Subversa

Verne | Bruno Macêdo Mendonça (Recife, PE)


Semana passada reencontrei Verne. Eu estava sentado na mesa que me é reservada, no café da livraria, quando o vi chegar. Tinha os mesmos olhos irrequietos de vinte anos atrás, aqueles glóbulos independentes, as pálpebras a piscar de modo frenético. Havia mesas livres, mas ele, trazendo consigo livros e um caderno preto, parecia incomodado. Olhava a senhora que gulosamente comia seu bolo de maçã com nozes sentada no que, pensei eu, era a “mesa dele”.

Tal atitude não destoava da personalidade do meu ex-colega de faculdade. Observei a cena, curioso. Sua insistência em permanecer ao lado da mulher, encarando-a como um alucinado, terminou por sortir efeito. Ela pediu a conta e saiu, não sem se virar algumas vezes, interrogando os garçons numa linguagem silenciosa.

Verne sentou-se, o rosto resplandecente de alegria, os olhos vivazes.

Lembrei desta mesma expressão quando ele, no corredor da universidade, deu aquele ressoante tapa nas costas do Lauro. Saiu de perto do mesmo jeitinho, rindo com os olhos descontrolados, o corpo curvo, o passo encolhido e rápido. Do que se pôde deduzir de seu espírito conturbado, o tapa era uma vingança, não se sabe bem de quê. Lauro olhou os arredores como a perguntar que diabos fora aquilo. Os colegas riram e passaram a chamar sua atenção: “cuidado com o Verne, Lauro; o Verne vai te pegar”.

Agora estava concentrado, lendo. Não perdia o foco, não fez pedido algum. Lia como se nada mais existisse ao redor, embora naquele horário o movimento fosse intenso. Era evidente, refleti, que se tratava de um hábito, quero dizer, estar ali, a ler livros sem dar atenção a nada, sentar-se no mesmo lugar, sequer se dirigir ao garçom. Imaginei que talvez tenham, em alguma ocasião, tentado lhe explicar que não podia ficar na mesa sem consumir. O que deve ter acontecido então?

Sem querer, sorri. Pobre Verne. Não lhe faltava inteligência, concluiu com êxito o curso jurídico. Mas juízo? Em que categoria se enquadrava sua loucura? Era assustado, nervoso, falava rápido e de modo truncado. Caminhava só, não tinha amigos. Vivia seu universo particular com intensidade tal que quase podíamos captar aquelas entidades abstratas – os pensamentos – a flutuar ao redor de sua cabeça. E seus olhos, bem, seus olhos tentando, sem êxito, observá-los.

Além de não ter amigos, não tinha namorada, claro que não. Seria preciso, primeiro, olhar para mulheres para depois ter algo com elas. Mas Verne não olhava. Sua vida era aquilo ali, com toda certeza: ir no sábado ao café da livraria, permanecer isolado no meio da multidão. Puxou seu caderno e pôs-se a escrever, apertando a língua entre os dentes. Da maneira como soltou o livro, tive a impressão de que aquele gesto em nada se relacionava à leitura. Iniciou a escrita como se fosse o Gênesis, uma explosão espontânea de criatividade. Acho que se lhe perguntassem, “esse livro é seu?”, não compreenderia.

Que vida, meu Deus! Ler, escrever, alhear-se do mundo assim, eliminar o contato com o outro. Seus óculos, óbvio, eram fundos de garrafa. Como poderia ser diferente? Quando se é estranho, é-se o caminho todo, e não pela metade. Os olhinhos ansiosos eram minúsculos no interior daquelas lentes, como se habitasse, além da carapaça vítrea, um assustado ser das profundezas oceânicas. E, no entanto… Não sei.

Se Verne não tivesse olhos, provavelmente esfregaria as mãos, satisfeito, tal qual uma mosca. É difícil de explicar estas ideias, por isso as coloco no papel – por isso comecei a escrever ali mesmo, na sua presença. Abri meu caderno preto e pensei: “não acredito, é o Verne!”. Usei o artigo definido, embora nunca tenha – ou tenha pouco – falado com ele. Sempre representou um mistério que eu não quis desvendar, por ser incômodo demais. A despeito do que eu pudesse pensar, talvez houvesse, de fato, satisfação no seu modo de ser. Sua imersão era, quem sabe, plena de riquezas que uma alma pequena é incapaz de sondar.

Na mesa ao lado, uma beldade tomava seu capuchino italiano, folheando revistas. Seus lábios rosados, sorvendo delicadamente a bebida quente, eram uma maravilha da natureza. Mas Verne, bem, Verne encontrava-se na galáxia ao lado. Não era isto uma benção? E quem perdia mais ao não estabelecer contato, ela ou ele? Ora, que absurdo, o contato era impossível: há universos que, como paralelas, nunca se encontram.

Pedi outro café. Minha mão deslizava rapidamente sobre o papel, os traços negros surgindo, mágicos, imbuídos da embriaguez da loucura. Que inveja de Verne! Foi o que escrevi, uma conclusão advinda de pensamentos obscuros, concatenados de modo misterioso. Tirei os óculos e os pus sobre a mesa. Veio-me uma vontade de chorar. O açúcar em saquinho projetou sua ampla imagem através das lentes. Esfreguei os olhos, que não paravam de se mover, querendo saltar das órbitas.

Um zumbido desordenado atacou-me os ouvidos, formava-se ao meu redor um tumulto. A bela garota me estendia os braços, pedindo socorro. Ele está passando mal, dizia. O garçom se aproximou, sorridente, e parecia acalmar a ela! Eles quiseram me oferecer algo, uma bebida, talvez água – não suportei. Peguei meu caderno preto, pus meus óculos e saí esbarrando nas cadeiras e naqueles que tentavam me consolar, como se pudessem me compreender. A última coisa que vi foi Verne, no espelho, atropelando espantos materializados que lhe bloqueavam o  caminho.


BRUNO MACÊDO MENDONÇA (Recife-PE, Brasil) | atualmente doutorando em Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, Portugal. Colunista da Revista Philos, onde assina com o pseudônimo Caio Lobo. Autor da coletânea de contos “Trôpegos visionários” e do romance “Liberdade”, lançamentos da Editora Kazuá. Premiado nos concursos SFX de Literatura e José Cândido de Carvalho, edições de 2016.

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