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Peido quente é quase merda | Evandro Camargo (São Luis, MA, Brasil)

maõ.evandroA mão esquerda e uma parte grande do antebraço direito latejam. Primeiro rolê no solzão do meio-dia depois da queda e das escoriações. Preciso fumar. Os mercados estão fechados, dia dos comerciários. Na padaria não tem. Nem na outra. Pergunto no boteco estranho. Indica um bar logo acima. Mini Box Sousa. Uma mulher com uma meia bege na cabeça bate palmas entre as grades de proteção do bar/casa, chamando. “Seu Luís!” “Seu Luís!” Demora e vem um homem de samba canção e sem camisa. Surpreendido em sua siesta, ainda se espreguiça enquanto me ouve perguntar por cigarros. “Tem Klint”, diz. Emudeço. “É da Souza Cruz”, enfatiza. “Queria de outros…” Se quero me envenenar, me reservo o direito de escolher o veneno. “Segue aqui e logo ali na frente tem. Onde estão aqueles carros.” “Certo.”
Minha mão esquerda, apesar da tragédia da adolescência, continua mesmo predominante. Na queda percebi: ela, já de si um tanto precária, pois sem tato fino em parte e sempre algo dolorida e canhestra, se antepôs à direita no gesto instintivo de defesa, e foi mais arruinada por isso.
O calor intenso me faz buscar sombras nos cantos das calçadas, mas não há sombras. 12h40. “Ninguém está na sombra.” “Ninguém está na sombra.” Era a frase que me vinha repetidamente semanas atrás. “Ninguém está na sombra.” Lateja. Tenho o coração na palma da mão esquerda. Uma mulher muito baixa passa por mim rápido com um uniforme de loja. Horário de almoço. Segunda. E as aulas… Olho pra mão. A mão. No exato mesmo lugar onde os cacos do copo penetraram quase 20 anos atrás houve agora a laceração mais funda. E não sei as consequências disso. Perdi certa mobilidade, é verdade, mas pode ser devido à dor do trauma. Que sei eu? Que exames posso fazer para salvar minha mão? Nenhum. Nada. Aguarde cicatrização. Aguarde. Espere. Seja paciente. É.
Tem gente que acha que é impossível cair segurando um copo, ele quebrar e encher sua mão de cacos, espicaçando seus músculos e nervos e artérias e veias da palma da mão, fazendo um lamaçal de sangue e pondo todos em pânico. Mas era a mão esquerda. Justo. Para um canhoto orgulhoso como eu, justo. Meses depois, duas décadas se passaram. A mão voltou pra mim. Aos poucos. Timidamente. Envergonhada. A acolhi, a ensinei, fizemos muitas coisas boas e ruins juntos. Algumas bem vulgares, outras até nobres. Meu Deus, perdão pelos horrores que perpetrei com esta mão. Não que… Eu nunca… Mas… Oh! Pesadelos. Densos pesadelos.
Chego ao bar. Apresentável pros padrões. O bar, eu não. Dias sem banho. Barba e unhas imundas de grandes. Shortão de jogar bola. Havaianas ensebadas. Pergunto logo por Marlboro. Não tem. Entre Carlton e Hollywood, fico com este. E peço também uma lata de cerveja, pro inferno com esses remédios. Sorvo em poucos, grandes e profundos goles, enquanto dou generosas baforadas no meu Hollywood recém-adquirido. Fico observando tudo. Pensando e, às vezes, olhando pros ralados, pras crostas, pras profundezas rubras. Sentindo-os. Tenho entre os dedos o cigarro que meu pai fumou por anos antes de morrer de câncer. Lá fora, o sol inclemente. O ar parado. Troco rudimentos com um gordão sentado bebendo. Sobre a queda com a bicicleta e tal. Chego à conclusão, mais uma vez, de que reside em mim um suicida frustrado, que não podendo me levar ao ato cabal, se contenta em me fazer sofrer o mais possível, ou então que me persegue uma corja de espíritos maus que se diverte em me dar rasteiras e trambolhões, rindo alto de meus revezes, de minha falta de prumo, de como sou desajeitado e fraco e espantadiço e mau. São raciocínios bem razoáveis, penso. Absolutamente plausíveis. Talvez científicos. Sim. Científicos. Volto pra casa fumando o segundo cigarro do dia enquanto caminho sob o sol do fim de outubro. Ruas semidesertas. Vultos se esvaem. Que mão me restará? Ando rápido pra evitar o sol. Calor e movimento fazem minhas cicatrizes latejarem, lembrando a cada pulso sua inexorável presença.


Evandro do Carmo Camargo (São Luís, MA, Brasil) gostava de escrever histórias quando criança. Depois, perdeu a mão.

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2 Comentários

  1. Izzy Dias 16 de abril de 2017 em 17:14

    Ameii o site, meus parabens!

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