Subversa

Um certo caminho | Silvia Gerschman (Rio de Janeiro, RJ)


Caminhava a passos largos e apressados; a noite estava bastante próxima e não gostaria que chegasse enquanto ele ainda estivesse a caminho. Nessa hora prestou atenção à sua volta e percebeu que agora atravessava um frondoso arvoredo, que se distribuía geometricamente alinhado, aos lados do caminho de terra pisada em que vinha andando. Tratava-se de duas linhas de árvores ao longo do caminho; eram tão perfeitas que parecia que quem semeara aquelas árvores provavelmente tivera a atenção concentrada apenas na semeadura. Como se mais nada houvesse na sua vida ou como se a sua vida dependesse completamente daquilo que estava fazendo.

Caminhava sem prestar atenção ao lugar em que estava; a sua preocupação nessa hora se concentrava em chegar antes de cair a noite. Quando viu as árvores e observou o céu, conseguiu perceber as duas caras da natureza que o envolvia, o espaço que ainda faltava para percorrer e o tempo que ia passando enquanto o céu escurecia. Deviam faltar aproximadamente três quilômetros para a chegada. Já tinha feito aquele caminho algumas vezes, mas nunca de noite. Agora, a sua própria sombra ia desaparecendo em relação direta ao tempo em que aumentavam as sombras e que as copas das árvores cresciam e semelhavam uma folhagem imensa. Como se naquela imensidão se escondessem gigantes sem rosto mas nem por isso menos ameaçadores.

Sentia medo, mas não era um medo palpável. Talvez pudesse ser considerado um medo sobrenatural, desconhecido. Pensou em que perigo aquele caminho podia representar; reexaminou mentalmente, como para se resguardar, as possíveis ameaças que podiam lhe aguardar no tempo e no espaço que lhe restava até seu destino. Tranquilizou-se. Na verdade, nada do que seus neurônios lhe apresentavam como ameaças aterrorizantes tinha algum fundamento, nada era sequer provável. Encontrar um ladrão no caminho, se deparar com um louco maníaco que quisera lhe matar, dar de cara com um animal feroz… tudo ia sendo descartando porque não se conheciam histórias desse tipo naquele lugar. Pensou na sua amiga que morava lá havia muitos anos, nem lembrava quantos… que vivia meditando e fazendo ioga e conhecia todos os vizinhos do lugar. Pensou “ainda bem que trouxe a lanterna”. Quando a noite fechasse o dia, poderia seguir o caminho sem se perder, mas seus pés iam cada vez mais rápido, como se tivessem vontade própria.

Olhou para os lados e teve a sensação furtiva da passagem rápida do que parecia uma sombra, talvez de um animal. Ficou preocupado porque aquilo que passou ligeiramente deixou o lugar impregnado de uma presença. Mais uma vez o pensamento o incomodava mais do que um fato.

Continuou sem se deter e fez uma aposta com o destino de que aquele desenho na obscuridade não passava de um gato. Não queria dar àquilo um espaço maior no pensamento, no momento em que deveria se fixar apenas no trajeto a percorrer.

Deixou para trás o destino e o possível gato, mas não evitou se tornar insuportável para si mesmo. Não conseguia abandonar suas elucubrações nefastas, sobre o ser que por ali tinha passado.

Estava nessa luta inglória quando ouviu o ressoar de uma respiração. Seria real? Pediu a si mesmo silêncio para ouvir melhor. No segundo que deixou de respirar não ouviu nada além do vento mexer levemente as folhas das árvores.

Seu medo era doentio, não conseguia admitir que estava parecendo  uma criança, quando, de súbito ouviu o uivar de um lobo.  Instintivamente olhou para o céu, buscando a Lua. Lembrou que, nos contos fantásticos, quando a Lua aparecia redonda e brilhante, os lobos uivavam, as bruxas dançavam e as criaturas da noite saíam a festejar a luz, que o astro oferecia na ocasião de se pendurar no céu azul, quase negro, repleto de estrelas.

