Subversa

A lógica é boa, mas o real é fod do, ou uma leitura afásica de Autismo | Cláudia Capela Ferreira [Das Áspides de Cleópatra]


Cláudia Capela Ferreira

Fotografia do acervo da revista.


Em Autismo (Abysmo, 2012), Valério Romão preludia para manipular. A história tem início em contramão, que é como, o mais das vezes, a vida se dá. Mas, ainda antes da palavra, as ilustrações, primorosas, de Alex Gozblau, oferecem-se como ponto de partida para o universo de Autismo. O infantil carrinho vermelho ao contrário, na capa, constata a escarninha imprevisibilidade da vida, a sua anarquia indiferente aos nossos mais requintados tiques racionais de controladores de laboratório, refinada depois esta sensação de impotência e dissolução ao voltar as páginas e passar, em bicos de pés, entre os despojos infantis, após a explosão: um peluche desmembrado, uma bola esvaziando-se, um triciclo empenado, uma máscara cujo elástico distendeu. Títeres que somos, portanto, dessa vaguidão de circunstâncias.

São vozes distintas as responsáveis pela narração: a primeira voz, de Abílio, avô de Henrique, a criança autista, é a de um impotente misantropo, personagem bastante apetecível que, lucidamente, lê a irrazoabilidade da vida quotidiana, deprovida de sentido ritual profundo, criticando a corrupção e o consumismo alarves, ambos desafeiçoados da possibilidade de restauração de uma certa decência e ética. É pela sua voz que a pertinaz pergunta toma forma: “[Ess]a linguagem do amor ainda existe?” (Romão 2017: 17), referindo-se à sua desvirtuação e à mecanicidade dos desígnios corporais do mesmo. Esta voz é mais uma do coro de desiludidos ou impotentes do romance, se quisermos fazer uso da expressiva metáfora da ineficácia do avô Abílio que de imediato nos tolhe, a que se junta ainda a mãe de Henrique, Marta, cujas frases entrecortadas, coatadas pela impotência, são repetitivas na sua desoladora efemeridade de palavra que, intransigente, não funda. Esta voz, que não se sabe bem de onde vem nem para onde se dirige, ilustra a cantilena da figura materna em redor de Henrique, e percorre um acidentado percurso até desembocar na agrestia de uma quase loucura vivenciada na perceção da solidão e da lucidez em que se quer no acompanhamento do filho, até ao desatino perscrutador de uma lima. A voz de Marta imprime, então, singularmente, uma certa evasão, como se ali estivesse sem figurar entre as demais, planando, o que implica a sujeição da palavra ao medo de a nomear (“Nomear é chamar uma coisa à realidade, e esta, depois de convidada a instalar-se, bebe os melhores vinhos que temos” (Romão 2017: 112), esse lugar impreciso que a comunicação, retratada na sua dificuldade máxima no romance, augura. Este esbatimento da palavra, por mútuo acordo, (“uma desgraça menor podia salvá-los do desastre absoluto de terem de falar” (Romão 2017: 116)) arremessa Marta e Rogério, enquanto casal, para o espaço do inefável e esgota-lhes mais celeremente, pelo problema que se lhes coloca e exige nomeação para posterior saneamento, a relação. A gestão das expetativas é presentinho insalubre e cada um o ajeitará à sua maneira.

A terceira voz a juntar-se-lhes abre o leque de narradores, disperso, depois, nas vozes dos mais diversos intervenientes; trata-se, em modo direto ou discurso indireto livre, de mais discursos  falhos, seja por parte da educadora, seja pelos diversos charlatães, confundindo os pais e enovelando a criança, e ainda uma consulta e uma carta. Não deixa, porém, este narrador, de ser inusitado: tanto é exterior à história, como, aborrecido, cerceia e emudece para dar lugar às personagens, mais precisamente ao avô e à sua perspetiva, pelo que talvez fosse suprimível, substituível pelas anteriores, ou, preferivelmente, anulado, como em alguns diálogos em que ganhamos fôlego na sua ausência, até que depois regressa, assarapantado, à função de descritor dos curtos movimentos que invadem o texto, agindo como uma didascália, na verdade. Teremos um pai infiltrado, destro na manha, ou suprime-se assim as irresistíveis afasias das narrativas em primeira pessoa?

