Subversa

As Mães e As Crianças e As Senhoras e Os Escravos | Felipe G. A. Moreira [Metamodernismo]


Miguel Martinez, “Maternal”.


Primeiramente, uma confissão: a primeira vez que eu li o poema da Pat Lau —crianças e reis (ou, em francês,Des enfants et des rois) —eu chorei. Por quê? Essa pergunta ficou na minha cabeça.

Sobretudo, porque não é lá muito recorrentemente que eu choro ao ler poemas. Nisso que essa pergunta ficou na minha cabeça, pensei numa hipótese: a de “eu chorei porque esse poema frustrou minha expectativa inconsciente de reconhecimento”.

Sei lá se outras pessoas que leram o poema tiveram uma reação como a minha. Sei lá se alguém se importa com a hipótese que eu acabei de mencionar. Mas ao explicar o que quero dizer com ela, vou tentar explicitar uma tática poética usada pela Pat Lau no “Crianças e reis”. Acho que meio que todo mundo interessado em poesia contemporânea deveria se interessar por essa tática.

A tática que eu tenho em mente é: fazer o poema parecer sem realmente ser poesia de reconhecimento.

Penso que foi por conta dessa tática que a minha expectativa inconsciente de reconhecimento foi frustrada. Estou metendo essa que o “crianças e reis” parece poesia de reconhecimento porque o seu eu-lírico parece ser um tipo ordinário. Mais: porque esse poema parece usar uma linguagem quase ordinária. Mais ainda: porque ele parece descrever um velho estado de coisas atual.

O tipo que parece ordinário que eu estou pensando é uma mãe ordinária de classe média. Uma mãe de qualquer parte burguesa do mundo. Tipo: Ipanema, o 6e arrondissement em Paris, etc. A mãe ordinária que diz coisas ordinárias como: meu filho é lindo, meu filho é bom, meu filho nunca vai ser um “pobre milionário”, etc.

A linguagem que parece ser quase ordinária que eu estou pensando é uma que se vale exclusivamente de palavras corriqueiras, “é entre vc e eu / esse parque…”.

O velho estado de coisas atual que o poema da Pat parece descrever é o de uma mãe ordinária que leva seu filho num parque e diz pra si coisas ordinárias. Num parque qualquer desses do mundo burguês. Tipo na Praça Nossa Senhora da Paz em Ipanema. Tipo no Jardin du Luxembourg em Paris, etc.

Não é tudo isso muito reconhecível? Quero dizer: qual burguês já não viu uma mãe num parque burguês desses com um filho? Não é tudo isso muito ordinário, cotidiano e mesmo trivial?

Acho que sim. Mas a minha leitura é que o “crianças e reis” não é realmente poesia de reconhecimento. Ele só parece ser.

Sobretudo, porque a mãe que fala nesse poema não é nenhuma mãe ordinária que diz as coisas ordinárias que eu falei acima. A mãe que fala no poema da Pat frustra a expectativa do leitor (ou, ao menos, a minha) de reconhecer nela a mãe ordinária. A razão é que essa mãe tem uma mensagem consideravelmente original. Uma mensagem que talvez seja mesmo um tanto quanto brutal.

A mensagem é que mães são ou, ao menos, acham que são As Senhoras de seus filhos nos primeiros anos de vida desses últimos. Nesses anos, os filhos são, ao menos nas perspectivas de suas mães, Os Escravos. Estou usando as expressões “As Senhoras” e “Os Escravos” de modo técnico.

Quero soar um pouco como Hegel. Ainda que obviamente não é aqui que eu vou tentar mandar teses exegéticas sobre Hegel. Também nem sei se acredito que seja possível ter uma leitura não estupidamente problemática de Hegel. E também não sou bobo de dizer que era assim que Hegel entendia o que ele queria dizer com “senhores” e “escravos”. Só quero soar um pouco como Hegel.

Assim.

Dizendo que As Senhoras são: aquelas que estabelecem seus próprios critérios. Aquelas que tendem a descrever a si mesmas como satisfazendo esses critérios. Aquelas que tendem a descrever Os Escravos como não satisfazendo esses critérios. Critérios para qualquer coisa. Tipo: critérios para contar algo como saber, critérios para contar algo como auto ilusão, etc.

Os Escravos são: aqueles que aceitam (mesmo que inconscientemente) os critérios de algum outro. Aqueles que tendem a descrever a si mesmos como violando esses critérios. Aqueles que tendem a descrever As Senhoras como satisfazendo esses critérios.

