Subversa

Surfer Rosa | Marcelo Martins (Porto Alegre, RS)


Teve alguma coisa a ver com a música. Escutaram Pixies a tarde toda. Franco preferia o Surfer Rosa a qualquer outro disco da banda, considerava-o “a” obra-prima. Fazia um esforço para gostar de MPB, uma demonstração sincera de boa vontade com Isabel, mas a verdade é que não se identificava com o sotaque musical da língua materna. As palavras não encaixavam direito na melodia. Tinha o sentimento perturbador de que interferiam na sua liberdade de inventar a letra da música conforme a sua vontade.

O domingo transcorria como de costume: preguiçoso ao amanhecer e vagamente melancólico após o almoço. Isabel sentia no corpo todo o peso que a separava da segunda-feira às sete horas da manhã. Sua mente flutuava entre possibilidades remotas de existirem outras manhãs que não fossem segundas, nem terças, ou então que não fosse domingo, ou o domingo não significasse nada além de um dia após o sábado. Na segunda-feira era preciso atrelar o corpo a mente e praticar os ritos do dia a dia: banheiro, ônibus, escritório. Pausa para o café, pausa para o cigarro, pausa para o almoço. Contar os minutos, observar os ponteiros do relógio escalando ou descendo a parede, enfim seis horas da tarde. Isabel tinha a impressão de que perseguia algo que estava sempre um passo a frente. Para Franco todos aqueles cinco dias úteis tinham como finalidade levá-lo ao fim de semana. Desempenhava seu papel com dignidade, no entanto, ao olhar-se no espelho, via cada vez menos o rosto que um dia tivera. Não apenas a imagem refletida, mas o que a animava e conferia autenticidade, isso desaparecia aos poucos a cada manhã.

O fim de semana obedecia a um contrato preestabelecido entre ambos. Em dias de sol caminhavam até o Parque da Redenção, referiam-se a isso como “ir ao Brique”, almoçavam num restaurante das proximidades do parque e tomavam café. Depois locavam um filme na locadora da qual Franco era sócio há mais de quinze anos. Isso poderia levar alguns minutos ou horas. Então voltavam para casa, sentavam no sofá e liam um pouco antes de assistirem ao filme. Franco amava os livros. Andava pelo apartamento com eles, levava-os para o banheiro, para cozinha, colocava-os na cômoda ao lado da cama. Muitas vezes nem os lia, apenas deixava-os ao lado como se eles lhe velassem o sono. Em diversos momentos de sua vida eles o haviam protegido da fúria do mundo. Isabel preferia as cobertas e o torpor dos sonhos. Nos dias de chuva entregavam-se sem culpa aos prazeres: Franco à literatura, Isabel ao sono. Sentiam que era permitido recolher-se ao útero do pequeno apartamento desfalecidos de todo o resto. Alguns anos atrás haviam decidido morar sob o mesmo teto e nem sabiam ao certo porque. Dizer que fora apenas amor era diminuir o significado daquela união. Cada um com sua mala de objetos mutilados tentando multiplicar as chances de sobreviverem. Eram como dois desterrados.

