Subversa

Rex, o peixe-sáurio | Eliana Machado (São Paulo, SP)


No primeiro dia de aula, a professora, dona Dragana, pediu a todos os seus alunos da quinta série que se levantassem, se apresentassem e contassem alguma boa ação realizada em prol do meio ambiente aquático no qual viviam. Um a um e por ordem alfabética, eles foram se apresentando e contando as suas proezas. As histórias eram variadas, e uma mais bela do que a outra. Quando faltava somente um aluno para se apresentar, a professora chamou o Rex, e este respondeu “presente”. Todos os olhares se fixaram no jovem. O garoto tinha um aspecto bizarro, inspirando mais medo do que simpatia.

― Bom dia a todos. Meu nome é Rex, mas, assim que saí do ovo, os vizinhos passaram a me chamar de Sáurio. Hoje eu sou conhecido como Rex Sáurio. Minha mãe me explicou que “sáurio” significa lagarto na língua grega humana. Eu nunca vi um, mas dizem que pareço com um dos parentes dos lagartos, o dinossauro. Tudo isso porque sou diferente dos demais peixinhos da minha espécie. Minha mandíbula e minha dentadura são enormes. Como vocês podem ver, não tenho dentinhos, e sim dentões, que são bastante afiados. Tão afiados que, quando sorrio, dou medo nas pessoas que não me conhecem. Já a minha cabeça é bem maior do que a dos meus pais, e ela tem esta crista, que se parece com as placas ósseas de um estegossauro, um outro parente dos lagartos. Minha cauda, musculosa e alongada, possui escamas verdes que brilham no escuro. E ela serve de chicote também. Agora vocês já sabem por que todos me chamam de Sáurio.

― E a boa ação, você já fez alguma? ― perguntou a professora.

― Ah, sim, me desculpe! Ia esquecendo de contar. Um dia, quando eu estava nadando longe de casa, vi um pescador cair na água e ser arrastado para o fundo do mar por uma arraia gigante presa a um anzol. O homem se debatia muito, mas não havia maneira de soltar a vara de pescar. Então, a arraia o puxou para uma profundidade ainda maior. Já sem oxigênio e exausto, o homem finalmente largou a sua vítima. De repente, eu vi que o pescador não se mexia. Havia perdido os sentidos e ia morrer afogado. Eu queria fazer alguma coisa, mas então pensei em como eu, um peixinho tão miúdo, poderia ajudar aquela montanha humana. Aí eu tive uma ideia luminosa: finquei meus dentões no traseiro do pescador, que rapidamente voltou a si e nadou em direção do seu barco, tão lépido como um foguete. Acho que o humano aprendeu a lição e, agradecido, mudou de profissão e foi plantar batatas.

A turma inteira caiu na gargalhada. Graças a sua diferença e o seu altruísmo, Rex Sáurio tornou-se o aluno mais admirado da escola.


ELIANA MACHADO nasceu no Brasil e vive na França. É doutora em línguas e literaturas hispânicas, leciona em Mônaco e também exerce como tradutora literária (Ed. Actes Sud). Seu romance de ficção científica “Brasil: Aventura Interior” ganhou, em 2017, o Prêmio de Melhor Romance, Talentos Helvéticos III (Suíça).

 

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