Subversa

A memória é um círculo: Leitura de “As Falsas Memórias de Manoel Luz” | Cláudia Capela Ferreira


Fotografia: acervo da revista


A filiação é um exercício pertinaz de duvidosa crença. Pelo menos em As Falsas Memórias de Manoel Luz, de Marlene Ferraz, publicado em 2017 pela Minotauro. Apostada em questionar a rigidez do semblante historiográfico da biografia, bem como a autoridade convencional do aparente e do cronológico, a narrativa adensa-se, pondo as identidades em causa. De facto, o círculo do eterno retorno parece ser responso fundamental, situando as personagens e as situações em múltiplas myse en abyme, ajeitando, para isso, as palavras, como fórmulas repetitivas, a fim de  gerar esse compromisso.

As falsas memórias são, talvez, vidas paralelas, desconhecidas, implicadas, porém, nas teias da narrativa tida como a oficial. Incapaz de ver o real inteiro e resplandecente, Manoel Luz deixa-se à mercê das demais, incapaz assim, de dar sentido à sua vida sem a proeminência das mesmas. Trata-se, pois, do ângulo nulo, ou, a crer no fazedor de biografias, Hélio, citando o médico dos males da vista, do Punctum Caecum, o ponto cego intransponível. A narrativa é, aparentemente, simples: Manoel Luz cresce obcecado pelo ato sacrificial entomológico, a taxidermia de borboletas, no que de metódico podemos observar nesse exercício de confinamento e perpetuação de cadáveres – um símbolo de poder, a par do simbolizado pela personagem do editor/censor, Rodolfo Prudente – transigindo em direção ao objeto de desejo daquelas, as flores, personificado por José Luz. A narrativa toma início na segunda metade do século XX, sob o espectro ditatorial, e avança, soterrando imprecisões ou engendrando-se delas. A personagem principal, Manoel, só se torna ela mesma quando, na segunda parte, é capaz de lidar com a referência sombria figurada na personagem do editor, que pode funcionar aqui como uma espécie de visitação psicanalista do passado, enaltecendo a possibilidade de futuro. Dessa forma, os ritos de autoconhecimento repetem-se, assim como os decalques fabulares de situações similares e de modelos de mulheres em vertentes várias, amada, esposa, amante, mãe, filha, sempre em desatino – atavio freudiano? – sendo-lhes negada, porém, presença fixa e regular, seja pela loucura, ou por uma outra espécie de anulação, seja pela morte. Elas, aqui, estão em passagem. De certa forma, a narrativa acaba por fazer espelhar, de alguma forma, o intuito castrador da ditadura sobre ventres alheios.

A poesia é uma referência constante, quer pela citação, quer pela incursão autónoma, ainda que as expressões formulaicas, em anelos líricos, repetidas, se tornem desgastantes ao longo do livro, dada a sua extensão, atendendo especialmente à morosidade da primeira parte, que não se priva de laivos ingénuos, até no decorrer da segunda, embora esta seja cimentada por uma mais desenvolta sucessão de revelações, as quais sustentam a hipótese de revalidação de memórias e identificação. Assim sendo, talvez a primeira parte se ensaie ainda dentro das limitações (também) póstumas do regime, no que de fidelização total o respeito pela arte de ser português significou para as gerações submetidas ao mesmo; a identidade nacional não é coisa vã. O homem-poeta e a recordação/ figuração da realidade pascoaesianos atravessam o texto, tentando provar a tese de que o indivíduo oscila entre o ser e o existir, entre o que é e o que dá a ver, entre o que vê e os que os outros veem. E ocultam. Nesse sentido, talvez não seja descabido ler na saudade da figura paterna e na obnubilação da figura da mulher, especialmente no lugar da mãe, o carácter transcendente de procura, aqui perpassado por um, incauto, cariz associado à poesia e às flores. A compreensão do mundo. De facto, o sofrimento moderno que Manoel não verbaliza é inteiramente observável na figura de Hélio, o inventor de biografias e memórias, criador dos aparelhos mais rocambolescos de estabilização emocional. A loucura, então, prediz esse estado de emudecimento face ao que não se pode tolerar.

O exercício estilístico arroga-se lírico, descritivo e ornamental, atento à relevância dos espaços e da configuração de um sentido de eternização amplamente procurado (e a voz narrativa há de dizer-nos da passagem do tempo apenas como pó: “a confirmação de que o tempo é apenas uma poeira que cai sobre as coisas” (Ferraz 2017: 170). Não são igualmente de ignorar os traços de autorreferencialidade da tessitura textual, apontando o fazer e o desfazer da narrativa, contraindo no título a falsidade da noção linear de memória e identidade. A repetição, como artifício de índole barroca, dá conta da desproporção que bem espelhará a contemporaneidade, no arroubo da identidade em formação, contínua. A transgressão, como advoga Severo Sarduy sobre a modernidade, ou o labirinto e a circularidade de Omar Calabrese, indigitam a verdade como um conceito aberto, reiterativo, em permanente construção. Cobiçoso, o texto, destes parâmetros, cinge-se à conjugação destes artifícios florais, por vezes inodoros, por vezes odoríficos.


CLÁUDIA CAPELA FERREIRA é trasmontana por nascimento e europeísta por convicção. Doutorou-se em Estudos Literários Portugueses com uma tese sobre a poética torguiana. Escreve sobre literatura e cinema.

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