Subversa

A galope das horas calvas | Um Lírio sobre os Olhos


As paredes da nossa casa
erguem-se à margem da queda.

Quando todas as horas forem calvas,
só a ausência dardejará
na distância onde os olhos
desaprendem o desejo.

Que são os dias,
se não vagas duma só maré?
As horas de pétala e espinho,
se não fantasia de coração
afogado em sonhos?

A saudade é um pessegueiro
no peito plantado:
frágil a folhagem, doce o fruto
– mas o néctar não supera
a lisura derramada do pomo
pelo instante espremido.

No íntimo sabemos
que todas as flores, um dia,
foram gérmen expelido
em agonia moribunda.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Rosa Baía 15 de novembro de 2017 em 22:35

    Poema que toca delicadamente a minha alma… E uma tristeza reflexiva, essencial para meu despertar e crescimento, invade meu coração.
    Lindo!!!!
    Parabéns, grande poeta!
    Grata.
    Beijos!

    • Pedro BC 16 de novembro de 2017 em 21:51

      Tristezas, alegrias, lágrimas, sorrisos… todos são breves viajantes que passam pela imensidão do ser – nuvens, mais ou menos coloridas, passando pela eternidade dum céu azul. Mas, enquanto a canção acontece, que dela se desfrute: sem negação, sem revolta, sem apego.
      Fico grato por saber o efeito deste poema num dos seus leitores, mesmo sabendo que estes versos não tardarão a ser poeira ao vento.
      Beijos e obrigado. Até breve.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367