Subversa

Poema de uma década distante | Camila Assad Quintanilha (Presidente Prudente, SP)


como transpor dez anos de ausência de um coração minguado pro meu estéril papel?
como misturar o que vem da carne mole e tenra do músculo que pulsa a gritar teus nomes perdidos àquilo que vem da árvore extinta?
eu que ousei considerar ser possível
destilar o que fenece daquilo que vibra
ou até mesmo fragmentar o que se sente
daquilo que provoca brando alivio.
como sobreviver a todas as faces
conversas
estórias?
Bob deu um tiro no peito na Alemanha em 09.
Ebba pariu um rebento loiro na Dinamarca em 11.
Lucas casou-se com Benny em cerimônia de luxo na Califórnia em 13.
Marilia ficou órfã hoje pela manhã na Vila Mariana.
mas como eu faço
pra medir desgosto em pés ou em polegadas?
unir matéria física àquilo que foi feito pra dissociar?
você
você já sabia que não ia ficar mas disse que ia mesmo assim e eu aprecio quem mente por consolo
você vai casar parir um rebento virar órfão e dar um tiro no peito nesses anos iminentes e como é que eu vou fazer pra transmutar meus pés que ardem em bagagem que plana desafiando a gravidade em senso comum?
vai doer uns 10 mil pés e umas 10 mil polegadas e eu nem lembro mais o quanto isso significa mas sei que é muito.


CAMILA ASSAD QUINTANILHA | nascida em Presidente Prudente, em 1988. Artista plástica, ativista, escritora independente, seu primeiro livro denominado parcialmente de Cumolonimbus está em fase final de editoração pela Quintal Edições, que corresponde a uma coletânea de 70 poemas. | mila.assad@bol.com.br

 

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