Subversa

Um olho esplêndido | Francieli Borges (Santa Maria, RS)

Esses textos começam sempre com a expressão “às vezes”. É uma questão de estilo esse meu estar no muro. Só que as vezes são todas, todas.  Apesar disso, esse não vai ser um capítulo daqueles que nos deixam moídos, que começam azul e terminam cinza. Acho que para alguém com um restinho de memória do que seja a vida ele vai soar bem mais como uma conversa com um velho amigo, um relato, uma evidência. Acontece que às vezes, descansando do sono que não vem, fazendo qualquer coisa, escutando o zumbido da turbina ao longe desse eterno avião sobrevoando que é o centro de certas cidades, esses gerúndios mais ou menos constantes, a gente tem uns saltos de lembrança. Foi naquela tarde em que a caminhonete do tio enguiçou justamente quando todos se reuniam para o velório – se juntavam nos planos, porque a noite ainda era alta e fria e julho. Mais ou menos amaldiçoados pela notícia de morte se uniam. Como julguei insuportável aquele reclamar de homem sobre a caminhonete estragada ou sem gasolina, lembro mal. Foi tão frívolo e gratuito aquele monólogo que escutamos por obrigação, uma, duas, três vezes naquele dia em que mais nada existiu. Um reclame desconexo e arrastado e burro. Pensei que insuportável a vida da tia Joana e da prima Sara, do João e daqueles outros dois filhos, os miúdos que não lembro o nome. Naqueles minutos intermináveis entendi os cigarros numerosos da tia, aquela lentidão nos gestos, aquele olho de cobra das beatas, os cabelos muito lisos e ensebados, a voz áspera que justificava e mentia asneiras. E compreendi Sara naquela birra eterna, apesar da idade que já avançava e da cara de muito mais velha que eu, que nasci antes, mas ela tinha uma boca cerrada de pessoa cheia de raivas. Conviver com aquele pai, com aquele marido, estar aos mandos de um coice em pessoa, como esperar coisa melhor do que aquelas rugas que assustam em rosto jovem? E o odiei, naquela tarde, por isso. O cheiro das flores, aquele ar de frango cozido em alguma parte e muitos cumprimentos graças a um caixão. De frente aos copos e pratos úmidos eu pensei, mais de uma vez, que aquele matraqueado só poderia ter a ver com a compensação de gastar em quaisquer ouvidos toda uma infelicidade. Que o tio é um bruto, um bruto que exaspera tudo o que toca para implorar atenção às suas misérias. Tenho medo, muito receio que quando eu estiver morrendo apareça essa cena. Eu esperando, aquele filme rodando na cabeça com segundos que contam toda sorte de cenas da vida, e aí meu cérebro se detém nisso, uma coisa tão menor e potentíssima, uma caminhonete suja no meio de um asfalto.


FRANCIELI BORGES manuseia as palavras por ofício e gosto | francielidborges@gmail.com

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