Subversa

A Lição do Silêncio | Pedro Belo Clara [Um Lírio sobre os Olhos]


Pedro Belo Clara

Fotografia do acervo da revista.


Ah, a melancolia dum dia de folhas caídas. Como pode ser tão doce a fácil amargura da queda? A solidão da maçã roída, deixada ao vento num oxidado gesto de abandono, brilha como estrela que elegeu a terra por poiso final.

Mas estas horas amanheceram frias, implacáveis no inevitável destino que teciam com paciência de pedra – enquanto o vento, despindo-se de quenturas, aos longes guiava o derradeiro suspiro das flores.

Sempre a aguda surpresa daquele súbito golpe de punhal desferido à traição. Talvez sob o branco da hora latejasse a ânsia duma antiquíssima espera que nenhum amante nomeou.

Com o tombar do orvalho dos dias, a que terna rosa segredaríamos doces sonhos de cristal? Fundo sentíamos uma inquietação de pássaro triste, um rumor surdo de asas agitadas. Dormitávamos ainda à sombra dum sol imenso, ignorando que o voo começa na profunda quietude de olhar.

Então, chegou. Como as papoilas enrubescidas, como os cardos que orlavam as estradas, como a branca flor que prometia a frescura do sumo: a urgência de ir diluindo-se no êxtase de ficar.

Não mais a longa lâmina trespassaria o peito latejante. Aqui reside o mistério de nós, o mistério de tudo: a árvore mudando a folhagem sem alterar o gosto aos frutos.

Com a serena alegria das coisas mudas aprendeu o coração a ser ave.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Ligia Soares Skrebsky 12 de junho de 2018 em 19:30

    Se o pensamento é silencioso, é bem verdade que tudo nasce do silêncio, da quietude. O pássaro, a ave, é um grande inspirador da alma do poeta… linda crônica.

  2. Pedro BC 14 de junho de 2018 em 19:45

    Cara amiga, muito obrigado pela sua visita e pelo comentário que me deixou. Até breve! Beijos.

  3. Raul Manuel Freitas Araujo Rocha 18 de junho de 2018 em 18:21

    Meu amigo, a sua Poesia ( assim é…), deixa-me sempre a sensação de um rumorejar de folhas ou ou do fruto mduro e suculento…Pode mudar a folhagem ( mistério eterno da vida…), mas que se conserve, inalterável, o sabor,,,,A sua linguagem e forma mudam, mas não se esvai a subtileza do húmus…Um beijo, Poeta!!

    • Pedro BC 19 de junho de 2018 em 16:42

      O nome escrito antes do comentário indica-me que o dito foi feito pelo Raul Rocha; porém, ao lê-lo, fiquei com a suspeita de que se trata, afinal, da minha amiga Conceição Lima. Houve de facto algum erro ou estarei equivocado? Seja como for, agradeço a leitura e a amabilidade das palavras.
      Abraços.

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