Subversa

Soberana ao Vento |Hebe Santos (Estância, SE)


– Só as mulheres no limiar da vida podem se dar ao desfrute de serem tolas, sonhadoras. Contudo, isso não implica em serem irresponsáveis consigo mesmas, pois tal conduta sempre culmina em danos insanáveis os quais as acompanharão em cada relacionamento em que adentrarem, nas vidas solitárias não pretendidas, pelo menos não a priori, nas solidões multifacetadas que se instalam na alma e estilhaçam os miúdos e tão poucos anseios nutridos por seus corações, anseios calados, negados, questionados e sufocados que, a despeito de tudo, existem.

A beleza perecível do corpo parece, a princípio, uma incógnita para a mulher trajada com as vestes coloridas da juventude física a qual apraz o olhar, suscitando desejo e gozo. Sente-se, ela, senhora absoluta daquele que seu coração adora, a domadora e detentora de seus desejos febris, aquela a quem ele há de desejar até o fim, aquela a quem ele devotará amor mesmo na velhice, período em que os aparatos estão demasiado gastos pelo tempo, sem a graciosidade de outrora, deteriorados. Ela é jovem, imatura, incapaz de ver que o evento silencioso a aguarda, calmo, porém nada inexpressivo, nas ruas turbulentas da vida, demonstrando, paulatinamente, seus sinais na pele, no sorriso, no olhar, permeando, inclusive, as palavras, as quais vão se nutrindo de experiências, tornando-se parcas. – Sóbria, contida, elegante, depositou as mãos sobre as pernas cruzadas e observou os livros bem ordenados na estante. Não protelou as palavras – deixou-as vir:

– Eu tinha vinte e dois anos quando os meus sonhos e as minhas esperanças foram sorrateiramente saqueados porque eu, castelo sem barreiras, mas com os fiéis e sanguinários guerreiros que são a razão, a consciência e as referências, deixei-me invadir, deixei-me conhecer, sem me importar com as consequências do desatinado ato. Passei a apreciar o invasor, o escudeiro infiel, porque a sua presença em mim parecia me fazer adentrar nos arco-íris infinitos do prazer sensual.  Era o homem ansiado a dilapidar o meu ser, com atos invisíveis, como um pirata inimaginável a roubar-me a vida.

Não o amava, entretanto, fazia-o acreditar, por intermédio de provas físicas, em meu amor apaixonado e, simultaneamente, eu me fazia crer na suposta possibilidade de vir a ser amada e de vir a amá-lo intensamente. Desse modo, eu ludibriava a minha sensatez e me furtava à felicidade ofertada por outros braços, movida por desejos e valores morais que hoje considero irrelevantes por questões experienciais. Neguei-me a usufruir o perfume das flores exóticas dos campos desconhecidos, recusei os beijos singelos de uma aurora apaixonada, recusei-me a voar tal como o pássaro sedento de infinito, em honra ao meu nome e em sinal de respeito ao elo sagrado por mim imaginado, sem existência real. Fui íntegra, debaldemente íntegra. Sabe-se bem: oportunidades para incorrer no mal sobejam, mas, quando os valores nobres prevalecem, elas perdem a sua força instigadora. É uma lástima que seja tarde para lamentar a minha integridade cega. – Um arrependimento real cintilou no olhar de Mônica, de modo que se sentiu ligeiramente emocionada. Recordou-se do namoro outrora travado cujo término se deu sem argumentos, sem as respeitosas formalidades. A emoção passou assim como o amor. Continuou:

– Traída com requintes de vileza e abandonada como uma gata de poucos dias de vida na pista escaldante do julgamento público fui e, mesmo sendo ré primária, fui sentenciada à morte subjetiva, tendo o meu ser esfolado exposto à apreciação e à ridicularização por parte de uma sociedade permissiva no que tange ao comportamento do homem, mas demasiado rígida no que concerne ao comportamento do sujeito pertencente ao gênero feminino. Ultrajada, destroçada e destituída do que eu era, permaneci, durante muitos anos, caída sobre o chão, com as roupas em frangalhos, infecta, enlameada, desorientada e sem fé em mim. Sentia-me como o lixo dos depósitos, o lixo cujo corpo fora sentido por mãos que, tão logo tiveram outras alternativas, outras possibilidades na vida, deixaram de tocá-lo, de vasculhá-lo, enfim.

Hauri o perfume singular das flores que brotam na solidão da alma e habituei-me a ele, de modo que já não me concebo, nem mesmo no âmbito do pensamento, em companhia de outrem. O tempo, professor austero, ensinou-me as injustiças instituídas, os preconceitos velados, as hipocrisias condicionadas. Tornei-me minha pupila e, em simultâneo, senhora de mim, de modo que me protejo de quaisquer possíveis saqueadores e, caso não os possa conter, poderei escolher o que hão de levar de mim e não será uma tarefa árdua: os meus maiores tesouros estão enterrados no sepulcro das experiências transformadoras.

Tornei-me forte porque jamais serei amada. Sou uma mulher de fibra – forte e firme. Em corpo de homem já não encontro alento, temo adentrar em casas condenadas. Em corpo de homem já não encontro alento, o meu coração é uma fortaleza construída sobre rochas, fortaleza situada num lugar distante e para o qual não há estradas. Em corpo de homem já não encontro alento: sou soberana ao vento.


HEBE SANTOS nasceu em Esplanada, Bahia, dia 01 de fevereiro de 1986. Participou da coletânea Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora, com o conto A Deusa do Silêncio Eterno, e do projeto A Arte do Terror, vol. 4, com a obra O Gênio Incompreendido. É formada em Letras, Língua Portuguesa. | hebe.santos@hotmail.com

 

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