Subversa

Oswaldo Sumiu | Luiz da Franca (Rio de Janeiro, RJ)


Os quatro estão sentados em um café. Dois homens, Oswaldo e Zé, e duas mulheres, Tarsila e Maria. Eles discutem crowdfunding. Oswaldo é claramente o líder no lado social do encontro. Ele gesticula e fala mais, ele fala mesmo quando alguém fala. Deus, ele não cala a boca.

Primeiro discutem o financiamento, pois perderam o mais recente edital de cultura, e o santo prefeito não pagou o mais recente edital que receberam. Falta dinheiro, mas não falta vontade. Falta amor, mas não falta sonho. Falta som, mas não falta fúria. Trata-se da radioatividade típica ao teatro, esse que é todo produzido em termos de meia-vida.

Apresentaram, por dois anos mal pagos, pastiches de Stoppard. O grupo, chamado Teatro Oficina Mecânica, ficou famoso pelas peças intelectuais entupidas de referências óbvias para a classe média se esbaldar em auto-satisfação. Também, pela escrita apurada de Stoppard, seus diálogos sagazes e os fofos do Gildenstern e do Rosencrantz.

“Eu tenho mais cara de árabe, mas sou espanhol. É ótimo, posso fazer tudo.” Oswaldo segue defendendo que é hora de arriscar e fazer algo autoral. “Acho que temos de assumir um grau e partir para uma make pesada.” Ele já vinha pensando em algo, tinha uma primeira versão. “Afinal, são duas velhas, a ideia é aproveitar essa cara de vocês.” A peça é sobre um rapaz árabe, portanto ele seria o protagonista. “A mãe do Woody Allen, né. Sabe?”

Existe um espaço entre o social e o individual que a transparência agride. Esse espaço protege dos ataques sociais, que é caro ao indivíduo. Esse espaço, finamente cultivado no teatro, é esgarçado ao seu limite, como resto de manteiga em um imenso pão na chapa, nessas reuniões de brainstorming de companhia.

Maria está desesperada, “porque, mesmo, eu larguei medicina?”. Ela segue olhando fixamente para Oswaldo. Pensa que ele é bonitinho, mas boçal demais. Achou o texto ruim e mau escrito, parece um destes textos de internet, cuja história é uma versão ou continuação pessoal do autor juvenil, uma fanfic. Ainda mais, ela não come direito há dias. Está fazendo uma dieta insana, para uma propaganda de shampoo que conseguiu.

“Miga, para de olhar para ele, ele é furada.” Zé tenta usar telepatia. Para ele, aquilo era importante, pois estava duro e cansado dos bicos de garçom. A grana tinha de entrar, e ele precisava que fosse pelo teatro. Era um mínimo de dignidade que ele esperava, afinal havia escolhido o teatro como carreira e não o sub-emprego.

Tarsila viajava com os olhos grudados em Oswaldo e a cabeça pensando no projeto de reforma do teatro em Caxias que era íntimo a ela. Foi o teatro onde sua mãe apresentou Água Viva, história contada incessantemente durante a criação da atriz Tarsila. De fato, é a razão para Tarsila ser a atriz Tarsila. Ela não fazia a menor ideia do que Oswaldo falava, só sabia que ele falava.

Oswaldo, por outro lado, era telepata. Enquanto falava, lia as mentes dos outros, solapando com o saudável espaço entre o social e o íntimo. Ele esperava achar os pontos de ruptura individuais, para fomentar seu projeto pessoal, mas o que achou machucou seu ego e sua autoestima. Honestamente, ele ficou chateado até com a minha narração um tanto desbocada, por uma proposta descontraída. Triste e desiludido, Oswaldo sumiu de mim. Assim, não consigo mais narrá-lo, o que é um problema, porque o livro era para ser sobre ele.


LUIZ DA FRANCA | Cientista social e escritor. Queria ser mais coisas, mas não deu muito certo.

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