Subversa

Uma festa para Mário | Daguito Rodrigues (São Paulo, SP)


Mário voltou. Os amigos notam a pele descamada por uma década de ausência. Uma profundidade amarga. Ele está mergulhado em rostos que não via há anos. Amigos que deixou quando migrou para oceanos distantes. Pessoas que não viram o rapaz descer os rios do mundo nem enfrentar as correntezas da rotina. Enfrentou mesmo? Não. Foi um alevino, um filhote perdido durante dez anos em mares de mesmice. Levado pela força das águas. Os amigos não sabem, mas Mário foi a fundo na ideia de desaparecer. Não partiu com isso em mente, descobriu depois que não queria mais retornar. E se deixou arrastar pela rede que o manteve tanto tempo afastado.

Agora estão em festa. Ao menos eles, os outros. Mas não precisava ser no mesmo prédio do Nando. O habitat de uma outra vida. Não precisava. Ninguém se lembrou? Mário tem pressa. Olha para o relógio. O voo para Madrid sai amanhã cedo. Precisa voltar ao site de turismo. Precisa se recolher na imensidão, escondido entre milhares de organismos iguais a ele. Comuns. Camuflado em cardumes doentios que ondulam com a vontade das correntes. Nadar, jamais. As nadadeiras de Mário atrofiaram.

Mas ele acabou de chegar. Não faz nem dez minutos. Inundam Mário de perguntas. Pescadores de memórias. Querem saber o que ele viu, o que viveu como repórter lá fora, mas Mário tem pouco a revelar. Aeroportos, navios e balões. Hotéis, pousadas e albergues. Culinárias que recomendou sem nunca ter experimentado. Passeios imperdíveis que nunca fez. Lugares lamacentos que para os outros são lazer, para ele eram meros textos no computador. Mário submergiu na escuridão de águas geladas. Se sentiu sozinho no vazio de uma vida encharcada de derrotas. Flutuou com o peso de litros salgados sobre o corpo. Lágrimas que não eram só dele, mas daqueles amigos também.

Como esquecer a morte do Fernando? O Nando que também cresceu com eles. O irmão. Mário não podia. Só viajou àquele lugar para desdar o nó do último vínculo que mantinha na cidade praiana. A venda da casa da família recém-falecida. Sem o irmão e agora também sem os pais, Mário não tem motivos para ficar no litoral. A vida dele é bem longe, na Espanha. E em cada canto onde o site de turismo mandar.

Mentira. Os amigos sabem que Mário jamais deixou o passado para trás. Ainda está molhado pelo que houve. O lugar onde cresceu segue úmido na pele. Onde ensinou Nando a nadar. Onde namorou a Bia, que agora quer saber como um retiro de um mês pela Europa se transformou numa dezena de anos. Eles eram namorados. Mário poderia ter sido sincero quando se despediram no aeroporto. Um adeus em vez do até logo. Ela entende que ele estava de luto, mas esperava respeito. Já faz tanto tempo. Eles não sabem, mas não foi Mário que escolheu mudar para lá. Mário não escolhe. Vaga por instinto. Sabia apenas que o fluxo estava puxando para Madrid. E, agora, precisa regressar.

Só uma cerveja, pedem. Foram dez anos. Mas Mário não bebe mais. E a sala submerge no desconforto. Afogados no silêncio. Ele caminha no carpete pantanoso e procura pelo casaco. Bia entrega com um sorriso. É hora mesmo de ir embora. A ex pede que ele espere o táxi ali, Mário prefere aguardar lá embaixo. Fora do alcance dos espinhos venenosos. Ela diz que não há predadores, apenas amigos. Mas Mário está sempre alerta. Não quer ser a isca da noite. Não quer ser fisgado por uma frase boba. Não quer o banho de passado do qual fugiu por uma década. Ele sobreviveu ao trauma porque se afundou num lugar onde o oxigênio não cheirava a morte. Onde não precisava filtrar a água salgada para sobreviver. Longe da areia e do sal. Longe dos amigos, daquele prédio. Longe da espinha que ainda dói na garganta. O irmão gêmeo, bêbado e suicida, tragado pelas ondas. Nando.

Mário observa o aquário na entrada do apartamento. É de água doce. Mas ele sabe que a doçura está somente no nome, não no gosto. É insossa como tudo mais.

– Os peixes não dormem. Nem pálpebras tem. Só repousam em estado eterno de vigília.

E sai. Imerso em olheiras pesadas e negras, parte no táxi noturno. É levado para longe, pela última vez. Mário não volta mais.


DAGUITO RODRIGUES é escritor e roteirista. Acumula prêmios nos principais festivais de criação do mundo, como Cannes Lions, Prêmio Abril e Clube de Criação. Quer muito que você leia o primeiro romance dele, “Vozes na rua” (Kazuá, 2016). | Site: daguitorodrigues.com

 

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