Subversa

Baixa-mar | Um Lírio sobre os Olhos

Ilustração de Marilia Moser


Ao fundo das águas,
a miragem duma ilha.

São as distâncias reflexo
do abismo sobre nós debruçado,
imensa vertigem
donde uma rosa branca
se despenha.

Só há sombra no olhar
que tarda em reconhecer a luz.
O que vive pulsa
diante dos rostos poisados
nos braços do sol:

gaivotas e andorinhas
riscando um céu de algodão,
as próprias águas
que fundo rugem sem indício
de mácula ou dor.

A vigília das rochas
não permite engano:

sobre as areias o sal cintila
no êxtase puro
das solidões estelares.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. pedro marques 13 de Maio de 2017 em 15:02

    Neste poema, na evocação da vigília das rochas e em cujas praias o sal cintila, eu não posso atingir a ideia do autor. Mas consigo da sua ideia umas instrospecção em recordações minhas do passado. Onde há rochas transformadas em catedral. Onde o sal brilha sob a luz do sol nessas rochas como estrelas até que uma onde mais atrevida após a lassidão das anteriores as esparrinha em espumosos bagos de sal.
    Um poema é sempre uma janela aberta que nos leva a horizontes intangíveis e distantes na sua infinitude sempre em fuga ao nosso esforço de aproximação. E por estas janelas abertas – neste caso por este poema – outros mundos se nos revelam de memórias ressuscitadas em harmonia com imaginários do momento. Impossíveis na sua criação, não tivesse sido, neste momento, a janela que se nos abriu.
    Um poema contemplativo que se fecha na sua concha de nostalgia.
    Lindo!

    • Pedro Belo 14 de Maio de 2017 em 15:11

      Meu bom amigo,
      É sempre um prazer receber uma apreciação sua, e uma honra merecê-la. Sabe que muito me gratifico com tal.
      Este poema foi escrito defronte para o mar em Armação de Pêra, no Algarve, num momento de profundas indagações pessoais. Saiu como saiu: com um traço algo metafísico e um carácter reflexivo também algo evidente, embora exposto já de um modo mais conclusivo (nomeadamente aqui: «Só há sombra no olhar / que tarda em reconhecer a luz.»). O maior deslumbre que permitiu dar estes versos à matéria foi uma cintilante evidência: a praia algo deserta, o sol quase a tombar a ocidente, poucas gentes vagueando pelas ruas, a monotonia feliz das vagas, a luz da hora, o cheiro do vento… Daí despontou um entendimento: a profunda solidão inerente a tudo, mas não num registo lúgubre ou opressivo – antes num timbre de pura liberdade, como se cada elemento em êxtase cantasse. É, na verdade, um hino à liberdade interior, ao cariz mais sacro e silente da existência.
      Agradeço de novo o seu amável comentário e as considerações que nele teceu. Com maior ou menor enigma, o poema serve muitas vezes de janela, como bem diz, para cenários que ao leitor são familiares, e tudo isso a partir do íntimo partilho pelo autor. É um efeito real e deveras interessante (desenho um rio onde quem o ler verá o seu próprio rosto reflectivo).
      Um forte abraço, meu caro.

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