Subversa

Saída para piquenique | Pedro Belo Clara [Um Lírio sobre os Olhos]


Fotografia: acervo da revista


Era um tempo em que julgava que as tardes de verão cabiam inteiras na fundura dos teus olhos. E a tua boca era a fresca fonte de todas as canções que o vento desconhecia. Oh, por quantos dias aí não matei a sede lancinante? Nessa soleira donde simples ria a alma vadia, irmã das árvores e dos pássaros de solidão azul?

Um imenso sorriso no começo de cada trilho regando papoilas e cardos, afagando pedras e espinhos que nunca conheceram o peso dum pomo, curando a muda dor da terra como quem abraça o breve terror duma criança de joelho ferido.

Num alegre balanço de flor entregue ao vento, uma cesta sem sonhos pendia das mãos limpas de hesitações. Nela, apenas o pão cozido no ventre da estação, o vinho que regaria as horas por nascer adormecendo num conforto de grão ainda no silêncio da espiga – e todos os frutos redondos que a manhã de linho, na sua maternal generosidade, desejou oferecer.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart. 

 

 

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. pedroi marques 10 de agosto de 2018 em 17:06

    Gostei!
    Um poema em prosa. Mais um a juntar a tantos que me surpreendem pelas metáforas cheias de musicalidade, cheiros e sabores e sentimentos e imagens para mim inimagináveis.
    Parabéns!

    • Pedro Belo 11 de agosto de 2018 em 18:38

      É uma óptima designação, meu amigo. Comummente dir-se-à prosa poética, mas poema em prosa também está muito bem.
      Aquilo que descreveu é decerto o que este autor pretendeu na criação destas linhas. Todos os cheiros, sabores e imagens sugeridas são apenas um convite feito ao leitor, um convite para visitar e se demorar por um universo pessoal, uma colecção de retalhos de tantos dias idos, com lugares, flores, árvores, pássaros e amores que estimo. É, por isso, um pedaço de mim que partilho em linhas assim; e é por isso que muitas me são tão especiais.
      Muito obrigado pela sua presença. Forte abraço.

  2. Ligia Soares Skrebsky 10 de agosto de 2018 em 18:39

    A mais linda manhã de piquenique, descrita com tanta singeleza e ternura…abençoados olhos que viram tanta beleza pura, tal um lírio, o príncipe das flores

    • Pedro Belo 11 de agosto de 2018 em 18:39

      Obrigado pelo seu comentário, Lígia. Posso desde já adiantar que este texto terá continuidade no próximo mês. Aguardemos… 😉
      Beijos e até breve.

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