Subversa

Abdelhamid Abaaoud | Felipe G. A. Moreira [Metamodernismo]


“Terrorist Flower”, de Bojan Jevtić.

Teus outros são aqueles que não compartilham teus pressupostos. Mesmo aqueles que você toma como absolutamente óbvios, feito o princípio de não contradição. Além disso: teus outros são aqueles que resistem a serem entendidos pelo teu logos, isto é, tua razão, lógica e/ou linguagem.

Imagine a ti mesmo com um grego antigo. Um retrato teu quando grego antigo. Você, só que vivendo uns 500 anos antes de cristo numa cidade grega, tipo Atenas.

Uma possibilidade pra ti nessa situação seria a de nem reconhecer que teus outros existem. Talvez você qua grego antigo nunca nem saberia da existência de gente que desconhece os deuses gregos. Gente que nunca leu Homero, e tem uma cor de pele diferente da tua. Gente que vive numa comunidade política cujas normas nunca foram adotadas na Grécia. Gente que não fala grego. Gente que emite uns sons que você não sabe se deve chamar de linguagem, etc.

Outra possibilidade: você saberia, sim, da existência dos teus outros. Mas os chamaria de `bárbaros`. Nisso, você estaria sugerindo que eles são incivilizados. Daí, pra você, eles não seriam exatamente gente, pessoas. Eles seriam mais ou menos desprovidos de logos, de pessoalidade.

Talvez hoje o outro mais outro de meio que todo e qualquer ocidental seja o terrorista.

“Terrorista” no sentido mais recorrente que essa palavra tem hoje. Esse sentido não é aquele usado no poema do Alberto Pucheu que eu comentei aqui na Subversa. Esse sentido mais recorrente é o de alguém que explode a si mesmo e a outras pessoas num local público. Mais: alguém que toma essa ação como eticamente justificada por conta de um motivo religioso.

Um exemplo desse tipo de motivo é dizer que, segundo o Alcorão, esse uso de violência é uma jihad, isto é, uma luta defensiva. Na sua “Carta aos Americanos”, Osama bin Laden aponta para esse viés. Ele cita e lê de um modo particular a passagem do Alcorão que diz que “aqueles que foram agredidos pelos idólatras terão permissão para usar armas. Deus é capaz de socorrê-los” (22: 39).

Na verdade, Deus faria mais do que só socorrer. Deus teria o poder de garantir a vitória dos que se engajam numa jihad. Uma outra passagem do Alcorão também citada e lida de modo particular por bin Laden na “Carta aos Americanos” diz o seguinte: “os crentes combatem na senda de Deus; os descrentes combatem na senda do ídolo Tagut. Combatei, pois, os aliados do demônio. A astúcia do demônio é ineficaz” (4:76).

Talvez seja bem difícil para qualquer ocidental contemporâneo não reconhecer que esses terroristas, parecidos com o próprio falecido bin Laden, existem. Mas não é tão difícil assim não pensar, não se importar muito com eles. Por exemplo, vivendo uma vida toda feito um desses tipos da poesia de reconhecimento, isto é, tendo experiências burguesas ordinárias; indo ao cinema, comentando (sobretudo, de modo ressentido) sobre teus relacionamentos com os teus mesmos, escutando indie rock inglês, etc.

Mas o que parece muito mais recorrente é pensar que, sim, esses terroristas existem, só que eles não são exatamente pessoas. “Pessoalidade, logos. Terroristas carecem, têm falta disso” é algo que se pensa recorrentemente, acho. Talvez isso seja algo que mesmo os tipos retratados pela poesia modernista fracassada pensem; esses tipos que são ingênuos de acharem que ainda é “novo” ou mesmo “chocante” fazer poesia sobres os outros do homem branco (sobretudos, mulheres, não-heterossexuais e negros), mas que tem dificuldade de lidar com os seus próprios outros.

Seus próprios outros: gente, feito os terroristas, que não aceita os pressupostos aceitos por toda parte no Ocidente, incluindo os pressupostos de que todo mundo deve pensar, agir, usar a linguagem de um modo que só o cordeiro em si realmente consegue dominar.

Outra atitude é a de reconhecer a existência e a pessoalidade desses terroristas, desses radicalmente outros do cordeiro em si. Acho que essa atitude é ilustrada pelo “O terrorista no seu jardim”. Esse poema foi escrito pelo Felipe Fortuna e faz parte da sua coletânea de poemas O mundo à solta, publicada pela TopBooks em 2014.

Estou dizendo que “O terrorista no seu jardim” descreve alguém que reconhece a existência dos terroristas, sobretudo, por conta do modo como a palavra “logo” é usada no quinto verso da primeira estrofe do poema. Tradicionalmente, “logo” indica a conclusão de um argumento. Isto é, esse termo indica o que se segue de certas premissas por meio de uma regra de inferência.

