Subversa

Pulpo a La Gallega | Alexandra Lopes da Cunha (Porto Alegre, RS)


“É este o quarto”

Dito isto, a mulher que descerrara a fechadura deu-me passagem, colocando-se ao lado da porta. Antes de ingressar naquele espaço, olhei-a, indeciso. Queria que me dissesse: vá, entre, não há problema. Mas o que poderia me dizer? Uma mulher a quem apenas cabia a tarefa de guia, a limpeza dos quartos, como indicava o seu avental, as mãos rudes, o rosto vazio a dizer: estou aqui para abrir as portas, atender pedidos e sair, fechando-as às minhas costas. Acho que foi o que depreendi daquele olhar estanque. A vida nos quartos não me interessa, só costumo entrar neles quando vazios.

Ainda assim, aguardei pela aprovação. Como não veio, dei um passo à frente. Um pé seguido do outro e fui retornando a outro tempo.

Vejo-a diante de mim, envolta na toalha de banho, os cabelos molhados caindo nas costas e impedindo-me de ver o seu rosto, mas percebo que tem os olhos atentos à mão direita que faz deslizar sobre as unhas do pé o pincel que colore as unhas de vermelho. Ouço-a dizer:

“Não fique aí parado. Coloque o champanhe no gelo. Há dois copos no banheiro”.

Olho para as minhas mãos e, sim, levo nelas um embrulho em papel pardo. Removo dele uma garrafa, o rótulo rosado, um rosto de mulher, um nome de mulher escrito nele: Filipa.

A Filipa a pintar as unhas nunca soube da diferença entre as classificações de bebidas, sempre chamou todas aquelas cujas rolhas espocam e os líquidos espumam de champanhe. Amo-a por isso e por pintar as unhas do pé de vermelho. Amo-a pelo nome que, a princípio, achei incomum. Ela quis saber por que, eu dissera que nunca havia conhecido uma Filipa e, bom, lá estava ela com seus longos cabelos ruivos, chamavam-lhe de galega, disse-me ela, sorrindo.

“Pulpo a la gallega, já experimentou?”

Ouço-a e nos vejo percorrendo ruas estreitas, as suas pernas brancas nos shorts, as sandálias e o chapéu permitindo que apenas vislumbrasse o fogo dos seus cabelos. Queria fazer-me experimentar o polvo.

Disse que não comia polvo, que não comia mexilhões, nem outros bichos bivalves, como podiam comer todas aquelas coisas estranhas e ela sorria com uma taça na mão, nós, diante de um mar quase à hora do pôr do sol, mas onde está o Sol, pergunto a ela. Era ali, atrás da imensidão do oceano que deveria o Sol despedir-se de nós.

Ela rindo enquanto trincava entre os dentes pedaços de gelo. Apontou para o outro lado, o das montanhas. O Sol se punha nas montanhas. Claro, diferentes hemisférios.

E ela deve ter respondido sí, por supuesto, hombre.

Hombre. Fui seu homem. Fomos os dois um do outro, por tempo determinado. Mas chamava a todos assim: hombre. Incluso, assim se dirigia às amigas, quando queria falar algo sério: Hombre, que no es así. Hombre, qué guapa estás. Assim, todo o tempo.

Já é outro o tempo, outra a paisagem. Escuto um ruído contínuo, batem em alguém lá fora, Filipa, perguntei a ela, o corpo descansar sobre a cama, nua, a pele tão branca e coberta de sardas, as pernas cruzadas, os dedos dos pés cobertos de vermelho brilhante, aqueles olhos divertidos a me mirar, como dizia. Vá ver, disse-me ela e fui em direção ao som, assustado, pois parecia que batiam em alguém, escutava uns gemidos. Saí à porta e vi esta mulher, a cozinheira, o lenço na cabeça, as pernas afastadas, mas escondidas na saia longa, os tamancos de madeira, a levar sobre a cabeça um pano dentro do qual havia alguma coisa e era este embrulho que ela levava ao chão e batia com ele contra o chão e, ante ao meu espanto, sorriu e esclareceu que batia o polvo.

O polvo. Aquele que não comemos juntos, que me recusei a provar.

Caminho até o banheiro, o banheiro daquele quarto de hotel tão simples, vejo-me refletido no espelho e, do espelho, enxergo a janela agora fechada, a poltrona onde ela se sentou depois do banho para pintar as unhas e reconheço naquele quarto impessoal, uma coleção de elementos que me disparam lembranças boas e dolorosas: a janela, a poltrona, a cama igual a outras tantas, aquela cidade em que fui feliz então e a qual retornei sabendo que todo o passado era impossível de reviver. Entristeço, lamento a minha vinda àquele quarto de hotel em que ainda posso vê-la, posso ver-nos.

Lavo o rosto na pia, sinto na água o perfume de lavanda que usava, deixo me ficar alguns segundos a observar o ralo e a deixar que por ele se fossem aquelas lembranças, qualquer esperança que tivera de voltar a ver Filipa que sempre me disse ser aquele nosso encontro passageiro.

Saio do quarto, deixo-me guiar em direção ao porto, caminho sem olhar para trás e procuro aquele restaurante que ela havia me dito, havia recomendado como o que servia o melhor pulpo a la gallega.

Assim, despedi-me para sempre de Filipa.


ALEXANDRA LOPES DA CUNHA | autora dos livros de contos: Amor e outros desastres (2013) e Vermelho-Goiaba (2014), prêmio IEL 60 anos na categoria estreante, Bífida e outros poemas (2017) e Demorei a gostar da Elis, Prêmio Pavão de Romance (2017).  Doutoranda em Escrita Criativa pela PUC-RS. | alexcunham@gmail.com.

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