim soubemos que estava tudo no princípio, mas, por sabê-lo tão-só no fim, estávamos impedidos de voltar atrás, muito menos ao momento inicial em que tudo deveria ter de facto começado pelo princípio, quando o que nos tinha sucedido era tudo ter começado sem que nada principiasse. Estivemos sempre a meio de alguma coisa sem estar a meio de nada. Não é verdade que a meio devamos seguir em frente sob pena de, regressando, desperdiçarmos o tempo despendido. Não é verdade porque existe apenas a ilusão de um centro, em que a epifania não ocorre senão (tessitura cruel) na sua sombra frágil, no lugar estático dos objectos imóveis. Saber o que sabia no momento em que o soube era, assim, saber sem poder usar o que sabia, ainda que – achava eu – devesse já tê-lo sabido muito antes para o poder utilizar com tempo à minha frente. Não obstante a posse desse conhecimento tardio sem o uso atempado do mesmo, a verdade é que sempre soubera que não tem fim o estarmos sós: ninguém retém a solidão que nos move, as palavras que giram sobre si, o mecanismo da vida, a mecânica que não perscruta.

Estávamos sós e não voltavas da cozinha e as páginas ramalhavam e as folhas das árvores deslizavam e a água escutava-se ao longe pingando um lago. E ali duas cadeiras vazias num jardim vazio: a que se resume a existência senão a isto, onde nem anjos nem diabos, onde pica-paus batendo, cigarras cantando, roncos de barcos longínquos, jorrando a água na tarde lodosa que nunca haveria de acabar e, como não acabaria, jamais teria um fim.

Passa da meia-noite, passa das duas da tarde, passam aviões e os pássaros, coitadinhos, assustam-se, mas há ainda um lugar onde não há meia-noite nem tarde nem palavras, apenas a suspensão sem fim de um impulso, de um sopro que nos afaga o cabelo e nos sabe tão bem nos dias quentes.

A barba (ia dizer que a barba, mas que importa a barba, a quem importa sequer seja o que for, se está tudo demasiado ocupado, pensando que, julgando que, fazendo x, ou y, que me importa também a mim), as palavras nas folhas dos livros mexiam-se, moviam-se, na verdade era como se dançassem, e faziam-no como se não existisse para elas um espelho, muito menos um ângulo morto, por isso, sem barba, as palavras eram tão mais livres, e eu ali sentado, à tua espera, sempre à tua espera, e nunca chegas, e nunca começamos nada, andamos aqui a quê, a gatinhar como os bebés, a rosnar como cachorros desconfiados, a miar como os gatos esquivos, ágeis, sim, mas esquivos, com qualquer coisa de enganador.

Lá vamos nós de mãos dadas, mãos suadas, encorpadas, que não são parte uma da outra, que mentira caramba, as mãos dadas, sei-o pelo aspecto da minha pele, sei agora que tudo uma enorme mentira, só a mitologia tinha a sua razão, o resto tudo dentes podres. Mas somos chatos e vamos, seguimos como se pudéssemos, sozinhos, fazer o caminho até à serra numa tarde em que anunciaram tempestade. A teimosia é um defeito enorme e estas palavras disformes não são publicáveis, por isso hão-de ser livres como as das páginas do livro que lias numa tarde em que deixei de saber onde estava, percebes, quando voltares, não sei se estás a ouvir, a tua surdez nem com o aparelho lá vai, quando voltares já cá não estou, a coisa da soleira era uma treta, não estou porque me esqueci onde estava, entendes, deixa lá isso que não tem importância alguma e vem mas é continuar a ler, assim como assim isto só não tem fim para o sem fim.

2

A cozinha é tão longe que não sei se lá chego, achaco-me aqui que as pernas bambas já não dão de si. Já nem me lembro do que cá vim buscar, bom, seja lá o que for que cá vim fazer, sentar-me-ei aqui à porta, pode ser que ainda me lembre.

Mal me quer, bem me quer, mal me quer, bem me quer.

Não há maneira de me lembrar, mais valia ter-me deixado ficar com o livrito lá em baixo onde se está tão bem e a coisa rolava sem precisar de me lembrar do que não me lembro. A verdade é que também já não me lembro que livro era aquele que estava a ler. (É curioso, no entanto, como consigo pensar porque ao pensar tenho palavras, quer dizer, é como se desenhasse palavras no meu cérebro, o que quer dizer que me devo lembrar delas e das suas formas, mas não me lembro do que lia.)

Tenho noção da cadeira, tenho noção do livro, tenho a impressão que alguma coisa mais, mas o quê, o quê, ah sim, as páginas do livro mal marcadas, que, por isso mesmo, devem estar a baloiçar.