A mãe que fala no poema da Pat pensa a si mesma como A Senhora.

Isso porque ela pressupõe que ela tem o critério para contar algo como saber. Isso porque ela diz que só ela sabe algo: que ela e o seu filho passaram as tardes nesse parque.  “Ninguém saberá” nada disso. “Nem o vento”. “Nem as folhas”. “Nem os pássaros”. Ou o filho dessa mãe.

Mais: somente essa mãe sabe que (“nessas tardes”) o seu próprio filho como “todos os homens” “nessa idade” é auto-iludido. Ele é auto-iludido porque ele acha que é rei. Mas ele é só um garotinho. Nisso, essa mãe que fala “crianças e reis” sugere que seu filho é O Escravo.

Quero dizer: ao menos “nessas tardes” no parque ele é O Escravo, ao menos na visão da mãe. Isso porque ela sugere que ele aceita ou deve aceitar os critérios da mãe (A Senhora) para algo contar como saber. Segundo esses critérios, ele não sabe nada. Ele é só auto-iludido de achar que é rei. Quando ele é só um garotinho brincando de rei. Brincando de fazer castelo de areia ou algo assim.

Além disso, talvez não seja lá muito exagero interpretativo dizer que fica implícito no poema que o filho vai ter que parar de brincar quando a mãe determinar que agora é a hora dele sair desse mundo `falso` onde ele é rei, e vir para o mundo `real` onde ele é só um garotinho brincando de rei e que agora deve ir para a casa ou algo do tipo.

Mas quem fala em “crianças e reis” tem consciência que essa situação onde ela é A Senhora e o filho O Escravo (ou essa situação onde ao menos assim pensa a mãe) pode mudar um dia. Estou lendo assim porque a mãe tem consciência do tempo. Ela pensa sobre “quando [seu filho] crescer” e talvez se tornar algo que ela não parece valorizar. Feito um “pobre milionário”. Isso também frustrou a minha expectativa de reconhecer a mãe ordinária que nunca acha que seu filho vai se tornar uma pessoa má um dia, e que nunca acha que seu filho pode se tornar mesmo seu O Senhor.

A linguagem do poema também não é realmente uma linguagem ordinária. Ela tem um fluxo. Um ritmo muito pouco ordinário. Na verdade, sou inclinado a achar que na versão em francês, o caráter não ordinário desse uso de linguagem fica mais explícita do que em português. Isso por conta dessas rimas “toi” e “moi”, “saura” e “grandiras”…

Mas tanto na versão em francês, quanto na versão em português, os versos são todos demasiado curtos. Nisso, eles se distanciam do modo prosaico da fala da gente toda, da fala da mãe ordinária. Nisso, o poema também frustrou a minha expectativa (e a de qualquer leitor?) de encontrar uma linguagem ordinária.

Por fim, o estado de coisas que o poema descreve também não é realmente um velho estado de coisas atual. O motivo é que esse poema trata dessa mãe que tem uma mensagem meio brutal e que usa a linguagem de modo bem pouco ordinário. Nisso, o poema também frustrou a minha expectativa (e a de qualquer leitor?) de reconhecer a cena do parque burguês qualquer.

Mais exatamente: o poema frustrou a minha expectativa (e a de qualquer leitor?) de achar uma descrição clichê dessa cena. O poema frustra porque ele pensa a relação da A Senhora e a do O Escravo de modo consideravelmente sutil. Sutil: e bem para além da dicotomia opressor / oprimido que por vezes é muito simplificada (como já disse na quarta coluna) em certos poemas modernistas e modernistas fracassados.

Acho que foi por conta disso tudo que eu disse aí em cima que ao ler o “crianças e reis” eu chorei.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Alexander Martins Vianna 16 de julho de 2018 em 16:16

    Caro Felipe,

    Poema de Pat Lau tem isso das guerras de compreensões que desbanalizam nossos hábitos de percepção. Há uma sutileza empática que entranha e nos estranha… Sem razão religiosa, nos reforma, não no sentido moralina, mas naquele de olhar de outro jeito o ordinário, vendo a célula extraordinária que margina nossos belos e nossos horrores, sem razões binárias, algo que ainda não sabemos codificar, porque precisamos descobrir, em nosso cotidiano criativo, como ser esta potência poética que tem coragem de ferir-se sem medo.

    Abraços e obrigado por esta leitura.

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