Subversa

Uivos | Adriana Vieira (Rio de Janeiro, RJ)


Banguela, um sujeito de tez pastosa, dos dedos magros longos, se escancara feito porta aberta em dia de festa, mostra até o céu da boca, e mexe remexe naquelas estórias perdidas. Não fosse inusitado o local que faz isso – não é em sua casa, nem do vizinho, é na porta do cemitério, logo na entrada onde se vela os mortos.

Noite desta o prefeito sentiu uma dor no peito, mas achou que era flatulência, dormiu em formato de concha. Raiou o dia e cadê que acorda. Estranhando o sumiço do marido que lhe fazia café todas as manhãs, a esposa pegou a melhor bandeja, de cristal, herdada da tia, colocou jarro de flor, e subiu a escadaria no intuito de retribuir a gentiliza lhe dispensada. Só se ouviu gritos, todos foram ver o acontecido. Ele estava arroxeado e sem respirar. Gritaria e choro. Choro e confusão.

O Banguela ouviu da praça. E já tomou rumo para pegar seu único terno, na mala guardada no quintal de sua casa. Casa que não entrava mais, desde o acontecido- o dia em que perdeu a audição em plena aula de piano.

Bem, ele foi o primeiro a chegar, antes da viúva e dos filhos do defunto. Prestativo, arrumou as flores, encarregou-se de preparar o café da tarde.

Quando a flor da dama da noite se abriu, o sol já se despedira. O velório se iniciara. O café já estava frio, sendo necessário refazê-lo e jogá-lo fora. Fez novo café e providenciou as cadeiras. Em seu âmago tinha aquela sensação de já ter vivido aquela cena antes. Sim, realmente tinha. O Prefeito não era o único a morrer de morte estranha, era o quinto defunto no ano a bater as botas de repente. E o ano mal começara.

A viúva chegou, lânguida, os filhos chegaram, pareciam aéreos. A comunidade aos poucos se acomodava, e na porta da frente começava uma conversa, em tom alto. Banguela, na tentativa de se ouvir, lembrava da época em que brincava com o prefeito. Sim ele tinha perna torta, dizia. E seu andar era quinze para as três, afirmava.

Sem pudor, no meio do velório, um grupo de cinco ria da estória. Banguela sorria e a ausência de dentes da frente formava uma janela – dava para ver o rosado do céu da boca.

A esta altura a viúva estava acariciando o rosto do prefeito, colocando um cravo amarelo no seu peito e ajoelhada sussurrava.  O único homem que conheceu estava ali deitado, sem respiros.

Banguela continuava na porta, e de lá se escutou sua voz alta e disfônica, desta vez dizendo o quanto o prefeito gostava da coisa.

E não é que o Ambrósio, sabe o Ambrósio, aquele guri que sumiu de nossas vistas, desapareceu- eu sei por que… O prefeito, que Deus o tenha, gostava bem de um rabo de saia, antes mesmo de amanhecer saia de casa e ia para casa da viúva do lado- depois de quase um ano e menos de dez meses nasceu o Ambrósio. Eu bem fui lá, o guri tinha os olhos azuis do defunto.

Dentro da sala, um constrangimento, por que Banguela estava se comportando daquele jeito? Talvez por ter tido um trauma. Depois ele nunca foi o mesmo. Passou a vagar pelas ruas, por vezes dormia na praça, e de uma vida ativa, assumiu a capacidade de observar a vida dos outros. Chegava no banco da praça de dia, levava sua marmita e lá mesmo almoçava. Quando sentia vontade de ir ao banheiro, tocava nas portas, de preferência as que rondavam a praça.

Banguela sabia de todos. De si esquecia-se, ou fingia esquecer-se. O piano estava selado desde o momento em que ficou surdo.

A viúva se afastou do caixão e foi para porta da igreja, agradeceu aos gritos, o café e os salgados, a disposição dos móveis. Olhando bem nos seus olhos, fixou o nariz na janela e com voz firme, articulando bem as palavras, disse para ele respeitar o defunto, o seu homem. Se retire, Senhor Banguela, você não é bem-vindo aqui.

Banguela entendeu. Parecia ir embora, mas retornou. Pediu desculpas. Mas logo em seguida, inferiu a sentença de morte – “Mas que ele não era fácil, não era não. De dois anos para cá toda mulher que ele engravidou morreu: Gertrudes, Marina, Laís e foi contando … espero que a senhora não tenha sido engravidada.  Quem avisa …

Antes mesmo que ele terminasse, a viúva o tomou pelos braços. Deixou o defunto, os filhos pequenos e a comunidade para trás.

No banco da praça, mais calmos, ele lhe contou o dia que viu o prefeito comprando cravos para ela.  Mas ultimamente ele estava diferente. Começou a frequentar a casa das viúvas em noites de lua cheia. Retornava ao mesmo assunto como que não entendendo o motivo.

“Todos os miúdos sumiram. Suas mães foram mortas. Agora me diga, o que aconteceu com ele?

A viúva ficou em silêncio. Banguela segurou sua mão e disse que facilmente se apaixonariam por ela e que ele não era o melhor candidato.

Com os olhos marejados, a viúva, se aproximou do ouvido de Banguela. E lhe travou uma mordida em plena lua cheia.

No banco da única praça de Tibá, Banguela estancava o sangue com suas mãos finas e ossudas. O rastro das patas da loba rumava para o parque nacional.

Nunca mais se viu a viúva. Banguela voltou a escutar.  Da viúva do prefeito tem boas lembranças.  Preferia tocar as teclas do piano do que adormecer no banco daquela praça, tinha receio de encontrá-la e se perder na mata. Compunha e rezava.

Do alto do morro, a loba e seus filhotes permanecem vorazes. E quando a lua emerge, ela entoa uivos. Tirita os dentes. A melodia vinda do piano de Banguela a alimenta de lembranças.


ADRIANA VIEIRA | tem por confrades os quatorze – que amancebados com ela formam Os Quinze. De resto, é pós-graduada em Arte, Pensamento e Literatura Contemporânea e em Roteiro para TV, cinema e Novas Mídias pela PUC-RIO. Publicou Carpintaria de sonhos, livro de poemas com prefácio de Ivo Barroso. Colabora com contos e crítica para a revista eletrônica Obviuos, com a coluna “Ki Literatura é essa?”. Publicou em coautoria Contágios editora Oito e Meio e Madre Terra – edição bilíngue Italiano e Português – editora Acima Mandala. Tem vários contos publicados, um deles pela revista Subversa – “Bolos de laranja e chocolate”.  | dridrilomar@gmail.com

 

 

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367