Todas estas vozes cumprem a função exímia de adiamento da ação principal, narrada sob os declinares do título Urgê cias,  palavra a que também falta uma letra, omissão precisa e reificada do profundo mutismo desta família em torno da doença do menino, acrescentando outros discursos, os estilhaços e os fragmentos resultantes das violências familiares, e formando uma espiral que, ao invés de nascer do centro para fora, se precipita nessa vertigem. É que há um mistério, uma ocultação, seja por via da incomunicabilidade dos pais, todos eles, seja por via da desumana indiferença por parte da burocracia institucional; o que aconteceu a Henrique? A criança terá sido atropleada à porta da escola. E agora? O próprio autismo é metaforizado nesta interrogação. Houve um acidente. E agora? A afasia da família, das entidades competentes (?), seja médicas, seja educativas, degenera em logomania e não há equilíbrio possível. Há mudez, tolhimento, incompreensão, medo de nomear o mal e dar-lhe forma, ou excesso, recriminação, conflito. Podíamos, ao romance, chamar-lhe, ironicamente, a arte da conversação ou, a sermos justos, a lógica é boa, mas o real é fod do. Assim sendo, à medida que o tempo avança, nas urgê cias, as vozes distendem-se, fala cada qual para seu lado, e os textos imiscuídos entre a narração da ação principal compõem as personagens, agora chamadas à boca de cena, onde o desenrolar se torna gradualmente caricato, avizinhando-se daquilo que Rogério, o pai da criança, mais teme, o ilógico, logo ele que tem sempre todas as variáveis controladas. A voz do pai apresenta-se em discurso direto em forma de entradas de um blogue, no “espaço em branco” (Romão 2017: 235) que é tudo o que lhe resta até à aceitação tornada desistência, abnegação, “eu descia as escadas a pensar que é tudo verdade. Que é tudo verdade” (Romão 2017: 321).

A noção de eu e outro, de normal e diferente são binómios fundamentais na leitura do romance. Não sendo metáfora, o autismo constitui, porém, profunda possibilidade de reflexão sobre tais premissas, no que dessa imposição resulta enquanto isolamento, de fuga para dentro e posterior tentativa de normalização, como dolorosa antítese da aceitação e adaptação ao real. O outro, no fundo, também o nosso mais interior, constitui mistério sagrado, é-nos preferível ir sobrepondo lentes, inviabilizando a descoberta, pelo que resta esta nebulosa cegueira entre  o eu e o outro, entre a palavra e aquilo que ela poderia designar.

As relações familiares não são inabituais no universo ficcional do autor; Autismo é parte da trilogia  Paternidades falhadas e os contos publicados na Granta Portugal, que em boa hora dá lugar à edição Granta em Língua Portuguesa, com publicação simultânea em Portugal e no Brasil (o primeiro número sob o título Fronteiras), refletem-no com clareza. A família é fruto acre e ótimo assunto literário pela substância e contradição do amor que rapidamente transparece nas ações mais perversas.

A Valério Romão devemos o elogio da forma limpa, ainda que não límpida; mas isso é o que os grandes ficcionistas fazem, desvirtuam e confundem. Baralham para tornar a dar. A habilidade na construção dos diálogos é assinalável, pois neles se lêem as personagens sem necessidade da interferência abusiva do narrador heterodiegético, que é coisa que estorva quando a persona se basta.

A falha na comunicação empírica da família distende-se e galga gerações, conturbando as relações e  retalhando-lhes a possibilidade de algum tipo de redenção. É ela, afinal, essa impotência da fala, a debilidade da palavra (e o que mais choca Rogério naquilo a que convenciona chamar problema – como se fosse passível de uma resolução que tarda – do filho é o seu silêncio) que prostra os títeres dessa tragédia costurada nos entremeios do verbo, mal dito, mal escrito, desarticulado e reticente, logos omisso; e a verdade é que “a gente já sabe onde isto vai dar” (Romão 2017: 330). Por outro lado, não é equívoco afirmar que as meias-palavras nos libertam do peso do compromisso, podemos sempre desculpabilizar-nos com um lapsus linguae, ou com um lapsus calami, e deixar que outros decidam por nós: a palavra, bem vista de todos os ângulos, e com manha suficiente, serve qualquer intenção. E é por esta razão que o final de Autismo nos deixa este fabuloso amargo de boca e de coração, próprio das grandes tragédias: a de um pedido atendido, mas de um resultado enviesado. É que nós nunca nos entendemos quanto ao nosso problema, nem à nomeação dele, e nem sempre sabemos onde queremos chegar, mesmo se ataviados no rigorzinho da lógica. E é assim que nascem os mais profundos segredos.


Romão, Valério (2017): Autismo. Lisboa: Abysmo.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

 

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