Subversa

Requiém Para Lisboa | Fernando Alves Medeiros (São Paulo, SP)


A Felipe Lisboa Castro

 

“A paranoid is someone who knows a little of what’s going on”

WILLIAM S. BURROUGHS

poderia ser a água do tejo,

mas é só a steinhäger gelada no copo

 

tantos poetas morreram, tantos

 

tantas musas gritaram bêbadas

non, je ne regrette rien

que você já nem sofre, apenas sente

seu coração como que envolvido em

couraça de aço, vai lá, cheira no cu

da puta a tua flor nenhuma, veja,

a lua brilha lá fora grande, quente e redonda como uma pizza,

os rádios tocam fossa sem parar

 

e você?

 

você acende um cigarro (você já parou de fumar quantas vezes?)

debaixo da mesa estão papéis, projetos antigos,

queimados, mistura de esperma e mofo

 

(e essa ex que continua te enchendo o saco?)

 

a steinhäger desce como um vidro gelado

de pontas macias, o grito sufocado

se banha em águas que não são as do tejo,

você poderia terminar tudo com um tiro

no meio da cara, se o passado não estivesse

ali, de frente, de asas abertas,

sobre o corcovado, sobre o sapopemba,

sobre portugal minha saudade

(sobre todos nós)

 

no bar,

os papos sempre são cíclicos, repetitivos,

eternos e precários

como esse copo de steinhäger nas suas mãos.


FERNANDO ALVES MEDEIROS (São Paulo, 1988) | engenheiro eletrônico, metroviário e escritor. Teve o ensaio Na Janela, O Horizonte publicado na revista Grafias (dezembro de 2017). Publicou Kitsch (2015, poesia, autopublicado). Blog pessoal: http://cafeseblablablas.blogspot.com.br/

 

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