Subversa

Teus rastros | Glauber Costa (Ubatã, BA)

Os pés eram pequenos e eram tudo o que eu via. Iam se desviando de pedras, montinhos de terra, objetos cortantes, água suja. E eu só os seguia. Eles abriam caminhos. As raízes de árvores no meio da mata podiam ser armadilha para tropeçar. Mas com agilidade se tornavam trampolins para empolgar o caminho. Na área aberta, era bom ver a serra e o verde bonito de longe, enquanto sentíamos mosquitos picando as canelas, e os afugentávamos com tapas distraídos. Chegando a alguma cerca de arame, suas mãozinhas abriam espaço adequado e suficiente para que fosse possível passar. Seu dedo e seus olhos indicavam uma descoberta. Uma casinha abandonada. Era bom entrar e ver coisas velhas. A poeira, a ausência de coisas inteiras e da metade de coisas, as formigas e as teias de aranha. A penumbra dentro dessas casas tem um cheiro forte de lembranças desconhecidas. Sua sandália estava suja, o que fazia com que eu olhasse para a minha, toda empoeirada; e era emocionante. Todo o suor. Sua camisa também estava suada e suja. Subíamos mais, por uma estrada de barro em uma ladeira. Lá vinha um caminhão saltitando na descida. Nosso acostamento era uma grama irregular, até na umidade, porque algumas folhinhas estavam sempre molhadas. No topo da ladeira, cansávamos e eu esperava por mais caminhos, que nenhum de nós conhecia. Andávamos devagar, sem parar, e eu tinha um graveto na mão, na nova estrada grande. Cheia de retas e curvas. Pedíamos água a pessoas em uma casa sozinha, bebíamos em copos amassados de alumínio e recebíamos um olhar idoso e místico. Prosseguíamos preenchidos. Anoitecia e a nossa respiração combinava com todo o suor grudado na pele. Muitas estrelas no céu. A cara quente. Sua mãozinha apontava para o alto. Os meus olhos espantados e felizes acompanhavam. Um céu todo estrelado. Sentávamos juntos em alguma pedra que não tinha limo, até a hora de voltar para casa. O retorno era triunfante pela cidade, sob olhares e indiferenças. Em casa, eu ia direto para o chuveiro, onde tudo se evaporava, até ir satisfeito para a janela do quarto, reverberando no meu cansaço aquela descoberta de mais um pedaço do mundo, que um dia iria, sim, desbravar, sem ter à minha frente aqueles pezinhos, à época maiores que os meus, e de que hoje me lembrei ao ser guiado por outros, nessa repetição aleatória de tudo.


GLAUBER COSTA (Ubatã, Bahia) publicou as crônicas “No longe, no dentro” e “Gênese”, ambas pela Coletânea Eldorado, da Celeiro de Escritores. Publicou contos na Revista Subversa. Escreve na Fanpage do Facebook: Manuscritos. | GLAUBER.COSTA@HOTMAIL.COM

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