Subversa

Vi você vendo uma foto de Anna Akhmátova | Felipe G. A. Moreira [Metamodernismo]


Olga Kardovskaya “Retrato de Anna Akmátova” (1914)


A política do pensamento-lembrança precisa ser propagada. A política da burrice-esquecida precisa ser resistida. Tenho cá pra mim que o eu-lírico do Vi uma foto de Anna Akhmátova faz (implicitamente) uma defesa dessas duas teses. Queria tentar mostrar pro resto do mundo porque penso assim. Vi uma foto de Anna Akhmátova é um longo poema (de umas 80 páginas) do Fernando Monteiro. O poema foi publicado em 2009 pela Fundação de Cultura Cidade do Recife.

“Política” não é um termo que eu vou tentar definir. Nem sei se acredito numa definição não problemática de “política”. Mas isso não importa tanto aqui. O que importa é dizer que eu vou usar o termo “política” no sentido de uma prática que tem três características.

Primeiro, a prática é controversa porque ela implica uma disputa normativa. Isto é: uma disputa sobre se devemos aceitar a prática ou não.

Segundo, a prática faz uso de algum tipo de violência mesmo que sutil. Uma violência sutil é uma que não é tão explícita quanto uma violência não-sutil feito a violência corporal e nada sutil de se dar um soco na cara de alguém. Um exemplo de violência sutil é a de insinuar que seus oponentes (por exemplo, em disputas metafísicas) não são exatamente agentes racionais no que eles negam uma tese metafísica (por exemplo, “Deus não existe”) que você defende.

Terceiro, a prática tem ou, ao menos pretende ter, uma importância social para um grupo significativo de pessoas. Quero dizer: para além de um único indivíduo, uma única família, um único grupo de pessoas que se conhecem pessoalmente, etc. Por exemplo, a prática de se organizar e participar de uma passeata contra um golpe de estado tem esse tipo de importância social.

A política do pensamento-lembrança é uma prática dual.

Por um lado, ela é a prática de procurar saber, criar saber e lembrar de saber (não necessariamente nessa ordem), ao se confrontar com algum cuidado com uma bibliografia (um “passado coletivo” (p.11)) sobre qualquer assunto que seja. Por outro lado, essa prática resiste por meio de alguma violência sutil aos que não procuram, não criam e não lembram de saber; os que não se confrontam com alguma atenção com nenhuma bibliografia.

Minha interpretação é que o eu-lírico do Vi uma foto de Anna Akhmátova implicitamente defende que a política do pensamento-lembrança precisa ser propagada. Isso porque esse eu-lírico procede assim.

Ele vai a um sebo no Recife. Ele compra um livro de poemas chamado Pérolas da Poesia Russa. Nesse livro, ele vê uma foto de uma poeta russa, a Anna Akhmátova. Ele divaga sobre essa experiência. Ele conecta essa experiência individual com várias outras questões. Ele faz a violência sutil de sugerir que os que não se importam com essas questões são uns burros-esquecidos cujas vidas são inferiores.

Algumas das várias outras questões que o eu-lírico do poema do Monteiro aborda são as seguintes.

A relação psicológica entre um acontecimento intenso (isto é, esse de ver a foto de Anna), as emoções e a memória do eu-lírico (p.9, p.21., p.30-31, etc.). A vida da própria Anna Akhmátova que foi perseguida pelo regime de Stálin, foi obrigada a escrever “poemas de elogio a Stálin” (p.15), que teve seu filho mandado para a Gulag, etc. O terror do regime de Stálin (p.15, p.79, etc.). O terror do capitalismo contemporâneo (p.35-36). A violência de qualquer revolução (p.34). A história da poesia russa (p.23). A vida de Clarice Lispector (p.9). A história da poesia brasileira (p.18). O fato de que poetas brasileiros parecem ter sido muito mais coniventes com o poder do que os russos (p.17). A concepção de poesia de W.H. Auden (p.12). “O túnel negro de Méroe” (p.45). “Lilith antes de Eva” (p.50). “Joana Pecadora” (p.58). “Chalchiuitlicue (a deusa da Anágua de Jade)” (p.84), etc.

O eu-lírico do poema do Monteiro faz a violência sutil de sugerir que os que não se importam ou não tratam essas questões com o devido cuidado são uns burros-esquecidos que vivem uma vida inferior.

Assim.

Ele chama a plateia dos que buscam “utilidade para todas as coisas” e não encontra “nenhuma / para a poesia” de “plateia rasa” (p.13). Ele menciona uma “marmelada já enlatada / para consumo imediato da preguiça ancestral” (p.19). Ele diz que “ninguém vai ler os Cantos de Pound / se o personagem central da novela das sete / não estiver lendo o ancião desmazelado / numa gôndola da Veneza cenográfica / do Jardim platinado em que marcamos encontro” (p.21). Ele discorre sobre umas “pegadas de banhistas despreocupados, já retirados para seus /bangalôs / no limite das árvores protegidas pela cerca branca das praias / particulares” (p.48), etc.