O sentido do domingo escorria pela janela branca que dava de frente para os fundos de outro prédio. A visão que os açoitava era a de um muro pardacento intransponível. Nem o domingo era tão absoluto quanto aquela enorme parede de concreto. Franco e Isabel liam sentados no sofá da sala que ocupava mais espaço do que deveria. Franco ligou o aparelho de som e colocou o Surfer Rosa para tocar; o melhor disco que ouvira na vida. Franco era um tanto apegado a certas ideias; ouvia apenas bandas antigas cujos integrantes haviam se separado ou morrido. Desejara ser guitarrista e montar uma banda que tocasse exatamente como Pixies. Alternou a audição do Surfer Rosa com a do Doolittle. A massa sonora produzida pela banda regurgitava a modorra do domingo. Isabel, antes absorta na leitura dos classificados do jornal, se arrastou pelo sofá até alcançar o botão do volume. O som perdeu força diluindo-se no ar, de maneira que a voz de Black Francis não estava acima de nenhum outro som externo. Franco entendeu o ato como uma afronta. Por que então não desligara o aparelho? Ouvir música naquele volume era o mesmo que não ouvi-la, era como se dissesse que não valia mais do que o barulho do motor de um carro na rua. Que tivesse a decência de lhe dizer que odiava a música, que na verdade nunca, jamais, em toda a sua vida, gostara de Pixies. Mas não, preferia fingir que estava lendo. Franco abandonou o lugar em que estava e foi sentar-se ao lado do aparelho de som. Girou o botão do volume até o máximo. A voz de Black Francis ecoou como se fosse derrubar as paredes. Isabel levantou-se, caminhou um pouco pela sala aparentando desorientação, depois se voltou para Franco e num movimento rápido puxou o fio do rádio da tomada. Sentou-se novamente. A música atrapalhava sua atenção, ainda que não estivesse realmente concentrada em nada. Não gostava de Pixies, achava-os barulhentos, incompreensíveis, e o vocalista nada fazia além de gritar. Os pensamentos de Isabel corriam através da janela e das grades para muito além do desânimo que se instalara – não sabia desde quando – em seu espírito. Questionava se a vida não tinha lhe reservado outra coisa que não isso que estava vivendo. Por que Franco? Pareciam tão diferentes ou na verdade sempre foram assim e agora era insuportável admiti-lo? Porém, ele ainda podia se refugiar na música ou nos livros, e isso lhe dava alguma vantagem. E a ela o que restava? Por que não amava os Pixies? Pensou em Luis, colega de trabalho que lhe dera carona durante um tempo. Um dia a surpreendeu no bebedor dizendo que achava que eram meio vizinhos. De forma espontânea Isabel respondeu que morava na Lucas de Oliveira, perto da Protásio. Ele então ofereceu carona, era caminho da sua casa. As primeiras vezes foram esporádicas, depois passaram a ter regularidade e, por fim, tornaram-se diárias, quase indispensáveis. Luis era mais jovem que Isabel, talvez uns cinco anos, solteiro. Animava-se com conversas fúteis e não se importava que ela fumasse no carro. No entanto, nunca propusera que fossem tomar cerveja ou jantar, ou tão somente parar em algum lugar antes de levá-la para casa. Como um motorista de ônibus, apenas mais simpático, carregava-a de um ponto ao outro. Um dia, enquanto esperavam o sinal abrir, Isabel disse:

¬“Porque não me beija?”

Surpreso, Luis a olhou tentando compreender que forças estavam em jogo naquele momento. Encolheu os ombros, colocou as duas mãos no volante e, sem jeito, respondeu:

“Você é casada.”

Isabel apertou a bolsa contra o corpo com tamanha força que se sentiu sem fôlego. Permaneceram em silêncio durante o resto do percurso.

Saída do torpor em que se encontrara minutos antes, Isabel recebeu no rosto o olhar de Franco. Ele ali parado ao lado do aparelho de som. Fitaram-se por minutos, a princípio com estranhamento, depois com ódio incontido, e puseram-se a rosnar um para o outro exibindo os dentes afiados. Franco regurgitava o som distorcido das guitarras enquanto Isabel lhe mostrava as garras. Porém, de súbito, a luz se apaga. Ouvem um sobe e desce de passos na escada, seguido de uma batida seca na porta de vidro da entrada do prédio. Um silêncio profundo penetrou o ambiente. Tragados pela escuridão, Isabel não podia nem distinguir a silhueta de Franco, ouvia apenas sua respiração ofegante. Sentiu vontade de lhe dizer algo, mas teve medo. Franco tateou no escuro buscando o sofá e, involuntariamente, tocou a perna de Isabel, o que a fez retrair-se envolvendo os joelhos com os braços. Por fim, conseguiu sentar.

Com os olhos colados na escuridão que transformara o mundo lá fora e o pequeno apartamento na mesma matéria, Franco e Isabel sentiram algo semelhante a aflição e a vergonha, como se estivessem nus na frente de estranhos. Permaneceram sentados, lado a lado, no fundo negro do domingo sem fim, e engoliram as lágrimas em silêncio.


MARCELO MARTINS é professor de Literatura e Língua Portuguesa. Escreve prosa e poesia, foi um dos editores da revista Verborhagia e mantém o blog DeSalinhado. Em 2015 participou da coletânea de poesia “Cantos Seletos”, publicado pela Editora Literacidade. | marcelosilvadoze@gmail.com

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