Subversa

A equação do rouxinol: a memória na construção de um nome de homem | Cláudia Capela Ferreira [Das Áspides de Cleópatra]]


Na velha casa
Entram os novos moradores
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais

Bertolt Brecht, trad. Paulo Quintela

           

Claude Monet. “Canoa sobre o Epte”. Acervo do Masp.


Na Memória dos Rouxinóis (Quetzal, 2018), de Filipa Martins, traz no título o tema primário dessa incursão pelas ruínas rememorativas familiares dos Rousinol, família galega desencantada com a ambiguidade da palavra. De facto, a família recorre ao pragmatismo matemático para cifrar a vida, desapossando-a dos empecilhos semânticos e do peso por eles instaurados na inferência do real. Sete, o sexto neto do avô Rousinol, que, aparentemente, “nasceu para ser número primo” (Martins 2018), apela de imediato à noção de inteireza e indivisibilidade, à seguríssima autonomia do indivíduo.

Em diálogo concreto com a perceção de inteireza, o narrador, Nino, biógrafo de Sete  (Jorge Rousinol), conta, a dois tempos, instaurando um exercício metaliterário, as implicações da teoria dos matemáticos da família Rousinol na sua própria vida. É caso para afirmar a perigosidade tanto da ficção como do tecido histórico na mão de quem segura a esferográfica. A memória, que não por acaso surge aqui associada à malfadada ave literária, no que ela tem de irresistível no ato de ca(o)ntar, sempre esteve em correlação com a literatura e a arte de uma forma generalizada enquanto princípio aglutinador da experiência humana. É a este princípio que o avô Rousinol aparentemente resiste, contrariando o próprio nome, cuja dádiva depende de um antropófago novelo de negação de isenção e novidade, exercício facínora, pois a nomeação das crianças, ou, mais precisamente, dos varões da família, depende inteiramente dessa pesada herança. Nesse processo de repetição, tão natural como alguns números, a busca para dentro, de formas de garantia de individualidade, mesmo que o projeto se decomponha sáfaro, é apetecível. Nesse sentido, a leitura das personagens faz-se um pouco mais funda do que o paradigma esquecimento-memória, funcionando aqui mais do que uma mediação da necessidade de ambas e possível crítica aos contemporâneos e voluntários processos de adormecimento de funções cerebrais, como tão claramente se pode ler na inclusão da passagem do instituto de investigação que submete as cobaias a intervenções alegadamente superficiais com o intuito de as fazer esquecer aquilo que reiteradamente as magoa ou incomoda. É, indubitavelmente, uma bela pergunta do campo intrincado da ética: podemos artificialmente esquecer? Este passe recorda-nos as questões afloradas em Eternal Sunshine of the Spotless Mind, de Michel Gondry; a angústia da perda e a melancolia do desgaste. Por outro lado: devemos esquecer a mágoa? Que processo de esvaziamento humano decorre dessa facilitação de pensamento? Trata-se, portanto, de um cartesiano aquiescer do esquecimento, da possibilidade da derrota do pai, de um disfarçado complexo edipiano, que Jorge Rousinol procura também, afinal, resolver nos braços de uma mulher-alga, bravia como Esmeralda, a mulher por quem o pai, matemático que acredita ter posto em causa a vitória nazi, se apaixona. O interessante é que a par de Édipo literário, não o psicanalítico, Jorge Rousinol desconhece a mãe, e, embora se saiba filho do matemático, pouco priva com o mesmo. O que dele se salienta é a repressão efetiva da figura tutelar de Pai, de uma masculinidade, diria, regularizada por um princípio de ligeireza ambivalentemente castradora, que só refreia na confissão e arrependimento; em último caso, na irrefutável visitação das memórias, na biografia. A identidade é uma biografia mais ou menos autorizada. Em última análise, Jorge, que nasce para ser número primo, é o homem que nasce sob a irreprimível devolução de uma imagem, um reflexo narcisista (“O avô viu-se refletido nos olhos do neto e, talvez pelo seu narcisismo, concedeu que seis era pouco para a importância absoluta daquele recém-nascido” (Martins 2018)). Ora, o avô nomeia nomeando-se, numa esfera contínua submetida à famélica Ouroboros. Sub-repticiamente, abre-se a leitura a uma perceção da masculinidade sob um ponto de vista identitário e sociológico. De forma privada, o indivíduo procura um nome, resistindo ao que lhe é dado, invejando o dos demais: (“Era evidente que Camilo, o primo que subsistia com nome próprio, teria de ser atraído para o seu território” Martins 2018)). Coletivamente, é ensinado a metastizar a sua natureza, ainda que averiguando a sua independência. Há, pois, uma dissolução identitária que Sete procura colmatar à pedrada, anulando-se e anulando os demais, manietando a memória, da mesma forma que o pai, negando-o pelo que considera um erro de cálculo, o rejeita.