Mal me quer, bem me quer. Daqui ainda vejo a minha mãe a lavar a roupa no tanque, a esfregar para cima e para baixo. Mal me quer, bem me quer. Desta cozinha vejo muitas coisas passadas como se não se tivessem passado, mas não me lembro do que vim agora mesmo aqui fazer, só me lembro do livro lá em baixo, e do meu pai, para cima e para baixo, sempre a trabalhar.

Às vezes tenho uma sensação de outra mão na minha mão. Como é bom, mas não sei como é que sei se é bom se não me lembro de ter a minha mão dentro doutra mão. Mas sabe bem, parece um búzio, uma coisa dentro doutra coisa que já lá não está. Há-de ser como a minha cabeça esquecida, que não se lembra de que coisa veio aqui à procura e que está ansiosa por voltar ao livro, mesmo sem saber que livro, sobre quê, na minha ideia (acho que esta frase a devo ter ouvido da boca da minha avó ou assim) as coisas da vida também devem de ser um poucochinho assim (tenho a impressão de que se colam na minha cabeça frases desconexas de pessoas que me rodearam e por quem fui talvez marcada), andáramos por aí sem saber para quê, o quê, de quê, sempre ocupados, até que um dia nos sentamos numa qualquer porta a ver se nos lembramos de qualquer coisa que entretanto se tornou vaga em nós.

O meu cabelo ondula na pia, de cabeça para baixo, no salão improvisado, numa casa por pintar, tudo tão diferente de hoje, o mundo outro certamente, dá-me ideia que se me puser bonita pode ser que algum rapaz me peça para dançar, ponho os meus sapatos novos, um perfumezinho assim-assim, que o dinheiro não dá para mais, e aí vou eu, pode ser que alguém goste de mim e possa começar uma vida como tudo à minha frente.

Desconfio que aquilo que aqui vim procurar era mais importante que o que pensava ao princípio. Não sei porquê, mas tenho essa forte sensação, talvez emirja do malmequer pois que as flores, desde as cantigas (cá andam coisas fantasmáticas, a vaguear, e que, repentinamente, se misturam, vindas de não sei bem onde, mas os cantos da vida são tantos), têm propriedades mágicas. Ao dizer mal me quer, bem me quer, parece-me que algo importante, que tem relação com o que aqui vim fazer, mas não sei ainda exactamente o quê.

O que sinto, para já, é uma vontade enorme de ser feliz, de apagar todos os problemas da minha cabeça. Quero pensar que a vida pode ser uma coisa tão mais fácil que isto que as pessoas complicam, que as pessoas não percebem (afinal pode-se viver sem perceber, como se pode falar sem perceber a gramática da vida). Queria tanto que fosse só bem me quer, bem me quer, esquecer as outras, mas disso não me esqueço.

Parece-me que escuto mais sons, uma voz, mas de quem, se são só sons não pode ser uma pessoa, ei, ava, o, im, eieieie…, mas também não pode ser um animal, queixei-me sem saber o que ava, se calhar é melhor descer para ver o que se passa e depois, se for preciso, volto a subir à procura do que me esqueci, pode até ser que, entretanto, me lembre. O cabelo fica para depois, a felicidade também, há-de sempre haver tempo para os sonhos, quem disse o contrário não percebe nada disto.

Ou não, ou então deixo-me ficar aqui, ou então são vozes, que desde não sei quando comecei a ouvir mal, uns sons confusos às vezes, mesmo com o aparelho. Pode ser que nada sem importância, quem sabe se alguém que me ama e nunca mo disse, alguém que deseje a minha mão, o entreabraçar das vidas, e pode ser que aí me lembre de tudo o que tinha vindo aqui buscar à cozinha, quando tinha uns dezoito ou dezanove aninhos e escutava ainda o som dos grilos, à noite, da janela do meu quarto.

E se assim for, juro que nunca me esquecerei dele. Nunca teremos fim, só Deus não tem fim, mas nós, os que amamos, também não devemos ter fim, é isso, hei-de ler as páginas que me faltam e ao chegar ao fim vou-me lembrar.

3

O sem fim é uma engrenagem solidária.


NORBERTO DO VALE CARDOSO | doutorado em Ciências da Literatura. Professor e investigador. Publicou, na Texto, o ensaio António Lobo Antunes: As Formas Mudadas (2016). Publicou, entre outros, O poeta na fímbria, estando integrado em várias antologias e revistas de poesia, conto e ensaio. | norcardo@gmail.com

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