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Ainda sobre o modernismo português | Autolusografias

Apesar de se resumir a apenas três números (dois editados e um que não passou das provas de página), Orpheu constitui-se como o centro da produção modernista portuguesa a par, é claro, da revista PORTUGAL FUTURISTA, publicada mais tarde, a 1917. Este projeto promissor, organizado por um grupo de autores cuja sensibilidade literária e artística se afastava do academismo, proclamava uma aproximação ao experimentalismo que se vivenciava um pouco por toda a Europa, ou seja, um esforço para fazer de Portugal a pátria portuguesa do século XX, como escreveu Almada Negreiros no “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”.

Do manifesto ao ultimato, num cruzamento entre literatura e política, Campos e Almada são aqueles que possuem uma postura mais arrojada. Não obstante, vários estudos acerca do período modernista português defendem que o choque e o alvoroço provocados pela receção de Orpheu se deve mais à linha de horizonte literário da época que era absolutamente avessa ao vanguardismo a que se assistia um pouco por toda a Europa. Aliás, Fernando Pessoa, apesar de publicar as Odes Marítima e Triunfal sob a pena de Álvaro de Campos, suspeitava das posturas mais iconoclastas de inspiração futurista. Já o corpus literário de Mário de Sá-Carneiro possui aspetos nos seus textos que o aproximam de Baudelaire. Até o próprio Almada publica no primeiro volume de Orpheu um conjunto de textos chamado “Frisos”, onde a tendência mais experimentalista da sua obra ainda não é tão patente como n’ “A Cena do Ódio”, que iria sair no terceiro número de Orpheu. Claramente, o projeto órfico é travado num momento crucial de evolução e maturidade do projeto modernista português e, com a morte de Sá-Carneiro, o modernismo português fica reduzido a dois grandes expoentes: Fernando Pessoa e o seu imenso universo que tão bem ilustra o estilhaçar do eu, na sequência do homem-quase de Sá-Carneiro, e José de Almada-Negreiros, que prossegue uma viagem eminentemente pessoal da procura da sua individualidade até ao encontro de si e do que significa a poesia.

Por outro lado, se Pessoa olhava com desconfiança para o futurismo, a ele, ou melhor, ao Mestre Caeiro se deve à criação do sensacionismo, ponto de fusão de várias estéticas vanguardistas. A designação de Mestre atribuída ao heterónimo Alberto Caeiro só é entendida quando enquadrada dentro do universo da heteronímia. Fernando Pessoa é, da tríade modernista lusa, a figura considerada como mais enigmática, mais paradoxal. Aliás, não é de admirar que o oxímero seja um dos recursos estilísticos mais visíveis na produção ortónima. Agora, por que razão é Caeiro o Mestre? Ao contrário de Fernando Pessoa, o novelo embrulhado para o lado de dentro, Caeiro é o poeta da “sensação pura”, do contacto direto com o mundo objetivo, em suma, não procura qualquer explicação metafísica para a sua própria existência. Essa relação harmónica que mantém com o real traz-lhe uma maturidade e serenidade que contrasta com o desassossego do Fernando Pessoa ortónimo, do Campos da terceira fase (onde são notórios poemas como “Tabacaria” ou “O que há em mim é sobretudo cansaço”) ou até a inquietação manifestada pelo próprio Almada Negreiros.

Mais do que de ismos, viver sob o signo da vanguarda significou para a geração dos de Orpheu almejar ir mais longe. Se, por um lado, Pessoa escreveu imenso para o seu baú, criando um universo imenso e plural, Almada Negreiros, o mais jovem dos de Orpheu e aquele que teve uma vida mais longa, envereda por um caminho de pessoalíssima autodescoberta, sistematicamente abandonando o tom histriónico para abraçar uma simplicidade que só pode corresponder à lucidez que se obtém quando se encontra aquilo que se procura, mesmo que, à partida, pareça uma demanda sem fim à vista.


ZÉLIA MOREIRA (Porto, 1990) é licenciada em Língua, Literatura e Cultura Inglesas e mestre em Literatura Comparada. Lê, escreve e ensina. Publica na Subversa ao sétimo dia de cada mês. | ZELIAPGOMES@GMAIL.COM

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