Subversa

Quixote Sama | Helton Lucinda Ribeiro (São Paulo, SP, Brasil)

Ilustração: tela de Jaime Ferreira


Um dia, a família de Takafumi se levantou, como de hábito, às 4 da manhã e não o encontrou em casa. Já teria ido à lavoura mais cedo? Estranho. Em seu quarto, parecia tudo em ordem, exceto pelo baú aberto e seu interior revirado. O baú precioso onde guardava suas recordações do Japão e modestos tesouros de família. Foram espiar e deram por falta do mais precioso: a armadura e as espadas do bisavô.

A enxada, o facão e a peneira estavam atrás da porta da cozinha, não foram levados como era de se esperar em um dia normal de trabalho. Sua mulher suspeitou de ladrões, mas aos filhos pareceu estranho alguém entrar em casa tão pobre, roubar relíquias e levar seu pai como refém. Saíram ao terreiro gritando o nome de Takafumi. Nem sinal dele.

Os demais colonos das casas próximas, já de pé, começavam a sair e tomar o caminho do eito. Os gritos dos filhos de Takafumi atraíam olhares curiosos. Os garotos perguntaram aos vizinhos se alguém havia visto seu pai. Mas todos se levantaram há pouco e ninguém viu ou ouviu nada durante a noite.

Não havia tempo para buscas. A família de Takafumi também precisava trabalhar. A mãe, muito prática, já chamava os filhos para a refeição e se punha a postos, com a blusa de mangas compridas e o chapéu de palha. Angustiados, foram ao cafezal e começaram a trabalhar, perguntando ora aqui, ora ali, se alguém vira o pai.

Passou-se, assim, um dia inteiro até que chega o capataz e chama pela mulher de Takafumi. Seu marido fora visto em trajes esdrúxulos a executar estranhas pantomimas pela estrada com uma espada na mão. Atacou um carreiro aos berros e o fez fugir, largando para trás o carro e os bois.

– Vamos botar seu marido no xilindró – declarou o capataz, não à guisa de explicação, mas como a censurar a esposa pelas estrepolias do marido.

A mulher sentiu o rosto arder de vergonha. Voltou ao trabalho transtornada. O que deu na cabeça de Takafumi? Por que deixara ele o trabalho de todo dia para se meter em presepadas estrada afora? Por que atacava as pessoas com a espada do avô? A arma sempre fora guardada tão zelosamente no baú e sequer saíra da bainha uma única vez em todos esses anos em posse de Takafui. Era a única coisa de valor que a família carregava, sem nunca esperar proveito algum disso, a não ser o testemunho de um passado mais honrado. O marido enlouquecera?

***

Despertou assustado, mas sem reter na memória qualquer lembrança dos sonhos daquela noite. O quarto estava muito escuro. Alguém ressonava a seu lado. Nenhum som lá fora, a não ser murmúrios suaves de animais e plantas. Tateou até tocar a parede e por ela foi seguindo. Esbarrou em um objeto pesado. Percebeu as formas de um baú. Seus dedos encontraram a chave na fechadura e a giraram. Ergueu a tampa, não a procurar alguma coisa específica, mas como se abrisse o alçapão para sair daquele cubículo.

Algo reluziu no interior do baú, embora não houvesse nenhuma fonte de luz no quarto e nem mesmo qualquer réstia se insinuasse pelas frestas do telhado. Parecia refletir a luz do olhar de Takafumi. Convidava seus dedos grossos e calosos ao toque. Ele tocou, apalpou e retirou do baú uma espada longa. Puxou-a da bainha alguns centímetros e mais uma vez o metal reluziu nas trevas. Descobriu completamente o aço temperado e a luz correu o fio da ponta até a tsuba – a guarda-mão arredondada e finamente trabalhada. Voltou a embainhar a arma e tateou novamente o baú. Dele retirou uma espada curta, a wakisashi, e uma armadura completa de placas laqueadas. Ali mesmo, experimentou o capacete de grandes chifres e vestiu a armadura nos ombros, amarrando com certa dificuldade os grossos cordões. Por fim, atravessou as duas espadas na cinta.

