Subversa

Sem Ana. Com Caio ao som de blues | Helder S. Rocha (Vitória da Conquista, BA / Curitiba, PR)


[…] porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos
que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, […]

Caio Fernando Abreu, Sem Ana, blues

 

É sábado. De noite. No som baixo do meu celular, toca Born to be blue. Já perdi a conta de quantos sábados fico assim. Observando-o se derramar em câmera lenta ao meu redor. Em pleno instante internacional da festa. Das orgias criativas. Das bebedeiras sem fim. Dos encontros furtivos e planejados. Da pizza. Do cine pipoca. Da espera numa fila de automóveis para entrar num motel. Enfim. De tantas ações que ilusionam o corpo e a mente por algumas horas, fazendo crer que a vida pode ser outra, que o mundo pode ser diferente.

Trancado num apartamento sem graça. Disparando mensagens à tôa no whatsapp para todos que se dizem da família. Daquelas lindas almas que podem mandar trechos bíblicos todos os dias pela manhã num gesto automático de que lhe querem bem. Mas que não podem adentrar a intimidade com indagações banais sobre o último livro lido, a pessoa com quem saiu na última semana, a dor que sentiu anteontem, a intuição que teve ao atravessar a rua mais cedo, a excitação que sentiu na última noite. Tão sangue, pouco coração.

Inútil brigar com as mãos que vagarosamente digitam nomes do passado na busca de arquivos responsáveis pela preservação de registros que denunciam que nem sempre houveram sábados à noite repletos de vazio. Com alguns cliques, páginas de fotografias são abertas com instantes nem tão distantes assim. Logo, a viagem de Porto Alegre, as férias em São Paulo, o réveillon em Rio de Contas, as tardes mornas na Praça Tancredo Neves, acabam invadindo o presente com sinais de um tempo que certamente não voltará. Muito menos, se repetirá. Eis uma certeza que fica ao lado da cama, desenhada no lençol desamassado e frio.

Nem mesmo o café que acabo de passar e que vislumbro na atmosfera da cozinha tomada com o aroma que dança e me transporta para finais de tarde na companhia de pães de queijo, rosquinhas açucaradas e partilhas cotidianas. Sequer o gosto desse pão com manteiga que beija minhas papilas recupera a plenitude de cafés da manhã tomados na padaria do posto de gasolina que ficava na esquina de uma das quitinetes que morei. Nada traz nada. É um ir para não sei o quê.

Talvez isso seja o significado do progresso pessoal. Dos ganhos e perdas de uma vida que seguiu em frente, rumo à escala social de vencedores e sujeitos de sucesso. Dos nivelamentos inevitáveis que separam pessoas, afetos, quereres, desejos, não mais apenas com fronteiras geográficas e temporais. Mas que separam por opções vãs, objetivos toscos e interesses fugidios. As desprezíveis cartilhas do bom viver na sociedade de bem, da ordem, da ética, que trazem de lambuja o gosto amargo da frustração, do tédio, da monotonia, da depressão, da apatia, da tristeza.

Há um momento talvez que me sinto acompanhado nessa minha solidão continental. É quando ouço na rua o caminhão de lixo passar e os homens, quiçá num acordo tácito de dispersão da aspereza que caracteriza o seu ofício, assobiam para si e os seus pares, mas que tomo a sorrateira liberdade de me fazer um outro companheiro seus. Ouvi e não me senti tão só. Mesmo sendo rápido, ficara a sensação de que há trânsito e que as coisas estão sendo trocadas a todo momento. Quem sabe seja um prenúncio. Uma espécie de profecia sempre anunciada desde o momento em que se sabe ser. Talvez. Sei lá.

Lembro agora de Ana. De tantos momentos, juntos e distantes, que foram vivenciados. Do que ficou e não consigo encontrar. Da chave jogada em algum canto da casa que poderia me permitir abrir a porta para sair também. Mesmo revirando tudo e destruindo o que permaneceu, ainda não encontrei. Talvez, a chave já esteja dentro da fechadura. Pode ser que a porta nunca seja mais aberta.

Olho para o teto e vejo uma luz fraca garantir ininterruptamente a visibilidade de minha solidão. Ela não tem culpa de nada. Mas está ali a me torturar. Penso por alguns segundos em me levantar e apagar a luz. Não faço isso. Ainda não fiz. Não sei se por preguiça. Ou se por sentir algum tipo de prazer em me ver torturar-me. Com a claridade, posso distinguir a imobilidade das coisas inanimadas com a mobilidade dos pequenos insetos que rastejam nas quinas das paredes contra a cama. Fico entre os dois. Estou pensando, mas não faço nada.

A noite se arrasta. Os barulhos lá foram diminuem. Cada vez mais posso ouvir o silêncio. Ele me prova que existe possibilidade de acrescentar algo ao nada. Por mais que tente mergulhar-me no buraco profundo da minha alma, não consigo me desvencilhar da sensação de ter um corpo. Estou pregado na carcaça dos meus trinta e cinco anos, sem poder expandir e ganhar o caos da vida. É uma condição esse estado. Estou nisso. Sei até como cheguei aqui. Mas não sei como sair, nem se sairei algum dia.

Ligo a tv do meu celular na intenção de me entregar de vez à distração midiática. Como sempre, não consigo assistir mais de dois minutos de futilidades e apelações publicitárias que são mantidas por uma gama incomensurável de solitários vencidos pelo cansaço e pela indisposição. Uma gente que compra barulho e besteira, para não sofrer com a fotografia de si mesmo. Ninguém suporta ver a vida passar. Todos buscam desesperadamente uma forma de tapar as brechas da janela para que seres indesejados não invadam o seu espaço. O circo fatiado por canais e emissoras acaba servindo como um paliativo para evitarem o confronto com a crueldade da existência. Os dragões jamais conhecerão qualquer paraíso.

Dez horas e alguns minutos. Ainda estou sem sono. Coloco os fones de ouvido para ouvir Chet num volume alto. Minha mente não está cansada o suficiente para desligar a consciência do hoje. De luz apagada, permaneço alerta, espreitando a poeira incolor que paira no breu da atmosfera silenciosa do meu quarto vazio. Se não fosse o latido do Boby que ouço lá da esquina, poderia até pensar que já estivesse dormindo. Na parede à minha frente, pequeninos corpos levemente luminosos rastejam enfileirados, seguindo um itinerário costumeiro em que pouca coisa importa para si o fato de ser um sábado à noite.


HELDER S. ROCHA | Leitor, contista e pesquisador de Literatura. Publica no site Recanto das Letras e no blog: https://titereirotitere.wordpress.com/. Autor de Hiatos Fugazes (contos – Ed. Multifoco, 2017). | heldersantosrocha@gmail.com

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