Quero dizer que “logo” é uma palavra tradicionalmente usada assim.

Premisa 1: Se A, B. Premisa 2: Não-B. Logo, por modus tollens, Não-A. “Logo”, nessa última frase, é um modo tradicional de se indicar pertencimento ao logos do Ocidente.

Mas não é assim que a palavra “logo” é usada no poema tratado aqui. Quando o eu-lírico diz que “logo se pensa no terrorista”, esse eu-lírico não está tirando uma conclusão que se segue de certas premissas por meio de uma regra de inferência. Isso porque esse eu-lírico está dizendo “logo” depois de ter dito o seguinte: “como se pensa na flor / seu pistilo ornado, arquitetônico / no fundo carmim iridescente / e pequenos estames feito fagulhas”. Nenhuma regra de inferência (ao menos das lógicas mais tradicionalmente aceitas no Ocidente, ou mesmo das paraconsistentes) determina que desses versos o que se segue ou deve seguir é pensar no terrorista.

Quando esse eu-lírico diz “logo” é quase como se ele ou ela estivesse flertando com o próprio outro do logos, como se esse eu-lírico estivesse quase que ele ou ela mesma se tornando um outro desse logos que não segue lá muito bem as regras daquilo que tradicionalmente é descrito como lógica.

Nisso também, o eu-lírico sugere que precisamos falar sobre os terroristas. Precisamos pensar sobre a semelhança visual de uma flor com um terrorista prestes a explodir. Porque a fala sobre esse terrorista é justamente a que merece espaço no poema e não a fala sobre a flor. Essa última fala é justamente a que é vista, a partir do logos ocidental, como sendo a propriamente poética.

De modo que “flores”, quase ouço o eu-lírico do “O terrorista no seu jardim” dizer, “quem ainda quer falar só sobre elas em poemas são esses que querem reconhecer a si mesmos em tudo, esses que nem reconhecem que seus outros existem”. E esse eu-lírico reconhece mais do que a existência desses outros: ele ou ela também reconhece que os terroristas têm pessoalidade, têm logos.

Esse reconhecimento da pessoalidade começa a se dar pelo modo como a palavra “então” é usada no primeiro verso da segunda estrofe. O modo tradicional de se usar “então” é praticamente o mesmo daquele de se usar “logo” que eu acabei de descrever. Note também que o eu-lírico desse poema do Felipe Fortuna também usa a palavra “então” de um modo não exatamente `lógico`.

O motivo é que nada do que foi dito na primeira estrofe do poema indica por meio de uma regra de inferência que há de se pensar agora sobre “um jardim / de nenhuma flor, de plantas apenas”. “Então” no “O terrorista no seu jardim” indica, leio, o ato de buscar negociar com o logos do outro que nem logos parece ter. “Então” indica uma tentativa de entender porque o terrorista de fato e propriamente pensa como pensa. O eu-lírico faz isso ao descrever esse “jardim / de nenhuma flor, de plantas apenas”, onde o “terrorista renasce”. Nisso, o poema indica que há pobreza na situação do terrorista. Talvez mesmo mais: que os países árabes têm sofrido ataques bélicos e simbólicos do Ocidente, e não é um passeio no parque ser imigrante muçulmano hoje no Ocidente.

Isso, de certo modo, explica porque o terrorista é um terrorista; porque ele propriamente pensa como pensa. O que não significa, é muito importante enfatizar, que o eu-lírico do “O terrorista no seu jardim” sugere que a ação dos terroristas é eticamente justificada, ou que esse eu-lírico tem uma solução para o problema que os terroristas colocam hoje. Pelo contrário: o poema termina comparando o terrorista a uma flor que renasceria nesse jardim de nenhuma flor.

Daí, diria mesmo que esse último verso do poema sugere um retorno para o primeiro. Feito alguém inserido numa história que é um inferno de Sísifo, uma história que ninguém mais sabe quem atacou primeiro e que só há uma jihad de todos contra todos. Logo ou então, vale lembrar que George W. Bush, pouco depois do 9/ 11, também falava em termos de “medidas defensivas” (“defensive measures”), ao declarar guerra ao terror num discurso de 20 de Setembro de 2001.

Não sou inclinado a pensar que os terroristas estejam eticamente justificados. Também não sou bobo de dizer que tenho uma solução para o problema dos terroristas. Só sou inclinado a achar que reconhecer a existência e a pessoalidade deles é pertinente.

É para esse viés também que tento apontar num poema metamodernista que escrevi antes de conhecer, mas que acho que tem alguns pontos em comum com esse do Felipe Fortuna comentado aqui. O título desse meu poema, assim como o dessa coluna, é o nome de um dos terroristas acusados pelos ataques em Paris de novembro de 2015: “Abdelhamid Abaaoud”.

Alguém que existiu. Alguém que tinha pessoalidade.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica,Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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