Como se acabasse de invocar o diabo, num piscar dos olhos uma vasta neblina começou a se estender na pradaria. Era o que restava naquela noite…

Retirou a lanterna da mochila, iluminou o caminho das árvores e reparou que a distância para atravessar o caminho era de uma quadra de extensão e que adiante, não saberia dizer a que lonjura, podia ser observada uma fosforescência não muito além do caminho das árvores. Parecia haver um trajeto pequeno para se dar de cara com a luminescência. Sua intranquilidade foi ainda maior quando lembrou que, nas imediações, não havia moradores, que possam levá-lo a pensar em alguma explicação plausível para aquela estranha luminosidade. Acelerou o passo, mas não conseguia imaginar como passaria na frente da fosforescência, sem conseguir olhar para ela. Mas que fazer senão encarar o que estava sucedendo? Quando caiu em si, percebeu que estava correndo. Na medida em que se aproximava da luz, ela ia diminuindo até ele passar pelo lugar e constatar que ali nada havia. Voltou, com a lanterna iluminando o terreno, sem encontrar sinal daquela luz, que tinha desaparecido. Teve de se render à evidência.

Sentia-se à beira da loucura quando, sem que nada se pusesse entre ele e seu entorno, o que parecia um gato, aquele do começo da história, se aproximou dele. Era metade homem, metade gato, mas algo lhe parecia familiar naquela figura e ele se esforçava, sem sucesso, para reconhecer o motivo daquela familiaridade. A efígie que o observava olho no olho lhe disse: “Para onde você vai?” Agora não tinha dúvida: era a sombra do início do caminho que se encontrava na sua frente, sem subterfúgios. O quase  gato deu uma volta ao redor das suas pernas e começou a andar. A caminhada foi longa, de mais de uma hora sem descanso. Então avistou a casa da sua amiga, da qual se aproximaram. Ele agradeceu ao estranho animal e lhe fez uma caricia delicada, o quase gato sorriu e foi embora. Nunca mais voltou a ver aquela figura, mas também nunca mais a esqueceu, guardando-a na memória como um segredo.

Quando sua amiga lhe perguntou o que tinha acontecido para ele chegar tão tarde a casa dela, ele não conseguia explicar a sequência do caminho que tinha atravessado, nem conseguia dizer com precisão se alguma coisa tinha ocorrido. Sabia que houve fatos muito fortes e estranhos naquela noite, mas ele não poderia falar o que se passou, porque, efetivamente, nada tinha acontecido.


SILVIA GERSCHMAN | é socióloga; nasceu em Buenos Aires e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde mora desde 1977.  Çhegada ao Brasil, solicitou asilo político por intermedio do Alto Comisariado de Refugiados Políticos das Nações Unidas e naturalizou-se brasileira. Concedido o asilo, concluiu  o mestrado e doutorado em Ciências Sociais. Desempenha-se como pesquisadora e professora da Fundação Oswaldo Cruz. Publicou A Democracia Inconlusa: Um estudo da Reforma Sanitária Brasileira;  A miragem da Pós-Modernidade: Democracia e políticas sociais na globalização;  Saúde e Democracia; Políticas Sociais e Saúde no Rio de Janeiro; todos pela Editora Fiocruz. Desde 2015 vem desenvolvendo diversos estudos em Literatura. Escreveu também os livros de conto Contágios, que está no prelo pela Editora 8 e meio; e Ninhos, que está no prelo pela Editora Patuá. O romance O Renascimento em Outras Terras, foi publicado pela Patuá, e a primeira versão do seu segundo romance, A Partitura de Clara foi finalizada.

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Angela Marquardt 16 de dezembro de 2018 em 13:32

    Um certo caminho de Sulvia Gerschman
    Sofremos junto ao caminhante a inquietude do andar solitario em terreno desconhecido e fugindo, contra o tempo, da inminente escuridão.
    Entretanto, o que fica são as belísimas imagens de um lugar cativante e inesperado.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367