Tateou novamente até achar a porta do quarto. Saiu ao cômodo contíguo e tropeçou de leve em algo. Uma pessoa dormia no chão, resmungou, virou-se de lado, mas sem despertar. Takafumi apoiou-se na parede com a mão esquerda e pôs-se a tatear o chão com os pés e a procurar a porta de saída com a mão direita estendida. Quase derrubou alguns objetos, aparentemente armas apoiadas na parede. Encontrou a porta e finalmente saiu.

A noite era sem lua e escura. Viu um céu estrelado, mas não identificou a estrela polar. Tomou a estrada à frente e começou a caminhar. A casa da qual saíra integrava um conjunto de pequenas casas perfiladas ao lado direito da estrada. Casas estranhas, feitas de tijolos. Tudo parecia muito diferente e não era capaz de reconhecer a paisagem. Estava em território estrangeiro, sem dúvida! Provavelmente, fora feito prisioneiro. Ser capturado vivo, que vergonha! Como isso fora ocorrer? Não se lembrava de nada. Talvez o tivessem pego de surpresa.

Seus captores cometeram o erro de deixar a chave no baú onde estavam guardadas suas armas e designar guardas ineptos e preguiçosos para vigiá-lo. Agora, estava livre! Precisava encontrar o caminho de volta para casa e não mais se deixar apanhar. Lutaria até a morte com quem cruzasse seu caminho.

Seguiu a passos largos pela estrada até raiar o dia. Ao longe, viu pessoas armadas marchando. Portavam uma espécie de alabarda, muito diferente das armas com as quais estava acostumado. Também traziam pequenas e toscas espadas à cintura. Eram, certamente, camponeses recrutados para a guerra. Não se via entre eles nenhum samurai.

Decidiu seguir caminho sem chamar a atenção dos guerreiros. Não pretendia morrer pelas mãos de meros soldados. Que pelo menos tivesse a sorte de medir-se com um samurai de verdade. Caminhou a passo acelerado mais meia légua, desviando-se aqui e ali de tropas de guerreiros em farrapos. Começava a achar que aqueles grupos dispersos e mal equipados só poderiam ser os restos em fuga de um exército desbaratado. Não conseguia distinguir entre eles nenhum oficial.

Próximo a uma curva da estrada, ladeada por dois barrancos altos, ouviu um zunido grave e contínuo. Imaginou ser o som de uma trompa convocando o exército a se reunir. Mas o ruído era ininterrupto e aproximava-se dele. Escondeu-se à margem da estrada e esperou. Logo, surgiu uma carroça puxada por bois, carregada de grandes sacos. O som ouvido por Takafumi era apenas o ranger dos eixos. A pé, ao lado do veículo, vinha um lanceiro.

Vem trazendo suprimentos! – pensou o samurai. Não podia permitir que o exército inimigo se reabastecesse. Saltou à estrada, sacou a espada e soltou um agudo grito de guerra. O lanceiro deu um pulo e quase caiu sob as patas dos bois assustados. Ao ver a figura feroz de Takafumi, com a espada levantada sobre a cabeça chifruda, largou a lança e disparou a correr.

***

Até a volta do dia, muita gente já havia encontrado Takafumi na estrada. Todos fugiam ao vê-lo. O par de chifres de seu capacete e o aspecto rígido da armadura já seriam suficientes para amedrontar qualquer pessoa. Mas a postura sempre belicosa, a espada empunhada com as duas mãos acima da cabeça e os gritos selvagens completavam uma persona aterrorizante naquele trecho de sertão.

– É o cão! O tinhoso! O coisa-ruim apareceu na estrada! – Diziam os que chegavam esbaforidos à sede da fazenda em busca de refúgio.

O coronel Pantoja não acreditou em aparições de diabo em plena luz do dia. Às vésperas da eleição, aquilo estava mais para troça armada por algum adversário político. Talvez o coronel Feliciano, que apoiava o candidato a deputado da oposição. O tratante caíra em desgraça com o governo e agora parecia disposto a qualquer apelação para recuperar o prestígio político. Não tinha alternativa a não ser tentar eleger alguém de outro grupo. Era uma manobra desesperada e fadada ao fracasso. “Só faltava essa, armar um carnaval com fantasia de diabo e tudo para intimidar o eleitorado. Aonde ele quer chegar com isso?”

