Subversa

Um dia na vida | Aline Kazitoris (Cidade do México)


Hermenegildo acorda todos os dias às 6 horas da manhã. Ao despertar, Hermenegildo pensa em Zenaide, “ah, Zenaide”, como se acostumar à falta da presença de Zenaide depois de 62 anos juntos? Se acostumar à ausência é fácil, ausência é afastamento temporário, é não estar. Falta de presença é pior, é a presença em tudo, e a falta dela em todos os lugares e momentos que deveria estar. É sentir a presença no travesseiro ao lado, no cheiro de café passado, no beijo não dado, e a falta que ela faz.

Hermenegildo se veste, com sua camisa passada, suas calças caqui, seus sapatos marrons e as meias brancas. Sabe que não combinam, mas tem coisas mais importantes com as quais se preocupar, como a saúde. Ou talvez a falta de combinação, antes tão levada a sério, seja mais um sinal da falta da presença de Zenaide. “Ah, Zenaide.”

Ao chegar na cozinha, Hermenegildo, toma seu café preto, sentado na cadeira, aquela posicionada no canto do cômodo, a única que se destaca, a única estofada. Sentar na cadeira estofada é privilégio ganho com os anos, ninguém se senta lá a não ser ele, mesmo que a casa esteja cheia, todos sabem que os bancos de madeira são suficientes para aqueles que ainda tem o vigor da juventude, ou parte dele, e que a cadeira, a entidade, pertence somente a Hermenegildo.

Hermenegildo toma seu café enquanto a moça que está ali para cuidar dele, “como se ele precisasse disso”, fala. Dizem que a velhice é um pacto silencioso com a solidão, mas Hermenegildo não está sozinho, é apenas a escolha de se entregar a seus pensamentos, seus devaneios e memórias, “ah, Zenaide”. No caso de Hermenegildo é um pacto com a audição seletiva, se a moça lhe pergunta o que quer para o almoço ele escuta, se ela lhe conta sobre sua novela preferida, ele prefere não escutar.

Hermenegildo caminha todos os dias pela pequena cidade, cumprimenta a todos, vai até o bar. O médico lhe proibiu de beber, mas jogar conversa fora e relembrar os velhos tempos, “ah, Zenaide”, a velhice ainda não lhe privou de fazer.

Hermenegildo almoça, tira um cochilo na cadeira, vê televisão. Hermenegildo janta. Em todas as refeições: arroz e feijão. Não entende a moda das pizzas e porções dos restaurantes chiques e rebuscados, gosta da simplicidade, do conhecido, da rotina. “Ah, Zenaide”.

Mas apesar da preferência pela rotina e de muitas vezes parecer que os dias são todos iguais, Hermenegildo ainda espera que se interrompam seus dias tranquilos. Ele quer ver seu bisneto nascer, quer ver seu neto mais velho se casar, quer continuar vendo seus netos mais novos ao portão, esperando para contar-lhe algo.

E então, Hermenegildo se banha, se troca, escova os dentes e vai dormir. Antes de pegar no sono pensa em Zenaide. “Ah, Zenaide”.

Boa noite, Hermenegildo, até amanhã.


ALINE KAZITORIS | professora de Ciências no México, expatriada. Nascida e criada no Brasil e formada pela UNICAMP em Biologia. Lecionou em escolas para o ensino fundamental no Brasil até 2017. Se mudou para o México em 2017 e usou o tempo para escrever. | alinekazitoris@gmail.com

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