Subversa

Auto-consciência como valor estético | Felipe G. A. Moreira [Metamodernismo]


“Self-Portrait of the Artist” (1993), de Andy Burns

Três critérios tradicionais para se ajuizar sobre o valor estético de um poema são: acordo com o belo, acordo com o sublime e acordo com o choque. Não é lá muito fácil determinar precisamente condições necessárias e suficientes para um poema satisfazer esses critérios.

Mas acho que também não é lá muito, muito problemático assumir que, bem, um poema belo tem mais ou menos as seguintes características. Ele retrata a pessoa de fé que crê na metafísica judaico-cristã; alguém que acredita que Deus existe, que existe um paraíso, que pressupõe sistemas filosóficos feitos os de Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino. Mais: um poema belo usa métricas rígidas (e.g., a terza rima), e aponta para uma repatriação da alma. Isso naquele sentido medieval que eu já abordei quando falei sobre a Francesca Cricelli. Considere, sei lá, a Divina Comédia de Dante escrita entre 1308 e 1320. Não acho que estou dizendo nada de muito louco ao dizer que esse poema tem essas características e que, daí, ele é um poema belo.

Acho que também não estou dizendo nada de muito louco, ao dizer que um poema sublime retrata a pessoa romântica. Essa é a pessoa que pressupõe um sistema metafísico que dá mais importância para o humano do que aqueles que colocam Deus como o ente mais fundamental. Estou pensando em sistemas que tem mais em comum com os de Kant ou Fichte do que com os de Agostinho ou Tomás. Além disso, um poema sublime usa métricas menos rígidas do que as medievais, ou mesmo abdica de métricas. Esse poema também procura pensar a impossibilidade de um primeiro princípio e/ou o conflito entre a matéria-finita e a imatéria-infinita; o que é da segunda na primeira e vice-versa. Pense, por exemplo, nos Hinos para a noite do Novalis, publicado originalmente em 1800. Diria que esse é um poema sublime.

Me parece também que As Flores do Mal de 1857 de Baudelaire tem vários poemas chocantes, feito o A Viagem sobre o qual já falei. Isso se também não for muito louco assumir que um poema é de acordo com o choque se e se somente se ele parece indicar que só há, em suma, a matéria finita e é um poema modernista (bem , ou talvez metamodernista, mas não quero falar de novo sobre a possibilidade de choque da poesia metamodernista de novo). O que eu quero dizer é que, como sempre nessas colunas, entendo o poema modernista como um que retrata desviantes, usa uma linguagem alternativa e faz um elogio e/ou aponta para o novo.

Talvez um dia eu tente dar condições mais precisas para um poema ser de acordo com o belo, o sublime ou o choque. Mas o que eu quero fazer aqui é outra coisa. Eu quero defender uma leitura do poema “Na Antessala” do Antonio Carlos Secchin. Esse poema pode ser encontrado na coletânea de poemas do Secchin, Desdizer e antes, publicada pela Topbooks em 2017.

A leitura que eu vou defender é que esse poema do Secchin não é belo, não é sublime e não é chocante. A razão é que esse poema não tem as características que eu mencionei acima. Ele não satisfaz plausíveis condições necessárias e suficientes para ser de acordo com o belo, o sublime ou o choque. Mas isso importa pouco. Importa mesmo nada. O que importa é que um quarto critério não tradicional para se ajuizar sobre o valor estético de um poema pode ser extraído do “Na Antessala”. E, se esse critério for aceito, o poema do Secchin tem valor estético. Mais explicitamente: o que eu estou dizendo é que se esse poema for lido nos seus próprios termos, ele tem valor estético.

O critério que eu extraio do poema do Secchin é o que eu vou chamar de acordo com a autoconsciência. Diria também que o “Na Antessala” indica que um poema é autoconsciente se e somente se ele mesmo indica e satisfaz o critério por meio do qual seu valor estético deve ser julgado. Acho que o poema do Secchin satisfaz esse critério. Logo, ele é um poema autoconsciente.

