Subversa

Angústia | Astronauta de Pulôver Azul Néon

Ilustração de @lilabitten [instagram]


preciso contar nos dedos os dias amenos para não esquecer
a solidão porta fechada da casa em uma rua sem saída
quase não há vento por aqui
a árvore mostra-se intacta todo ano
outono não acontece
as folhas resistem, vejo-as pelas frestas da janela emperrada
é impossível que não vente, mas, aqui, quase não venta
não tem sinal à cabo não consigo acessar à climatempo
para nos mapas e satélites decodificar a dor desse outono que não acontece
os vizinhos foram todos embora há décadas
as casas também se foram
ficaram eu essa árvore e esse muro branco impecável que dá para o nada
tem nada do outro lado
e, absolutamente o nada resiste ao tempo que não sei se corre não sei se fica
eu fico, porém
e não sei do tempo não sei por que não venta não sei por que não outona
não sei por que resisto como essa árvore sempre cheia de folhas
quase amareladas, intactas e imóveis, por um fio
não sei por que ainda me preocupo com o que tem do outro lado do muro
se nada tem para aquele lado:

a rua desemboca no muro
eu desemboco no muro
a árvore desemboca no muro
quase não venta
o céu é sempre céu daqui de um jeito que não é dia nem mesmo noite
é apenas céu
e nada acontece para cá do muro
enquanto resisto ao tempo que resiste a mim com bravura
como numa dança feita por duas crianças que se conheceram agora
e querem brincar tudo até dormir em pé
profundamente
exaustas
resisto


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR

 

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