Subversa

brasília – fronteira do início | Astronauta de Pulôver Azul Neon

    Ilustração de @lilabitten [instagram]

para celinha, minha segunda mãe

conheço brasília das fotos
as ruas chão de esteira que só te levam
para lá do planalto de um céu azul, sem nuvens,
que me contaram outro dia

às vezes confundo memórias
inventada com as de cartas marcadas
ambas coincidem com o tempo
em que os dentes balançavam na boca
outrora, a flor do cerrado era só o rosa das gengivas
que sorriam para dentro numa foto sépia

confundo sqn 104 com osório 1428
e não sei se estou dentro de um elevador
presa naquela foto de despedida
os olhos vermelhos dos que entendiam a distância
e, eu, com as mãos enlaçadas no abraço vazio das ausências
ou se estou em um pequeno gramado ao sul
onde tudo pampa, verde e lisinho
como um mate recém cevado
a fumaça da água quente conversando com a fumaça
igualmente quente da boca ao beijar o inverno de mantas e ponchos
em uma manhã de sol
o céu daqui inconfundível, dizem outras bocas com erres vibrando entre os dentes

só conheço um, um céu apenas
não tenho parâmetros para estipular comparações
e desferir com o dedo rígido o vencedor de melhor-céu
mas sei que tem o céu que existe
carrego-o todo dia sobre a cabeça
enquanto me desvencilho dos postes nas calçadas restritas da félix
carrego-o quando sobra tempo de olhá-lo
e constatar que deveria saber tanto quanto
quem não teve o trabalho de criar raízes porque
simplesmente já fora plantado na praça coronel pedro osório
com uma placa distinguindo gimnosperma de angiosperma
─ preciso de guia, gps, ajuda da mãe para encontrar a tamandaré
ainda me perco perto de casa e dou como falha a memória gasta no divã

viro crente e rezo para que ninguém me peça informação, quando: invento sotaque
falo como paulista, não sei como falam em Brasília
falo meio carioca perdida em fórrrrrtaleza tentando não passar vérgonha
finjo que não sou ou simplesmente confirmo que não sou daqui
com o sorriso cinza de setembro

mas tem o mate, o chimas entre amigos e família, e aquela coisa sulista
de pensar no sul, em qualquer diálogo da tevê, como referência ao rs
e rs na linguagem da internet me confunde, não tem jeito,
sempre leio rio grande do sul para só depois entender o contexto
rs ─ risos r i s o s
(quem ri risos?!
informal demais quem ri rs)
eu não digo que estou rindo quando estou fazendo
é um hábito que vejo nas conversas dos outros, dos outros do país
para mim, rs sempre vai me remeter a ideia de onde estou
o que não faz de mim isso, não faz de mim sê-la rs

eu ando pelas ruas como se das ruas soubesse
falo com as pessoas como se das pessoas soubesse
sempre caminho em frente, tentando ser o menos distante
que os locais: meio gélidos, meio soberbos, meio pálidos, estranhos em comunidade
e eu sigo, pensando que talvez em df as pessoas sejam como eu
(não entremos no assunto atual de jaburus, aliás, #foratemer, mas não me refiro a eles)
e então eu lembro de quando minha mãe conta com mágoa
que havia caído comigo em plena rua da capital do brasil
eu bati a cabeça em uma pedra
alma viva que por ela passava não manifestou interesse nem piedade
nem jogou esmola, como se fôssemos dali, do chão mesmo
ninguém-nos-viu, ninguém-se-apenou, ninguém-existiu
e eu me sinto triste pela frieza, me desconheço nessa frieza
e sei que o adaptar-se naquelas épocas pós-ditadura
deve ter criado uma atmosfera de inteira e absoluta desconfiança
ou, o mais provável, apatia generalizada
já se viu, sentiu, morreu o pior da pior forma:
uma mulher caída ao chão com sua recém nascida desmaiada
não abala qualquer coração castigado, duro pelo chute do coturno

não sei, talvez tenham sido meus 13 anos de terapia
que me fazem querer enxergar o outro além do que ele mostra
ou o tempo de sobra que tenho aos montes derramado sobre a mesa das memórias

quanto mais os anos se vão e mais em mim me fico
o que está entre df-rs é o que me mantém viva, suponho
é o que tenho de mais utópico e sagrado
esse espaço que ninguém nenhuma referência preenche
nem mesmo a poesia preenche
nem mesmo os amores idos preencheram
essa enorme lacuna de minha vida
é tudo que sei que sou
por isso sigo sendo qualquer coisa no imaginário de quem me lê
qualquer coisa no imaginário e nas orações de minhas mães


FABÍOLA WEYKAMP tem seu primeiro livro de poemas “Resenhas da solidão – um livro de poesia e dor cotidiana”, publicado pela Editora LiteraCidade, Belém/PA, 2015; obra ganhadora do Prêmio LiteraCidade Jovem, 2014. É colunista da Revista Subversa | FABIWEYKAMP@YAHOO.COM.BR

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