Subversa

Poema | Eduardo Rêgo (Teresina, PI)


O centésimo beijo sorvi

para  – Guinevere  – contemplar

a volta no látego da besta

 

Nu, sento sem esperar poeta

E sob os pés a bacia

E sob a outra o pano branco

 

– Raab, deixa-me lavar-te os pés

– Não apenas os pés, meu senhor

 

Mas todo o corpo que é de corpo

Mas toda a carne que é de carne

Nos devoram as eternas formas

(grafias exatas de um deus)

 

Haveremos de sacrificar doze juntas

Haveríamos de adorar às doze horas

Saciar-nos de figos temporã. Sentar-nos

sobre calçadas de ruas

derradeiras

 

Sentai-vos todos no chão

Também tu, jovem caldéia

A quem ninguém mais chama refinada

 

Do que adianta-nos lágrima por

(morto) grão de trigo

se chamas Tamuz

De que nos serve ventre de

aventura se repartes o corpo

e ao sangue da videira

gritas Dionisus

 

Certamente fostes coroada

Pelos seres feitos de puro vento

Para cuidar de irmã repudiadas

Que me batem o peito e me cospem

O rosto impassível

 

Irá aplacar-nos este. Aroma

De primaveras setentrionais

Onde só ipês florescem para agradar

a olhares soberbos

 

(amanhã amaremos com mais vigor)

 

Amanhã amaremos

Caminhos desinfectados

Andanças sadias

Ortopedias ascépticas

 

E nenhuma mão haverá

de para comer

Outra mão lavar. Porque

Mariana, restará um terço

de ouro fogo e horror

 

e nenhuma conta então haverá de a outra dizer:

 

– Não apenas o pés. Também as mãos, a cabeça e tudo que de corpo for.


EDUARDO RÊGO | formado em Filosofia mora no Piauí, escreve poemas e tem interesse, além da literatura, pela metafísica e as religiões.

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