Pantoja já vira de tudo em matéria de eleições. Ele próprio era adepto do “fósforo”, tipo de vigarista expert em se fazer passar por eleitores e votar várias vezes em um mesmo pleito. Empregara um fósforo tão ladino certa vez, o Zé Tibúrcio, que o safado conseguiu votar mesmo na presença do verdadeiro eleitor e ainda fazê-lo ser expulso da zona eleitoral pelos fiscais. Esse valia mesmo os bons trocados que cobrava. Pena que morreu.

Agora, meter o diabo na eleição era novidade! O coronel Pantoja enviou um mensageiro à cidade para alertar o delegado, homem de sua confiança. Mas, impaciente como era, chamou o capataz e mandou-o arregimentar uns cabras para procurar o tal diabo e exorcizá-lo do cafezal. O doutor Libânio contava com ele para se reeleger deputado. E, ali na fazenda, os votos estavam todos bem contados.

O capataz era o Pedro Fala-Fino, dono de uma entonação até razoavelmente grave, mas merecedor da alcunha por ir afinando a voz quando se irritava. Fala-Fino reuniu três homens e foi com eles, a cavalo, campear o capeta. No caminho, encontraram mais dois peões em fuga e deles souberam que o cujo já ia pelo alto da bocaina. Esporearam as montarias na direção indicada.

Quando finalmente avistaram Takafumi, levaram um susto! Realmente, uma figura estranhamente paramentada e chifruda estava à solta pelas estradas. Ela também avistara os cavaleiros e tentara se esconder. Mas Fala-Fino deu um grito e sacou o colt cavalinho. Vendo-se descoberto, Takafumi desembainhou a espada e se pôs em posição de combate. Aparentemente, estava diante de oficiais inimigos, embora não se parecessem com samurais.

– A folia de reis é só em janeiro, compadre! Pode tirar a fantasia de palhaço! – gritou Fala-Fino.

Takafumi não decifrou as palavras, mas supôs serem um desafio. Assim, lançou aos inimigos um grito estridente e avançou com a espada pronta para o golpe. Os cavaleiros se sobressaltaram e Fala-Fino deu um tiro para o alto. O samurai apenas estacou por um momento, aturdido, mas continuou avançando. O capataz puxou a rédea e fez o cavalo dar meia volta ainda a tempo de se esquivar do golpe, que veio de cima para baixo. Esporeou e se afastou a galope, seguido pelos companheiros.

– Por que não atira nele, Pedro?

– Esse filho duma égua! Bem que merecia, mas já sei quem é! E ele vai ver o que é bom pra tosse. – respondeu o capataz numa voz esganiçada.

***

Ao final do dia, a voz do capataz soava como garras arranhando um quadro-negro. Entre berros agudos, fez a família de Takafumi entender que estavam demitidos, tinham de sair da fazenda. A mulher e os filhos ouviram em silêncio os insultos e se retiraram para casa, onde juntaram os poucos pertences em meia dúzia de trouxas. Algumas coisas puseram no baú. E lá se foram à procura de outra plantação oferecer seus braços.

Fala-Fino também recebeu do coronel uma descompostura. Por que não passou fogo no japonês maluco? Desperdiçou uma bela chance. Agora, nem a polícia o encontra… A verdade é que o capataz era sujeito de pouca fibra e não estava acostumado a ser enfrentado pelos peões da fazenda.

No dia seguinte, dia de eleição, pouca gente da fazenda do coronel Pantoja apareceu para votar, apesar dos esforços de Pedro Fala-Fino e seus jagunços. O coronel, então, espumava!

– Cambada de mal-agradecidos! Cadê essa corja que não vem exercer seu direito cívico! Quem não votar, está demitido! Pode correr com eles da fazenda, Fala-Fino!

Mas a peonada preferia enfrentar a fúria do coronel do que o diabo à solta pelo sertão. Foram os votos que faltaram ao doutor Libânio para se reeleger. Bela reviravolta política em uma comarca onde a oposição nunca ganhava. Enquanto isso, Takafumi, com sua espada reluzente, ainda não sabia de que jeito voltar para casa – fosse o casebre de colono, fosse o castelo de seu daimiô.

 


HELTON LUCINDA RIBEIRO é jornalista. O conto inédito Quixote Sama obteve o primeiro lugar no II Concurso Bunkyo de Contos, promovido em 2015 pela Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social. | HELTONLUCINDA@HOTMAIL.COM

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