A política da burrice-esquecida também é uma prática dual.

Por um lado, ela é a prática de não procurar saber, não criar saber e se esquecer de saber (não necessariamente nessa ordem), ao se discorrer sobre o que quer que seja sem antes se confrontar com algum cuidado com a bibliografia sobre o assunto em questão. Por outro lado, essa prática resiste por meio de alguma violência sutil aos que procuram, criam e/ou lembram de saber.

Por exemplo, os que adotam a política da burrice-esquecida constantemente fazem a violência sutil de insinuar que esses que procuram, criam ou lembram de saber são muito `chatos`, tem um pensamento muito `acadêmico`, fazem uma poesia muito `difícil`, fazem uma filosofia muito `cabeça`, são `arrogantes` ao chamarem a gente burra-esquecida de gente burra-esquecida, etc.

Na verdade, a gente burra-esquecida acha mesmo que a gente do pensamento-lembrança vive a vida inferior. Nisso, a gente burra-esquecida se autoriza a falar sobre o quer que seja (por exemplo, em vídeos de youtube, em posts de Facebook, em textos de jornal, em resenhas de literatura, mesmo em dissertações de mestrado ou doutorado, mesmo em livros de poesia, etc.) de modo pretensamente `não-chato`, `não-acadêmico`, `não-difícil`, `não-cabeça`, `não-arrogante`, etc.

Leio que o eu-lírico do Vi uma foto de Anna Akhmátova implicitamente defende que a política da burrice-esquecida precisa ser resistida. Isso também porque ele procede do modo que eu acabei de descrever. Mais: acho que esse eu-lírico pressupõe que a violência sutil que ele faz contra a gente burra-esquecida é justificável. A razão é que essa violência sutil é uma autodefesa da própria vida do pensamento-lembrança que o eu-lírico vive; vida essa que talvez nem seja possível exatamente escolher, mas para a qual se é `naturalmente` impelido; vida essa que também é constantemente ameaçada pelos burros-esquecidos que falam o tempo todo, publicam o tempo todo, organizam suas antologias de poesia de reconhecimento ou modernista fracassada o todo tempo, dominam os meios de comunicação e, por vezes, mesmo a universidade, fazendo `contato` o tempo todo, etc.

Em outras palavras: para um burro-esquecido, não é preciso dizer “ ‘se acalme’ ”, “ ‘não diga isso’ ”, “ ‘tenha cuidado’ ”, “ ‘meça as palavras’ ”, “ ‘não é diplomático’ ”, “ ‘as pessoas se magoam’ ”, “ ‘olhe à direita’ ”, “ ‘olhe à esquerda’ ” (p.19). O burro-esquecido é aquele que `naturalmente` já faz tudo isso, procurando satisfazer critérios que só um cordeiro em si satisfaz.

A política do pensamento-lembrança precisa ser propagada. A política da burrice-esquecida precisa ser resistida. Eu simpatizo com essas teses do eu-lírico do poema do Fernando Monteiro. Na verdade, espero mesmo que a poesia metamodernista também faça uma espécie de defesa implícita dessas teses, e que o mesmo possa ser dito sobre as colunas que eu tenho escrito aqui, inclusive essa coluna mesma.

Quero dizer que o eu-lírico do “Anna” disse que viu uma foto de Anna Akhmátova. Eu vi ele vendo uma foto de Anna Akhmátova. No sentido que eu tentei ler o que ele tinha a dizer com algum cuidado e, sendo assim, indicar que a política da burrice-esquecida precisa ser resistida. A esperança é que alguém também me veja vendo o eu-lírico do “Anna” vendo uma foto de Anna Akhmátova, e assim por diante. De modo que a política do pensamento-lembrança se propague.

De modo que eu também mostre resistência ao que é política da burrice-esquecida em mim mesmo. Porque também nem sempre a distinção entre as duas políticas que eu falei aqui é clara e distinta. Por vezes, o conflito entre essas políticas se dá num mesmo indivíduo. Isso porque é bem difícil determinar com precisão o que exatamente significa se confrontar com algum cuidado com uma bibliografia. Tem dias que eu acho que eu consigo fazer isso. Tem dias que eu acho que não consigo. Tem dias que eu acho que estou lendo os poemas comentados aqui com o devido cuidado. Tem dias que eu acho que eu não fui cuidadoso o bastante.

Talvez o eu-lírico do “Anna” também se sinta assim. O que talvez também não o impeça de achar, como eu, que talvez os maiores problemas da poesia brasileira contemporânea sejam a política da burrice-esquecida, e a dificuldade imensa de determinar como exatamente se deve lutar contra essa política.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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