Subversa

Zen | Fábio Amaro (Pelotas, RS)


Enlevo minha raiva às alturas
e lá dou-lhes banhos de chuva
até escorrerem felizes pelo meu corpo.

No horto das minhas profilaxias,
as ervas criaram raízes.

O que reserva o futuro são incógnitas
diretrizes que a gente pressente
no fundo dos ossos.

Não gosto de tremoços,
mas amendoins vêm bem.

Quem muito tem se perde nas contas,
não manja a malandragem de segurar
as pontas na unha,
de pegar leão no braço, de dar de bacana sem nenhum
no bolso,
de fazer a cuca siderar no espaço.

Não gosto de opacos,
e o bom brilho vem bem.

Cansei de perder meu tempo
lançando mensagens ao vento
sem o inventor do sinal de fumaça.

Decidi invadir as praças com sorrisos
atômicos,
ficar tão leve de leve até virar astronômico.

Desafiar o cômico com a seriedade
de um monge
que compreende o que está além da gargalhada
catártica
que deixa a cara de tonto arregaçada de íntimo.

Pater Noster, qui es in caelis,
Namastê, Ohm, e as lebres
que correm soltas de inverno.

Nem toda madeira é cedro, nem
todo epíteto é final.

A liberdade é não querer nada,
infinitocentesimal do ser que cresce
pra dentro.

O infernal é um invento de mentes
aflitas,
a dor grita, a alma geme,
e o chão treme quando um raio
desaba
e crava o arpão elétrico no chão
de trocentas léguas.

Uma trégua pra mente –
concentra, respira e pensa
a inteligência mais simples das coisas.

Escreve na lousa pra não desaprender:
o zigue-zague é a emoção de viver.


FÁBIO AMARO (da Silveira Duval) | nascido na fria noite de 28 de agosto de 1977, na cidade de Pelotas, é poeta, PhD em Relações Internacionais e professor na Universidade Federal de Pelotas. Publicou dois volumes de poesia, O Carrossel dos Desvarios Voláteis, em 1999, e O Terceiro Lado da Moeda, em 2017. | fasduval@terra.com.br

 

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