Subversa

O Trapezista | James J. D. Duško (Porto, Portugal)


Escrever é como um circo.
Bailarinas a dançar
ao som da métrica de cada sílaba,
animais que torturados
transformam a sua tortura em espetáculo,
palhaços que atrás das máscaras risonhas
se desmancham em choros ou fitos assustadores,
malabaristas que jogam
com as maças como sentimentos,
uns obtusos mas pesados,
outros afiados, alguns tantos em fogo, a arder,
contorcionistas que se dobram
como quem dobra palavras para as moldar a si mesmo,
monociclistas que se equilibram
entre a vida e a morte,
pendendo de um lado para o outro, para a frente e para trás,
e até fazer magia
é como escrever poesia,
e assim como o mágico nunca revela os seus truques
também o poeta se esconde nos seus segredos revelados.

É tudo uma risada, é tudo uma charada,
uma palhaçada com palhaços sem palhaços.

Se tivesse sabido antes ter-me-ia
dedicado à poesia,
não por ser mais fácil
mas por ter de enfrentar os medos apenas dentro de mim,
longe dos olhares do público.
Na verdade, talvez não seja assim tão diferente,
e a poesia seja mesmo isso,
enfrentar os próprios medos aos olhos do público,
para ensinar-lhe como se faz.
Mas já é tarde, todos os olhares me fitam,
sinto as pulsações latejantes que entoam pelo silêncio suspenso do suspense,
os fôlegos ofegantes que se me extraem do peito.

Olho para baixo e apercebo-me do que fiz, sem saber por que o fiz.
A altura a que estou não é a que me corresponde,
ninguém vê que também nunca estive aqui,
ninguém percebe que tenho tanto medo da altura como todos,
ninguém vê o medo que me pulsa no corpo,
o medo de estar completamente à toa, sem nada concreto a que me agarrar,
em que me suportar.

Mas assim é a vida.
O olhar poético tardou, e o ofício de trapezista
sobreveio o de poeta.

Respiro fundo como se já tivesse feito isto,
alongo os membros como se já tivesse feito isto,
esboço gestos no ar como se já tivesse feito isto,
e faço isto como se já tivesse feito isto.

Faço-o.
Há uma certa liberdade em fazê-lo.
Há que nos lançarmos ao nada.


JAMES J. D. DUŠKO (Porto, Portugal, 1998)

 

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1 Comentário

  1. paulo moraes 1 de março de 2018 em 13:08

    excelente

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