Subversa

A Febre das Almas Sensíveis ou a dissolução identitária | Cláudia Capela Ferreira [Das Áspides de Cleópatra]


Foto: acervo da revista


A melancolia febril cicia das bocas de todas as almas sensíveis resgatadas neste romance de Isabel Rio Novo (A Febre das Almas Sensíveis, D. Quixote, 2017). Imergimos nesse prado de flores amarelas, tão machadianas como ultrarromânticas, para nos sabermos a sós com narrativas esboroadas, sobrantes de um estado de alma acolhido no século XIX e, é provável, comodamente remanescente até meados do século seguinte. É o romantismo, é essa febre de amar, de querer, de, a todo custo, narrar o “desejo absurdo de sofrer”, como tão bem ilustrou Cesário Verde. Não se trata, porém, de um hino declarado ao pendor romântico, ainda que dele não se subtraia, mas, antes, da consideração de um tempo irremediavelmente frustrador da vida dos transeuntes dela, assolados pelas limitações socioeconómicas do Portugal da primeira metade do século XX, referente ainda ao espectro ditatorial e, por conseguinte, ao atraso civilizacional. Acompanhamos uma família, os apegos e desapegos, as dissoluções e obrigações morais, no declinar da epidemia tísica e do que de efeito literário e ético dela resultou, quer por parte do indivíduo comum, quer por parte dos escritores românticos relembrados com tanta mestria nesta obra.

Uma rapariga, que bem poderia ser um alter-ego da autora, recolhendo o lastro dessa palavra dissolvida pelo tempo, no eco das paredes desnudadas dos edifícios devolutos, acicatada pela pretensão de ensaiar a idealização romântica da tuberculose, por oposição à vertente realista da doença, revolve documentos, confissões, relê as impressões de um afetado, na sua comiseração, e organiza os cicios, como quem escuta as almas sensíveis, penantes e desguaridas. De certa forma e, ambiguamente, oferece-lhes um porto, que é, enfim, como quem diz: registe-se. Esta incursão metaliterária resulta num efeito interessante, estruturando o romance em torno das diversas impressões de foro poetizado (o legado que lhes restava perante tão impossibilitadora desgraça) dos nossos tísicos literários, cuja resolução da vida, farmacologicamente impossibilitada, se voltou inteira para a pena.

Desengane-se, porém, quem cuidar que o romance se desvia de um pretexto ultrarromântico, na consideração da medida exata da abordagem científica. Embora declare abertamente a ferocíssima realidade, o facto é que se depreende, desde cedo, nas descrições do narrador, essa proeminência melancólica, resultando não raras vezes em efeitos de pendor assaz ultrarromântico, especialmente no tratamento do amor e na caraterização das personagens femininas e, a largos passos, também masculinas, fazendo jus ao que os literatos nunca suplantaram. É que a vida, afinal, e como bem diz a autora, é uma tragédia, e “as tragédias são sempre individuais. Cada uma é o mundo inteiro a sós” (2017: 8). Não se estranha, portanto, que, mais ou menos ironicamente, o narrador se deixe subjugar. Armando, Eduardo, Natália e Carolina não destoam desta noção inteira do trágico, ensaiando como podem a vida, na ambivalência da promessa da morte. A morte, auscultando-os, inviabiliza a inteireza individual, e nesse sentido, o distanciamento do tísico estabelece-se em igual proporção quer dos outros, no exílio operado no afastamento e clausura no sanatório, quer de si mesmo, viabilizando como que uma outra voz: a do ele, a voz de um passado referente ao indivíduo jovem, impetuoso, por contraste com a do eu, dissolução ainda em vida de todas essas categorias e, ainda, do que quer que reste de si no mundo, como uma, afinal assentida, usurpação pelos demais.

A tísica, a doença, não imerge o indivíduo em si mesmo, dissolve-o a cada convulsão, da mesma forma que dissolve os outros, cerceando-lhes os atos. Todos os efeitos decorrentes dessa febre são trágicos e imanentemente propiciadores da melancolia, desse estado de pertença a um sonho rasurado no passado por ineficácia da realidade. Neste sentido, compreende-se o tratamento dado pela autora ao narrador, na tentativa de explicitar precisamente esse desfiguramento do eu, o desdobramento num ele, num cadáver de uma morte já operada em vida, fazendo definhar o carácter e o físico, as relações íntimas e sociais. Ser doente, então, era ser outro, e ser distante, um exilado de si mesmo. Assim se pode compreender o efeito do desdobramento do narrador num ele e num eu, numa narração essencialmente omnisciente, e, desse modo, questionável, que, contudo, dissimula e pretende desordenar quanto à entidade narradora.

Todos os pressupostos românticos marcam presença neste lugar das almas sensíveis; seja o desvario, o soturno, a morte, a melancolia, o herói romântico e a mulher anjo, linda mas deformada, resultando, aquando da consolidação dos amores, num quadro assaz patético, a recordar o noivado do sepulcro, como expressão evidente do irresolúvel regresso ao eu são e sensual. Nesta toada, a melancolia não serve o propósito de romantizar a doença, mas de fazer avalizar as consequências dela.

Quanto às vozes, que se prometem dispersas, podiam sê-lo ambiciosamente, se o diário de Eduardo e as cartas de Gilberto açulassem o texto; assim, sendo diminuída, a presença mínima rouba-lhe, infelizmente, expressão que seria enriquecedora. De resto, o texto é fluído e despojado de excedentes, seguindo um fio condutor cronológico que se prevê falaz, dada a inscrição da memória e da suplantação do verosímil afeto ao discurso do plausível pela mão de um exilado. E é precisamente nesta aparente singeleza que a singularidade de Isabel Rio Novo reside, fazendo do visível o indiscernível e do fácil o complexo, urdindo sem monotonia os cordéis do romance. A frase respira, celebra a beleza da melodia, e o pendor lírico é assinalável, especialmente quando imersa na primeira pessoa, resgatando um pendor mais intimista.


Rio Novo, Isabel (2017): A Febre das Almas Sensíveis. Lisboa: D. Quixote.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

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