Subversa

que o poema que nos limpe a ferrugem dos olhos | Marcelo Martins Silva (Porto Alegre, RS, Brasil)


Sim, estou uns dias acordado

Falando comigo mesmo

(E do que serviria tal esforço?

Arrastar um trem pelos dentes

Como a um filho morto

Dentro de um saco preto.

Que me desculpem, mas a morte é miserável

E aflita)

O que fazer desses versos

E de tantos outros já feitos?

O que fazer das mesmas tentativas?

Leio livros, política, poesia

Penso teorias, sozinho na cama

E na rua bebo o amanhã

Obcecado pelas mesmas ideias

O preço opressivo e tirano

De ser um poeta do povo:

Nada de tratativas de amor

Nem poemas contemporâneos

Nada parnasiano ou inovador

Só um poeta preto cansado

Porque faz uns dias que passo acordado

Falando comigo mesmo

Sobre o vento e outras imposturas

A conjuntura econômica

Os assassinatos

Ouço os tiros lá do quarto

Todo esse barulho que não acaba

Estou há uns dias acordado

Parece que nasci agora

Ou talvez nunca tenha dormido

Não sei quando será amanhã

Não sei se seremos presos ou quando

Abriremos mão do sono pra sermos livres

Quando vou parar de falar comigo

E começar a ouvir os outros, quando?

Ando sem tempo, escuto muito

E nem mais relógio eu tenho

Já faz uns dias que andamos acordados

Ele me olha e lá do fundo repete, mas quando?


MARCELO MARTINS SILVA | professor de Literatura e Língua Portuguesa. Escreve prosa e poesia, foi um dos editores da revista Verborhagia e mantém o blog DeSalinhado. Em 2015 participou da coletânea de poesia “Cantos Seletos”, publicado pela Editora Literacidade e participa de saraus e outras feitiçarias pela cidade de Porto Alegre.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Fabíola Weykamp 16 de Maio de 2018 em 03:35

    QUE homem!

    Obrigada pela paulada, Marcelo. Necessário choque, grito e poesia.

  2. Anna Júlia 16 de Maio de 2018 em 20:12

    Caro Marcelo,
    Sua poesia é de uma beleza ímpar, é lembrete e voz de uma realidade tão esquecida por muitos a de ouvir o outro. Ser um poeta do povo é isso o que fazes com maestria e sensibilidade: ouvir e não calar.

    Precisamos de mais poetas e pessoas como você, que dão voz e ecoam pelos tempos sombrios, mesmo que sejam tempos difíceis os sonhadores como você continuam a sonhar.

    Necessária sua poesia e que sigas assim, lutando, fazendo tuas “feitiçarias” pela cidade e mantendo viva a Literatura tão essencial nos dias atuais.
    Abraços,
    Anna Júlia

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