Subversa

Sobre o estar imóvel à espera | Edson Costa Duarte (Campinas, SP)


Quando a gente chega a um ponto onde não é mais possível dar um passo, só nos resta a imobilidade. E o abismo lá embaixo. Não há mão que ofereça ajuda, alento. Muito depois haverá chuva e vento frio. Melhor contar tudo às avessas, atravessar o tempo, dar um nó nele. Cansa-me o contar coisa após coisa. Pois é, não é que houve um momento em que os nós se desataram? E tudo começou a ser em todas as direções? Não existe o agora, porque ele já não é, não existe o antes porque  ele sempre já é lembrança. Num dia vermelho e laranja da minha infância eu comprei dadinhos de amendoim. Ai, como era bom comê-los! E não é que os dadinhos ficaram suspensos no tempo que até hoje me lembro deles, sua textura, sua cor, seu gosto. Eles eram doces e tinham um vago gosto de sal bem lá no fundo. Eram macios e aveludados como passar a mão nos pelos de um gato. Não é que viver seja fácil assim. Que seja doce e macio como tudo isto que conto. Talvez eu não devesse dizer. Mas viver dói. Dói como está doendo agora, muito mesmo, nesse momento em que falo a vocês uma doce lembrança. É que as coisas se misturam em mim, sempre, e algo que vi há pouco ou alguma coisa perdida lá naquele passado em que não consigo dar mais um passo. Imóvel. Coisa inútil. Estou desesperadamente em desesperança e desavença com meu corpo. Estou esgarçado, puído, velho tecido virando pó. E isso antes das tempestades. Esperando que venham e que, enfim, eu me transforme num amontoado de coisas que não prestam mais para nada. Estou aqui. Ereto. O peito aberto. À espera.


EDSON COSTA DUARTE estudou Letras na Unicamp, onde também fez mestrado sobre a obra de Clarice Lispector. Entre os anos de 1992 a 1996, organizou o acervo documental da escritora Hilda Hilst, que foi negociado em duas partes com o Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio”, Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, em 1995 e em 2002. Em 2002, mudou-se para Florianópolis para fazer o doutorado, na UFSC, sobre a poesia de Hilda Hilst. Desde 2006 voltou a morar em Campinas. Entre 2007 e 2009, fez um pós-doutorado sobre a prosa de Hilst, sob supervisão do professor Dr. Jorge Coli, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp.

 

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Isadora 19 de novembro de 2018 em 22:12

    quando foi enviado este texto? Meu amigo morreu antes de sua publicação aqui. Vivo saudades sempre.

    • Subversa 20 de novembro de 2018 em 14:45

      Oi Isadora. Foi enviado dia 01 de fevereiro deste ano. O que houve?

  2. Raissa Duarte 28 de novembro de 2018 em 23:15

    Meu querido Tio Edson faleceu antes da publicação desse texto. Ele morreu por complicação de uma hemorragia digestiva.

    #FazMUITA falta

    • Subversa 1 de dezembro de 2018 em 10:30

      Sintimos muito, Raissa! Imaginamos a falta que faz… era um grande autor e pesquisador. Que dia isso aconteceu?

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