Subversa

A mancha sombria | Carlos Barth (Macaé, RJ)


Levou mais de um mês para a mancha escura entre as pedras do calçamento sumir. Essa demora foi devida, em grande parte, ao clima seco do inverno fluminense no ano de 2018. Espreitei ansioso a previsão do tempo por aqueles dias na esperança de que os céus mandassem uma chuva que lavasse aquele borrão preto no chão  – é estranho como o sangue fica enegrecido quando seco – e levasse consigo a imagem do rapaz coberto por uma lona.

Foi num sábado de céu azul, quando voltava para casa, que deparei com o policial no meio da rua desviando o trânsito do corpo sem vida estirado próximo ao meio-fio. Mais ou menos do ponto onde suponho que era sua cabeça escorria um filete de sangue que descia morro abaixo ajudado pela força da gravidade, tingindo as pedras, brita e terra de vermelho escuro. De seu corpo coberto só era possível avistar os pés.  Calçava sandálias e usava uma tornozeleira com as cores da Jamaica.

Talvez em uma cidade grande como o Rio ou São Paulo um morto a mais ou a menos não seria nem notado, podendo mesmo passar despercebido. Mas aqui no interior, felizmente, isso ainda não virou rotina e as pessoas mantém um resquício de humanidade. Talvez por isso a notícia tenha corrido rápido e chamado a atenção da vizinhança. Curiosos, entre eles muitas crianças, vinham para ver o corpo. Fui para minha casa, que é próxima, sentindo um certo mal estar. Cerca de três horas haviam se passado e da janela de minha sala comecei a perceber urubus voando em círculos no céu acima do local onde havia ocorrido o crime. O corpo ainda estava lá e as aves de rapina planavam no alto esperançosos de que os humanos talvez lhes deixassem aquele banquete.

Os dias passaram e correu a notícia de que o assassinato ocorrera devido a uma dívida não paga com o tráfico. Para os homens de bem – cidadãos de classe média pagadores de impostos e tementes a Deus – o crime em si, embora lamentável, estava justificado. Bandido bom é bandido morto, dizem eles. Felizmente não me enquadro no perfil dessa gente “de bem”. Humanista que sou, acredito que toda vida humana é sagrada. Durante os dias seguintes, sempre que passava por aquele local, meu olhar inevitavelmente era atraído pela pústula de sangue no chão. A lembrança de que um ser humano havia sido executado alí me perturbava. Aquela negra nódoa lá estava para me lembrar que violência e morte são assuntos mais próximos do que gostaríamos. São realidades inconvenientes a nos lembrar nossa humana condição.

Passavam-se as semanas e ela lá permanecia, teimosa, embora um pouco menos nítida agora. Já se tornara imperceptível para a maioria dos passantes, mas para mim era o suficiente para lembrar que aquele borrão era a testemunha de um homicídio. Felizmente na segunda quinzena de Julho os ventos alísios trouxeram a tão aguardada frente fria e a chuva caiu, forte, dissolvendo a mancha, purificando a terra, aplacando a sede das plantas, levando consigo a lembrança do rapaz assassinado.


CARLOS BARTH | nasceu em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, em 1979. É engenheiro de profissão e escreve nas horas de folga. Teve trabalhos publicados nas revistas Philos, Subversa, Subjetiva e LiteraLivre. | carloshenriquebarth@yahoo.com.br

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