Subversa

cacos imaginários | Bianca Camargo de Lima (São Paulo, SP)


1

não consigo acompanhar o fluxo da sociedade
emperro e regurgito
vomito e descubro
que tenho refluxo

2

toda vez que escrevo
paro para escutar minha voz
ela repete rouca, atrasada
o caminho que a mão trilhou
gagueja pelos erros da caligrafia
e se engana em pensar que aquilo tem fim

3

sigo a rua sem questionar
apenas ignoro os desvios
sigo a rua em linha reta
não me dobro aos sinais
vou até seu fim
para descobrir então que
ela não tem saída

4

fingi que aceitei por um momento
tive um esforço de continuidade
mas a resistência do ar é maior
e então desisti de pular
sem paraquedas

5

sou um disco riscado
minhas cicatrizes não deixam
a música não flui
sou interrompido pelo passado
sou o chiado entre estações
cacofonia sou ou

6

a fala fala de mim
o que não quero dizer

7

a música do seu silêncio
adensa minha solidão
prefiro seu choro

8

patino na partitura que quero criar
continuo sem ritmo
na eufonia do acaso

9

seus olhos me seguiram
e me acompanharam
viram meu pulo virar voo
meu voo virar queda

10

fragmento
a vida
para conseguir
engoli-la

11

suspiro o último sopro
sangro
sofro
a voz que soterra
meu corpo
parto
sou a luz
resisto


BIANCA CAMARGO DE LIMA  é paulistana e estuda Filosofia. Com as palavras, ela borda histórias. Com as histórias, ela tenta dar sentido à vida. | bilimacamargo@gmail.com

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