Subversa

Pontes Paralelas | Caio Augusto (São Paulo, SP)


Para o Matheus G. Barreto

Não sei bem como chegamos ao assunto. Eu e Fernando  estávamos naquele café do Centro ao lado da livraria, nos perdíamos no tecido de conversas que não tinham começo e nem fim e que tantas vezes são as mesmas conversas que já tivéramos e que se não tivéramos nós, tiveram outros: Cristo e Judas, por exemplo. O que ocorreu a nós, pois não posso mais precisar quem sugeriu o tema, foi detalhar a história de nossos antepassados. Incrível que, apesar dos anos de amizade, tão pouco sabia das origens de Fernando  e ele quase nada sabia da minha. Sabia que tinha origem espanhola, como eu, por causa do sobrenome. Isso ele não sabia de mim, pois só dava a ver o sobrenome português que se sobrepôs aos outros que teria se não fossem os casamentos e mais casamentos sacramentados por Deus durante os séculos até chegar neste e este é o que passarei adiante.

Logo fiquei sabendo de sua ascendência espanhola (como supusera), mas também libanesa – que intuía quando via seus olhos profundamente escuros e sua pele azeitonada sabendo a almíscar. A ele contei do meu sangue húngaro, português e espanhol. Brincamos que, talvez, fôssemos parentes distantes e que era grande o acaso que unia novamente nossas dinastias, se não pela terra, pela amizade – que vale mais que qualquer pátria.

Como éramos íntimos decidi contar a ele o que nunca contara a ninguém. O dia em que quase eu não existira jamais. Pois não existiria nunca meu pai e o pai do pai dele. Sua face dobrou-se em indagações e eu fui falando e falando para ir, aos poucos, abrindo o origami de seu rosto e então reencontrá-lo: mas o papel que se vinca nunca mais volta ao estado original. Talvez eu devesse ter-me calado. Mas não pude. Nem ele poderia não ouvir. De algum modo era inevitável que eu fosse eu e que ele fosse ele: e naquele instante e em todos os outros que viessem.

Contei o dia em que o avô de meu avô (ou assim me contaram que era – o infinito não tem nome) quase foi assassinado por um contrabandista. O caso se passou na Espanha, no estreito de Gibraltar. Um pouco Europa, um pouco África: nenhum lugar. Esse meu parente era soldado da Guarda Nacional e, ao ver uma mulher suspeita se aproximando, decidiu averiguar de quem se tratava e o que ali fazia. Mas a mulher, com seus olhos profundamente pretos, não vinha sozinha. Mal meu trisavô, ou o avô que fosse, se aproximou dela, surgiu de imediato – feito sombra que se ergue quando o sol bate com sua luz sobre nós – um homem. Era o marido da mulher, o contrabandista. (Quanto mais contava, mais se fechava o rosto de Fernando . O que não entendia, eu que pensava estar desfazendo a suas dúvidas, parecia que estava era dando mais nós em seus pensamentos). O marido da mulher a esperava, pois, mais inocente do que ser apenas “a mulher” ela tinha predicativos que trazia – se não no verbo, na carne: levava o tabaco que cruzaria a fronteira e seria fumado por Xás, Marajás e Reis africanos. Meu parente pediu os documentos de ambos enquanto se preparava para revistar a mulher. Naquela época a honra era defendida com bala e lavada com sangue. O contrabandista não queria que o soldado tocasse em sua mulher: era pura, nunca outro homem a tocara. Mas é a lei, meu senhor, talvez dissera meu ancestral ainda inocente da natureza oculta dos dois outros personagens e de seu futuro que quase tocava para sempre o seu presente. Eu disse que tudo se passava em uma ponte sobre um rio? Fernando  fez que não. Pois se passava em uma ponte sobre um rio. Nunca averiguei se perto do estreito há um rio, mas se assim me foi contado, assim aconteceu. Antes que pudesse tocar na moça, o marido pôs-se à sua frente e empurrou meu trisavô, puxando o revólver antes que o soldado, desorientado, pudesse esboçar qualquer reação. Houve o tiro, o sangue e o corpo caindo da ponte direto no rio. E foi assim que quase não existi. Como quase, perguntou-me Fernando com o rosto diferente, como que coberto por uma máscara, eu agora quase não o reconhecia. Foi salvo por dois camponeses que moravam por ali, o ferimento era grave, mas por conta de uma promessa feita em seus últimos suspiros, foi salvo. Qual promessa, indagou-me Fernando . A de que, se sobrevivesse, nunca buscaria vingança. O que sei é que depois se casou, e teve filhos e um desses filhos teve filhos e em algum momento um deles imigrou para trabalhar no interior de São Paulo e aqui estou eu…

A conversa não morrera de imediato, mas sentia que Fernando  estava diferente. Talvez impressionado com a violência da história. Ele sempre fora muito calmo e incapaz de um gesto mais brusco. Naturalmente os assuntos cansaram-se de repetirem-se e fomos embora.

Tempos depois recebi uma mensagem de Fernando  convidando-me para passearmos no bairro do Onça. Como fazia tempo que não o via, aceitei, apesar de achar estranho marcar naquela região onde o mato era alto e o rio, que por ali corria, um tanto perigoso.

Eu que nada sabia, parecia ir pressentindo enquanto caminhava. Talvez meu rosto também se dobrasse em perguntas e mais perguntas e só o encontro com Fernando  poderia me revelar de novo. Avistei-o perto da precária ponte de madeira, ele acenou-me e fui sentindo no peito algo estranho, como uma ferida que ainda doesse apesar de já cicatrizada. Pode ser que eu já soubesse do que se tratava, mas não tive coragem de voltar, pisei cada passo até estar diante de meu amigo. Já não o reconhecia, ou melhor, o reconhecia inteiramente – mas não como Fernando. E também ele talvez já não me visse como sempre me vira, mas a minha cara se desdobrando ia revelando o meu rosto verdadeiro: o único que possuo, o que possuíra e o que possuirei ainda e depois.

Não me assustei quando ele tirou a arma de dentro do bolso do casaco. Não tentei fugir. Não disse nada. Apenas ouvia o som do rio correndo levando a si mesmo, nunca um mesmo rio banha um homem: mas um mesmo homem pode banhar o rio – eu o mesmo homem de sempre. O contrabandista era meu trisavô, só isso disse Fernando  antes de atirar. Não esperava que dissesse mais, era suficiente. Meu peito se banhou de sangue no ponto em que há poucos instantes sentira o formigamento. Meu corpo caiu no rio, como deveria cair; Fernando  viu meu corpo se afastar, como deveria ver; um casal me salvou, como deveria salvar. Não procurarei vingança, e não procurei.

Como as páginas escritas em um livro e já definitivas, estaríamos – Fernando  e eu (ou que nome tivéssemos) – sempre nos repetindo, apesar dos lugares e dos tempos. Sua sina era sempre me assassinar, a minha era sempre sobreviver. O rio sempre me levaria e dois camponeses nunca falhariam em me salvar. Basta reler essas palavras para tirar a prova do que digo: nada se alterará em essência. As histórias correm paralelas, sem nunca se tocarem. Não importa como se inicia. Nosso desfecho é sempre o mesmo recomeço.


CAIO AUGUSTO LEITE (São Paulo em 1993) | cursa pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP) no programa de Literatura Brasileira, onde estuda a obra de Clarice Lispector. Tem dois livros publicados Samba no escuro (2013, Scortecci) e A repetição dos pães (2017, Editora 7Letras). | caio_a_leite@hotmail.com

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