Subversa

Pata de Macaco | Sat AM (Curitiba, PR)


As pétalas recém-florescidas de sakura tocavam o solo naquela manhã de abril, cobrindo o pátio da Tokyo Daigaku como um tapete rosado. Não era incomum tal cena para os olhos daqueles que ali rodeavam; todas as primaveras foram igualmente coloridas, celebrando e recebendo os novos alunos sedentos pelos caminhos que agora iniciavam.

Natsumi entrara correndo com uma pressa inabitual; estava desesperada. Precisava alcançar a sala destinada aos estudos arqueológicos antes que dessem falta daquele pequeno item ― deveria livrar-se o mais rápido possível daquilo ― seus passos apreçados levantavam poeira em seu caminho, tingindo a barra de sua calça com tons de marrom claro.

As últimas semanas foram as mais estranhas que ela vivera até os dias de hoje. Desejara demais, fora picada pelo inseto maldito da vontade de ter, aquele mesmo inseto que transforma nossas vidas em um mar turbulento de sentimentos descontrolados; sabia disso, e não se importava. Agora, deveria arcar com as consequências de seus atos. Não que fosse uma má pessoa, não era isso. Apenas queria mais uma única e singela vez reencontrar aquele que desaparecera de sua vida há algum tempo. Aquele que um dia, assim como em histórias contadas em salas de aula do ensino médio de um colega para o outro, fizera a promessa de juntos contemplarem aquelas velhas cerejeiras. Se seu pecado era esse, “aceitaria o martelo pesado da justiça de bom grado”, pensava consigo mesma.

Natsumi atravessou o gramado da entrada daquele velho prédio marrom sem nem mesmo tocá-lo, quando, na pequena escadaria de apenas dez degraus, seu olhar foi de encontro aos de Katsuo. O frio que sentia na espinha fora trocado instantaneamente por uma exaltação que subitamente aquecera seu coração, tornando suas bochechas volumosas, escondidas pelo corte de cabelo chanel, tão rosadas como as flores naquelas árvores a sua volta. A comoção roubara-lhe lágrimas de seus olhos amendoados. Saudosas, estas teimaram em escorrer por seu rosto, e Natsumi não resistiu ao impulso de saltar sobre o peito do amado.

Katsuo acolheu a jovem como um pai à filha que de maneira travessa quebrara algo. Seus dedos, correndo por fios negros de cabelo, causavam uma leve sensação de conforto a ela; um estranho conforto que havia sido perdido de maneira tão abrupta sem o consentimento de Natsumi.

― Eu queria tanto lhe ver. Não consegui parar de pensar em tudo que vivemos. Não poderia aceitar nunca mais sentir seu cheiro ou o toque de seus lábios em meu rosto. Você se lembra daquela viagem? Lembra quando fomos juntos naquela excursão de outono ao Saiho-ji? Você disse que me amava. Que sempre havia me amado. E que estaria ao meu lado quando e onde eu precisasse. Você disse isso em meio a folhas rubras de Momiji. Mas você não estava mais lá. Você me deixou! É imperdoável! Eu precisava de você, eu queria você, só você. Você disse que estaria sempre comigo, então… Por que foi embora? Não pude suportar não o ter nas noites frias seguintes. Eu faria qualquer coisa para estar ao seu lado só mais uma vez. Qualquer coisa! E aqui está você…

As lágrimas eram difíceis de serem controladas. Rolavam pelo queixo da jovem umedecendo o suéter bege de Katsuo. O rapaz conservou sua pose protetora, envolvendo-a com seus braços tão apertados quanto o poderia fazer.

― Natsumi, eu preciso ir. Sabes que não posso ficar mais com você. Já não pertenço mais a este lugar. Eu nunca menti, sempre estarei onde quer que estejas, mas… ― O rapaz afrouxou seu abraço, e afastou Natsumi para poder olhar em seus olhos marejados. ― Mas, você também precisa ir. Não tem mais o direito de continuar por entre essas árvores. Não tem mais a possibilidade de viver teus dias sob as luzes de um céu grandioso. Não podes mais contemplar as futuras cores que a neve fria trará… As pétalas logo estarão secas, se decompondo e alimentando a terra para mais uma vez renascer em uma nova primavera. A você não há mais o direito de revê-las, nunca mais…

As palavras do jovem amado faziam mais sentido agora do que quando pensadas por ela mesma, a troca deveria ser feita; ela tomara da natureza mais do que poderia, e agora precisava pagar com igual moeda. Natsumi deixou todo o peso agir sobre si mesma, indo de encontro ao chão frio da escadaria. Seu corpo fora encontrado alguns minutos após, totalmente sepultado em um esquife de tons rosados, banhados pelo sol poente de um dia qualquer.


SAT AM | estudante de Letras-japonês da Universidade Federal do Paraná. Tem como base de inspiração questões éticas/filosóficas que assombram a todos nós. Tem grande apreço pela literatura moderna japonesa e o terror americano, sendo de grande importância os dois gêneros em suas criações.

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