À mulher, Filipa Martins há de doar o princípio do reencontro, na figura de uma prostituta ou de mãe de santo; fica ao cuidado de quem lê: Maripá, quem nem é nome de mulher, e esquece,  reporta-nos em discurso direto: “Sabe que ainda consigo absolver um homem” (Martins 2018). Mas a verdade é que a absolvição é campo minado e circunscrito ao nosso íntimo, e, embora dependa do perdão dos demais, a absolvição há de preludiar na confissão, princípio inequívoco de reconhecimento, identificação e, eventualmente, arrependimento. Por outro lado, a mulher não parece presa a um nome, o que abre a paleta e a desobriga da restrição. Se a inexistência de um nome e do peso que este acarreta a poderia anular ou submeter a um a exercício de pertença e domínio, pode, sobretudo, fazer ressignificar, ofertando a garantia de libertação do princípio exaustivo de um nome só, no que de limitativo implicaria. Nós não temos só um nome.

Nino, biógrafo e, a cada passo, biografado, explana, além da teoria estéril de Jorge Rousinol, a militarização dos eus do indivíduo apaixonado. Discorda da perda de memória e responde com o excesso de lembrança, inconsciente do decalque do artifício em movimento contrário. A queda é, porém, similar. Do amor ao dislate do mesmo, Nino deambula entre a sobrevivência do indivíduo, da sua personalidade, e a manutenção do casamento, enquanto dispersão da identidade individual. O equilíbrio é, afinal, o que parece cercear os passos de todos: uns mais desmemoriados, outros em vias de desmemoriamento involuntário, outros, propositado, e outros, ainda, imersos na feroz precisão fotográfica do passado, inclusivamente tridimensional, volumétrica. Como a madeleine de Marcel. Um perfume, um odor, a memória táctil e motora, a que a mulher-alga faz menção, imbuídos de significação primária. Nino, não fosse escritor, apega-se à memória como base de sistematização de si, de Camilo, o marido e primo de Jorge, corroendo a lembrança de que é impossível livrar-se. A identidade, a relação entre o eu-outro, como a memória e o esquecimento, é um precário passe de equilibrismo que custa a vida.

Assim, a relação amorosa é pretexto para questionar a difícil harmonização do eu e do tu, a imagem mais ou menos narcísica refletida no espelho e os compromissos daninhos do casamento. A memória e o esquecimento corretivo, tantas vezes perorado por Jorge Rousinol, encontram-se aqui refletidos na incapacidade de comunhão e consequente desequilíbrio de Nino; se o pai de Jorge esquece e anula, Nino não esquece e acaba por anular também. Como no xadrez, procura reidentificar-se, antecipando os movimentos de Camilo, embora este o surpreenda uma última vez. Redenção, nestas memórias do Sete, só mesmo a de Jorge, ainda que egoísta, que contraria a inelutável certeza, a precisão da verdade única.

O processo lógico do exato não é paradigma da prosperidade do indivíduo. Este princípio, bem como as contradições e a indecidibilidade, são marcas pós-modernistas legíveis no texto de Filipa Martins. Mas não a limitemos já. A sua escrita é segura e capacita-se à medida que se avança sobre a palavra, escusando-se, depois, às excessivas referências intertextuais. A palavra, aqui questionada como método efetivo de linguagem, liberta-se do jugo da dissolução, e vai nomeando; nomeando com mestria, elegantemente no trato ágil do vocabulário, cativando-nos, embora o texto, ele próprio, se fatigue dos excedentes do abstratizante, e não perdesse nada com metáforas mais escorreitas. Há, porém, a sublinhar, além da exímia agilidade vocabular, em termos conteudísticos, a relação homossexual, no cunho sociopolítico inferido, as belas e lúbricas descrições melancólicas do amor entre Nino e Camilo, esse bem recordado na consciência da perda, a aparente anulação da figura feminina, submetida a um contrato social (atenda-se ao tempo histórico), mas rebelde num plano mitificado, dependente do eterno feminino personificado em Maripá, a mulher-alga, embora Silvana, na sua categorização de andrógina o contrarie, e, ainda, como foi já abordado, a pertinência do peso do nome de homem.

As contradições, terreno em que Filipa Martins se move tão elegantemente, delimitam esse carácter vacilante da memória, até porque, afinal, a ambiguidade pode ser um lugar de relativa segurança.


Referência: Martins, Filipa (2018): Na Memória dos Rouxinóis. Lisboa: Quetzal Editores. (edição digital)


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

 

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