Pra começo de conversa, esse poema indica bem explicitamente que ele não é chocante. Isso porque o eu-lírico do “Na Antessala” explicitamente diz que seus versos “não valem um só de Pessoa”, que sua poesia só “foi pastiche / da poesia de Drummond” e que nada na sua obra se parece com a de “Cecília Meireles”. Eu leio Pessoa, Drummond e Meireles como poetas modernistas tradicionais, isto é, eles são aqueles que fazem alguns poemas que são de acordo com o choque. Daí, eu interpreto essas passagens do “Na Antessala” como a maneira do eu-lírico de dizer ao leitor que: “não me julgue à luz desses poetas modernistas. Faça-me o favor, sim, de nem mesmo pressupor que acordo com o choque é o critério por meio do qual isso mesmo que eu digo nesse poema deve ser julgado”.

É mais problemático, mas acho que não é lá muito louco (talvez só um bocadinho louco) interpretar que esse eu-lírico também está sugerindo que acordo com o sublime e acordo com o belo também não são os critérios por meios dos quais “Na Antessala” deve ser julgado esteticamente.

Note que o eu-lírico insinua (de leve, eu sei, bem de leve) que ele já teve uma vontade romântica de nunca publicar nada em vida, de morrer cedo e ser descoberto como gênio depois da morte, tal como alguns poetas do sublime. Acho que dá pra tomar os seguintes versos como evidência (mesmo que um pouco fraca) disso: “Ressoa na minha gaveta / um comido de versos reles”. Note também que o eu-lírico menciona que ele teve uma experiência muito próxima da dos poetas medievais, os poetas do belo; “trancafiei-me num mosteiro, / esperando de Deus um dom”. Mas “Na Antessala” termina assim: “O desavisado leitor / não espere muito de mim. / O máximo, que mal consigo, / é chegar a Antonio Secchin”.

Minha intepretação é que a conjunção dessas passagens que eu mencionei no último parágrafo são o modo do eu-lírico dizer ao leitor que: “também não me julgue à luz dos poetas românticos ou dos poetas medievais. Faça-me também o favor, sim, de nem mesmo pressupor que acordo com o sublime e acordo com o belo são os critérios por meio dos quais isso mesmo que eu digo nesse poema deve ser julgado”. “Me julgue”, eu ouço o eu-lírico do poema do Secchin dizendo, “à luz do critério que esse próprio poema está indicando que ele deve ser julgado”.

Acho que esse critério é o acordo com a autoconsciência e que, se esse critério for aceito, o poema do Secchin tem valor estético. Isso porque ele indica que ele deve ser julgado por meio desse critério. Mais: esse poema satisfaz esse critério, ao explicitamente saber-se a si mesmo como um poema de Antonio Secchin. Isto é: um poema que não é belo, sublime ou chocante, mas autoconsciente. Isto é: um poema que reconhece a si mesmo como estando “na antessala”, uma vez que apenas os poemas belos, sublimes e chocantes estão (por assim dizer) “na sala” ou “no grande salão” que é a história da poesia protagonizada por Dante, Novalis, Baudelaire, etc.

Agora…

Note que a virtude de ser autoconsciente é tradicionalmente vista como sendo epistêmica; não estética. Daí, ouço a objeção que talvez venha do próprio salão da história da poesia. A objeção é: você não explicitamente mostrou porque essa visão tradicional deve ser revisada.

Eu responderia dizendo que, bem, não é o poema do Secchin ele mesmo uma razão (talvez mesmo uma razão suficiente) para revisar essa visão? Assim: dizendo que ser autoconsciente também pode ser uma virtude estética, não exatamente de uma pessoa, mas de um poema.

Eu espero que sim, mesmo porque acho que eu mesmo sempre tentei escrever poemas metamodernistas constrangedores, mas também autoconscientes. Quero dizer: a minha pretensão não é “só” escrever poemas metamodernistas; é também indicar por meio de qual critério esses poemas devem ser julgados.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica,Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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