Subversa

Revelações | André Mellagi São Paulo, SP


Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Hoje recebi outra provação do Senhor, logo quando a síndica veio me avisar pelo interfone da interrupção de luz das nove às duas da tarde para manutenção na rua, compreendi que eu precisaria tomar meu banho mais cedo e que deveria sair de casa. Logo pensei, para onde deveria ir, se não tinha nada marcado com médico, juiz ou advogado? Sem luz em casa, em meio ao silêncio do liquidificador e à tela escura da televisão, o Senhor me leva de volta à humilde constatação de que não somos nada diante de um interruptor impotente. Resolvi sair para comprar velas, pois ainda que a luz voltasse em pleno dia, nunca se sabe quais os sinais que o Senhor coloca em nosso caminho, hoje um blecaute, amanhã queimamos nossos móveis para nos aquecer em uma nova era glacial.

No caminho passei em frente à banca de jornal e na rápida conversa você hoje por aqui? Aconteceu algo? Nada não, está sem luz em casa, percebi que o Senhor se manifestou na aprovação da filha do jornaleiro ao vestibular, uma menina de ouro!, e também na enchente em Paragominas estampada na capa do jornal, que tragédia! Encontro uma cartela de isqueiros atrás do jornaleiro e o instinto de sobrevivência me obriga a comprar um, este espólio prometeico que recusamos a devolver e sem o qual as velas de nada adiantariam, que cor você quer? Sempre é assim quando nosso livre-arbítrio é posto à prova, seja uma decisão que precisamos tomar ao ultrapassar um caminhão em uma pista de mão dupla à noite sob chuva, seja a escolha da cor de um isqueiro. Nesse momento percebo a atenção das irmãs fiandeiras do destino em mim, Cloto interrompe a fiação ao me olhar sobre os óculos, Láquesis se prepara para dar o último nó e Átropos deixa a palavra cruzada em cima da mesa para abrir a tesoura em direção ao fio de minha vida. “Amarelo”, respondo, a tesoura se afasta do fio e as Moiras retomam o tear.

Antes de alcançar a mercearia, o Senhor traz a Luciana diante de mim, mais conhecida como Lucinática entre o povo maldoso da rua. Vem ela arrastando seu carrinho de feira repleto de rádios de pilha sintonizados em estações diferentes, num murmurinho incompreensível que misturava narrações de partidas de futebol, pregações evangélicas, hit-parades e a previsão do tempo, orquestrados com seu monólogo incessante no mesmo volume. Caminha em minha direção, alheia a mim e a todos os olhos e risadas da calçada, me aproximei para ouvir o que ela profetizava naquele intervalo entre suas internações, “a agonia quando eclode do ovo se vê ainda presa no estômago do homem”, anoto o que ela diz no celular em meio à cobrança do escanteio e à frente fria que vem do sul, nessa hora o Senhor me interrompe fazendo meu pai me ligar, a salvação da alma se afasta ao som de Shakira, filho, está me ouvindo? Precisei levar sua mãe ao hospital, ela não está passando bem.

Chego na mercearia e compro duas velas, uma para iluminar o quarto e a outra para abençoar a saúde de minha mãe, embora esteja agora no meu aposento com as duas acesas e me esqueci qual é qual. Sei que as duas iluminam e velam, ainda são quatro da tarde, o sol atravessa a janela e a luz da lâmpada já voltou, toda essa luz em minha volta, sinto Tua presença e fecho os olhos com as mãos, apavorado de encarar Teu semblante. Agradeço ao Senhor por mais um dia. Amém.


ANDRÉ MELLAGI | psicólogo e escritor. Publicou em revistas eletrônicas como gueto, Diversos Afins, Mallarmargens, Subversa. Seu livro de contos Bricabraque (editora Patuá, 2017) foi obra pré-selecionada ao Prêmio Sesc de Literatura. | andre_mellagi@yahoo.com.br

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Carmen miranda 2 de agosto de 2018 em 12:18

    Lindo André! Amei. Vou compartilhar com meu outro grupo de leitura – All about that book.

    • André Mellagi 4 de agosto de 2018 em 21:52

      Obrigado pela leitura, Carmen!

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